Arrumara a mochila tentando enfiar ali o misto de ansiedade e apreensão que sentia.
Formigavam-lhe os dedos. Queria ir logo, estar logo com Marcelo outra vez, num lugar especial, entre amigos... Dele.
Havia pensado muito depois de ter aceitado o convite: ele queria assumi-la diante dos seus amigos da faculdade, isso era bom. Como seria recebida? Olhares, muitos olhares. Estava sendo tomada por um pavor... Ser avaliado com olhares incisivos é uma das formas mais cruéis de opressão.
Era uma casa grande, bonita, arejada, e extremamente desorganizada a que ficariam. Além dela e Marcelo, estariam ali mais três casais.
A princípio todos falavam muito e ao mesmo tempo, não se importaram com a presença de Thaís, isso a confortou. Havia porém, uma moça loira e esguia que lhe fora apresentada como Karina, - namorada de um dos rapazes da turma de Marcelo, o piadista e gesticulador Felipe – que não baixava a guarda; Karina a olhava como se a despisse e fazia certa questão de usar termos comuns àquele grupo que Thaís desconhecia.
Passaram o dia inteiro divididos entre alguma bebida e conversas aleatórias, bastante sol, e alguns momentos de privacidade para os casais. Marcelo mantinha-se atencioso, mas não se posicionava quando as coisas tomavam um rumo desconfortável para Thaís. Isso a fez permanecer um tanto retraída.
Como a tarde declinava Marcelo a convidou para estarem um pouco a sós; foi com certo alívio que se retiraram discretamente para a beira da água. A maré estava baixa e as ondas continuavam vagarosamente naquele ir e vir indeciso... Caminhavam abraçados sem mencionar palavra, foi ele que quebrou o silêncio:
- Então, pode me crucificar agora... Foi uma péssima idéia.
- Não foi, não. (mentiu)
- Ok, pelo menos consegui ouvir a sua voz agora...
- Falta de assunto, só isso. Eles são todos legais.
- São.
Marcelo levantou o rosto e fitou alguma coisa invisível... Respirou fundo e retomou um diálogo agora mais voltado para os dois. Desculpou-se, e delicadamente tentou animá-la. Thaís entrou no jogo, mesmo notando que alguma coisa o perturbava tanto quanto a ela. Dessa vez, foi ela quem falou:
- O que é essa ruguinha bem aqui?
- Hummm, nada que um beijo seu não dissipe.
Beijaram-se, primeiro com o toque sutil de lábios omissos, depois com a verdade e a lembrança do sentimento que tinham um pelo outro.
O vento brincava com os cabelos dela, a areia saltitava atrás das pegadas dele. Voltaram a sorrir timidamente, naquela união regida pelo trato de almas doces, joviais.
Voltaram à casa abraçados. Ele respirava aqueles ares como quem retorna ao escritório depois de meses de férias: um tanto ansioso, um tanto preocupado com o que deixara e como estaria. Ela, deixava-se tomar pela segurança que só agora principiava, estaria mais aberta... Tudo aquilo estava prestes a acabar, não custava ser um pouco mais sociável, sim... Ela que se fechara, faria isso por ele.
Eram quase 19:00h.
Marcelo beijou-lhe a testa e o rosto e disse que ela ficasse ali com a Mel, não demoraria. Melissa era uma das jovens que ali estavam, era a mais baixinha e a mais sorridente – também havia sido a mais receptiva. Era dos pais dela aquela casa, pouco usavam -. Logo teceram uma conversa animada, e Thaís pode ver que não lhe era forçoso estar ao lado dela, os amigos de Marcelo bem deviam ser legais... Sim, o eram.
Como o papo já durasse mais de meia hora, Mel disse estar com fome e sugeriu irem comer alguma coisa. Thaís quis esperar Marcelo, mas ela disse que lhe desse um tempo, provavelmente estava com os outros rapazes fazendo ‘coisas de homem’ como, por exemplo, falar delas.
A cozinha era grande e toda branca, - a parte mais organizada da casa - e contrastava imensamente com todo o resto. Enquanto dividiam uma torta salgada, Mel continuava falante. Por algum motivo Thaís começou a dispersar-se: aquela cozinha branca parecia deixá-la menor, sufocá-la... Todas aquelas gavetas, azulejos, tudo tão branco... A ausência de cor lhe cegava, deixava o ar mais rarefeito.
Interrompeu-se pela entrada barulhenta de Vítor e Nanda, um outro casal que viera passar o dia ali. Perguntaram por seus respectivos namorados, mas, os outros dois já um pouco altos pela bebida, disseram não fazer idéia, e subitamente saíram da cozinha assim como entraram. Embora a companhia de Mel fosse agradável, Thaís começou a preocupar-se. Não gostava de ficar longe de Marcelo, muito menos ali. Também não tinha planejado passar a noite, voltariam de carro e a viagem durava em média uma hora. Estava chegando a hora de despedirem-se; ela precisava estar em casa quando a mãe ligasse no domingo pela manhã.
A sua mãe sempre checava se estava tudo bem.
Decidiram partir em busca de Caio e Marcelo. Agora mais à vontade, Thaís ousou perguntar algumas coisas sobre os outros casais. Mel traçou um rápido perfil de cada um deles:
Ela e Caio namoravam a mais de um ano, conheceram-se através de Marcelo, e embora fossem opostos em quase tudo, tinham um relacionamento saudável, feliz... Ela julgava.
Vítor e Nanda eram o tipo de casal chiclete, chegavam a ser chatos de tão apegados, mas no fim, se mereciam... Ainda terminariam no altar certamente, sentenciou.
Já Karina e Felipe eram o casal mais improvável... Karina era sua amiga há muitos anos, mas nunca achou que se interessaria pelo Felipe. Depois que ela e o Marcelo terminaram...
- Eles namoraram?
- Ele não te contou?
Agora estava mais claro: o tom sarcástico como Karina falava, a altivez com que a olhava... Thaís entendeu tudo, inclusive o constrangimento de Mel, julgando ter falado mais do que devia.
- Não tem problema, pode falar. (tentou amortecer, queria mais detalhes)
Mel falou com cuidado de quem escolhe as palavras certas: Karina e Marcelo haviam terminado por pura incompatibilidade, ele água, ela fogo. Ele um rio manso, ela a larva quente de um vulcão. Brigavam constantemente. Continuaram se falando, a prova que haviam superado era ela namorar agora o melhor amigo dele, o Felipe. Felipe sempre gostou dela... Mas tinha o Marcelo, ele não tentaria nada. Ela por sua vez, nem notava a existência de Felipe, até uns dois meses atrás.
“O fato é que somos quatro casais, cada um feliz, curtindo e vivendo ao seu modo.” Concluiu.
Deram a volta na casa, passaram pela praia e não os encontraram. Quando estavam entrando novamente, viram Caio e Felipe que pareciam conversar alto perto da porta dos fundos, Felipe parecia nervoso... Era uma discussão. Caio usava seu próprio corpo para interpelá-lo e fazia gestos pondo sempre as palmas das mãos para baixo. Pedia calma.
Thaís refreou o passo e temeu aproximar-se, não por medo, mas como que por pressentimento. Depois disso tudo ocorreu em flashs, as cenas piscavam em câmera lenta sendo intercaladas por um vazio pesado, mudo, branco...
Ao captar não mais que duas ou três palavras da discussão ainda mais acalorada dos meninos, Thaís adentrou com o ímpeto fastidioso e seguiu o mais rápido que pode para as escadas. Tudo era retorcido. Monstros feios e suarentos saiam das portas que ela abria, salivando para devorá-la. A penúltima porta a abocanhou com a verdade: Marcelo e Karina falavam baixo e rapidamente, pareciam tomados por algum pânico, sabidos de alguma notícia assustadora, eram ambos de uma euforia danosa. Ela tentava prender os cabelos e tinha os olhos verdes amedrontados, ele colocava a camisa e estava a dois passos da porta.
Viram-se. Ele e Thaís se olharam. Tão perfurantemente... Mergulharam dessa vez, no limbo das más palavras não ditas.
Ele não disse nada, ela não ousou piscar. Ele não a tocou. Ela não se mexeu. Os lábios dele tremiam, ela parecia uma estátua de sal, branca, emporcelanada. Ele desviou-se dela, desceu as escadas.
E era o mundo real assassinando-a pela primeira vez.
1 comentários:
Que lindo teu cantinho, e além de lindo, poético...
ADorei, beijos doces
Nanda
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