
Lembranças são tão palpáveis que tenho medo de lembrar de lembrá-las, pois certamente as tomarei como travesseiro.
Lembro-me muito do meu pai.
De seus hábitos distintos, de seus chapéus como que saídos de um Brasil provinciano...
Lembro-me dele debruçado sobre o engenho, olhando pra nada, cantarolando umas músicas doces e totalmente desconhecidas pra mim. Sinto saudade daquele cheiro de café, do vício dele em café... Das poesias que ele recitava pra mim... É, ele recitava mesmo e sabia muitas...Eu não entendia quase nada, mas como achava bonito o som das rimas!
Sempre cheio de umas adivinhações bobas que eu nunca conseguia resolver, sempre cheio de histórias de sua infância na década de 20.
Recordo quando em algumas tardes deitávamos no chão frio da sala, cada um com seu travesseiro... Às vezes ele cochilava, às vezes nós dois... Mas se ele não dormisse, eu nunca dormia.
Lembro graciosamente da sua “percata” de couro e a mania de chamar vermelho de encarnado. Do seu machismo agudo, interesse além da conta pelo mulheril, e principalmente a mal disfarçada preferência que tinha por mim... Que saudade dos infinitos mimos, dos gostos mais abusados que ele sempre saciava (dos chocolates de embalagem azul, não lembro o nome, mas que ele sempre me dava).Daquele peito já cheio de cabelos brancos, das pontas dos dedos amareladas pelos cigarros através dos anos.
Lembro-me dos presentes trazidos das viagens que ele fazia: estojo de maquiagem, uma saia rodada, uma bolsa vermelha que eu amava (e cá pra nós, era horrível) coisas pro cabelo... E se fosse viajem menos demorada, sempre trazia algo de comer (sabia bem de meu apetite!). Teve também a viagem que fizemos juntos, só nós dois... Era à casa de um antigo amigo (para Barra de Pojuca), eu lembro que foi a última vez que bebi água de coco, não gosto mais. O amigo me tratou como boneca, o meu pai me tratou como princesa (reinei no mundo dos doces, das baianinhas – só quem já tomou entende – e dos picolés...) talvez eu o fosse pelo menos pra ele; e eu nem sabia o motivo da viagem.
Eram pouquíssimas mas sérias as broncas, eram grandes os ensinamentos.
Acho que meu pai me ensinou a rir: com suas intermináveis peripécias narradas com riqueza de detalhes, eu descobria sobre o Recife em que nunca estive, o Recife das décadas de 30, 40, 50... Eu também não sabia o que era o medo de tiros que o fazia esconder-se embaixo da cama, não sabia qual a importância de ter uma sandália feita de pneu e ficar orgulhoso, não sabia o que era morar num sítio e até matar cobras...
Mas ele me falava sobre isso.
Eu ouvia tudo com o interesse de um historiador, com a paciência de um filólogo e os olhos de uma criança, o que de fato eu era.
Hoje quando as pessoas me perguntam, encho o peito e digo que SOU A CAÇULA DE SEU ZÉ.
A menina que ele não gostava que saísse, aquela criaturinha magrela demais que ele paparicava. Conhecido por todo mundo: pela paciência, pela “mão aberta” (até demais) e por ser um homem que casou com uma mulher mais de trinta anos mais nova... A minha mãe. Um pernambucano literalmente “das antiga”, que nunca usava bermuda, que era totalmente homofóbico, que tinha o mesmo ofício que o José, pai de Jesus.
Apaixonado por Xitãozinho e Xororó, Sérgio Reis, Nelson Gonçalves, Valdick Soriano e infinitas músicas de raiz (sem falar nos repentes, ele amava repentes). Um homem que chorava ouvindo Jair Rodrigues cantar, que chorou no enterro de Leandro (da dupla Leandro & Leonardo) e que não admitia que meu irmão deixasse o cabelo crescer.
Um homem que sofreu durante anos com asma, que tinha rinite alérgica (puxei a ele) e úlcera, mas nunca ouvi reclamar, nunca (detestava hospitais e médicos mais ainda)... Sofria calado entre buchichos com minha mãe e gemidos à noite.
Homem que só comia com tudo separadinho, garfo e faca e reclamava sempre de algum detalhe. Homem que de vez em quando saía só pra caminhar, sozinho... E que eu amava tanto pela atenção que me dava. Ele fez basicamente o que nenhum ser humano jamais fez até hoje: me ouviu, me deu crédito, dedicou tempo à mim.
É isso que o diferencia de todos, até da minha mãe (minha pérola).
Hoje já não choro mais... Embora fuja a essa regra agora (...)
Pois não é a lembrança do último dia que o vi... Rouco, mais magro, cansado e como se soubesse o que iria acontecer...
Não é a lembrança na hora em que tomada de medo, lhe “dei a bença” a última vez... Aquela mão já meio sem vida, o peito que respirava ofegante. Eu tinha apenas 9 anos, mas quando papai morreu (é, eu o chamava e chamo assim até hoje) eu sabia que alguma coisa nunca mais voltaria.
Ps.: perdoem a pieguice do texto, mas é o retrato que conservo de meu pai... Ele não sobreviveu até a minha adolescência, por isso nunca deixou de ser o meu super-herói.
Ps.2: Papai usava um chapéu igualzinho a esse e tinha um marrom também...Acredite quem quiser, relembre quem viu.