26 de fevereiro de 2010

É porque senti - Parte I

Postado por Keu Azevedo em 26.2.10 6 comentários


Sentada com a testa a roçar os joelhos, ela pensava.
Ventava pouco e o fim de tarde era de uma mornidão incômoda.
Ela nem sabia de temperatura.
Ao seu redor, poucas pessoas e pouco barulho.
Ela também não sabia de som nenhum. E gente, gente era vulto, carne e pano. Descoloridos, em movimento.
Tinha 16 anos e pouca vida. 16 anos sem certezas.
Uma menina que espera a meia-noite só pra poder criar a ilusão de que o tempo não existe: nem noite nem dia, só ela e as coisas pequenas desprotegidas no mundo grande.
Mas agora estava ali. Com o cadarço do sapato desamarrado e as unhas sujas. 
Ela só sabia do branco. Era o branco que ela via quando pensava numa solução. 
Todos os outros fatos tinham cores, mas o depois era branco (horas adiante? Todas brancas). O branco lhe emudecia.
Concentrava suas emoções na nuca.
Era a nuca que tremelicava quando estava nervosa, era ao redor da nuca que sentia o fervilhar de vergonha, era a dor aguda na nuca que antecipava qualquer outra dor, qualquer outro golpe.
Sua nuca agora estava fria, rija. Como só acontece quando lhe bate o desespero. 
O desespero dela é assim mesmo: de cabeça baixa e narinas abrindo-se e fechando-se em sintonia com as lágrimas que reprime... Reprime e só caem por infração. Suicidam-se da ponta do nariz pra molhar suas coxas.
Olha o relógio. Todo o tempo está abafado. Coração abafado. Alma sufocada.
Ela pensa que olha ao redor e nem sabe o que vê. Mas precisa voltar pra casa.
Só precisa, não quer.
Respira mas não fundo o suficiente e a última lágrima mártir, entrega-se, precipita-se e morre em seu colo.
Resignada prepara-se para levantar. Olha o cadarço. Queria amarrar. Mas não pode concertar tudo, tudo está fora do lugar, o mundo todo é um tear de tênis e cadarços. 
Todos desamarrados, ela não pode fazer nada.
Segue com as mãos nos bolsos, bolsos de trás. Essa mania estranha. Menina não anda com as mãos nos bolsos, menos ainda nos de trás. E ela se importa? Nem com as mãos de unhas sujas muito menos com o cadarço.
O nariz vermelho a denuncia, o cabelo desarrumado não. 
Uma vez em casa – planeja vagamente – vai direto para o quarto. E o que mais (dentre todas as coisas da Terra, palpáveis ou não) ela desejava agora, era não ser obrigada a responder nenhuma pergunta. 
Odiou perguntas e todas as pessoas que perguntam as coisas, pra ela e pra qualquer um. Jurou não fazer mais perguntas pra ninguém. 
A aflição faz qualquer jura fazer sentido.
Não morava longe dali. Faz 8 anos que sabia o caminho. Há oito anos começou a ir e vir sozinha. Mas desde aquela época, sempre tinha uma pergunta ou outra. 
Hoje era o que mais temia. A possibilidade de uma interrogaçãozinha sequer, fazia sua nuca latejar.
Contou. Sugou o ar pesado. Entrou em casa.
Colocar um pé na frente do outro nunca foi tão difícil.
Sumiu.
Trancou-se.
Agora está livre para sentir-se imbecil, para se arrepender. E para despedir-se de vez da criança que era. Que ela abandonou naquele banquinho há alguns minutos atrás. 
Sem volta.


23 de fevereiro de 2010

Pausa

Postado por Keu Azevedo em 23.2.10 2 comentários
Ando com o cérebro calvo de ideias.
Outro dia saí cedo pra caminhar. Encontrei a mim mesma. Eu queria poder contar como foi, mas meu caráter descritivo ainda estava dormindo...
Estou desligada. Mais que o normal.
Não reclamo, passei tempo demais à toda potência. Não será crime admitir certa palidez.
Eu sempre me acho um amontoado. Demais. Então, não está sendo custoso pisar no freio... Nunca vi ninguém morrer por conta de um escalda pés.
As pessoas estão com uma mania de atribuir significados demais ao Silêncio. O meu Silêncio é quase sempre ausência, quando não, covardia.
Transito entre manhãs quentes com um corpo pesado, enquanto o tempo desfila elegantemente... E eu respirando morno, expelindo fios de felicidade. Só isso. Mas bem por enquanto.
Ando sonhando mais que antes, sonho com pessoas e fatos. Mas não sonho com o passado, sonho um futuro que já vi. Não sei explicar como. A gente projeta e formula coisas demais quando está descansado. Só vale à pena ir dormir cedo, se for pra preencher todas as horas extras com sonhos...
Andei remexendo o meu lixo interno. O cotidiano faz a gente jogar fora coisas demais. Havia uma lata cheia de embalagens, pequenos objetos e papéis. Cada informação, cada figura, tudo remetia a uma vida que seletivamente deixei pra trás. Abandonei ao lodo. A maioria deve mesmo permanecer lá. Mas voltar àquele lugar me fez lembrar os porquês. E eu fiquei feliz pelas escolhas mais difíceis: me fizeram atirar fora coisas valiosas que já não me pertenciam.
Cada dia nasce para que determinemos o que fazer com o fôlego que nos foi dado. É por isso que deve fazer sentido. Deve ser bem respirado. A gente vive nesse mundo é pra se dilatar... Mas não para nós.
Eu tenho medo de ser grande em tudo, pra tudo, qualquer coisa. Mas tenho mais medo de comprimir-me tanto a ponto de sumir, e ter vivido só pra mim mesma. Tenho saudades do tempo em que tudo era menos letal. E nós achávamos que ainda havia tempo. Eu decidi, depois de tudo, que minha vida terá o cheiro do entardecer e a temperança do crepúsculo. Não será nada fácil. E fico arrepiada só de pensar.
No fim das contas a gente quer companhia porque tem certeza de que está rumando só: todos caminham, e mesmo que indo pela mesma estrada, cada um é guiado por suas próprias pernas. Ter pessoas que vão na mesma direção é pra tornar a andada mais prazenteira, não pra pegar carona ou esperar que a sombra do outro lhe proteja do Sol. Não protege. Sombras são só a versão escura que alguém deixa pra traz enquanto a luz lhe cora a face. Queimar-se é necessário.
A linha de chegada não é uma linha, é um estandarte único só meu, só seu. Não há comunidade. Mas há um estandarte para cada. Pena que alguns nunca chegam, se perdem e deixam seus estandartes ao vento pra sempre... Uma bandeira esquecida. Que a brisa embalou sem que ninguém visse. Minha função é contar pra quantos eu puder que eles também tem. Nem todo mundo sabe. Estandartes esquecidos são tristes. Pessoas sem caminho são mais ainda. Pessoas sem estandartes e sem chegada, estão fadadas eternamente.
Mas o guardador de estandartes me espera. Lá no fim. Eu vou chegar a Ele, sorridente, cansada, suada e sedenta... Eu vivo só esperando esse abraço. Eu ainda gasto sandálias, machuco os pés, fico rouca repetindo a crônica dos estandartes somente por esse abraço. Eu quero agradecer a Ele.
Eu to aqui, me hidratando pra voltar à estrada. Quer vir comigo? A gente até descansa, mas não para nunca. Eu fico com medo, sim... Mas eu sigo sabendo onde vou chegar. Por mais que eu desconheça as intempéries do caminho.
Então fica combinado: eu fecho os olhos e estendo as mãos... Você coloca todos os seus medos também. A gente atira no mar, e depois vive pra sempre!

6 de fevereiro de 2010

Olhar para Alma

Postado por Keu Azevedo em 6.2.10 4 comentários


O que é que habita naquele tremeluzir de um olhar disfarçado?...Olhares que ficam no meio do caminho são perigosamente Lindos!
Tenho aprendido a ser mais contemplativa... Olhar as pessoas de propósito. Assim, discretamente... Querendo sugar as minúcias dos outros.
 Entender pessoas é um desafio e tanto. Então tenho gostado de olhar, de ouvir... E isso inexplicavelmente atrai olhares também. Tenho achado a maioria estranho, mas alguns, alguns apenas, eu tenho gostado de olhar bem olhado, e deixado-me ler pelo olhar do outro também.
Às vezes a gente se fecha demais. Viramos livros ensebados que a poeira e o tempo consumiram o título, as gravuras, amarelou as páginas... Só porque ninguém olhou pra gente. Mas a gente que quis... Essa defensiva ridícula. Segredos mal guardados, só isso.
De vez em quando eu vejo da minha janela... (a janela de verdade, do meu quarto). Acordei e a abri rapidamente, ganhei em troca um painel meio místico, meio descabido... Como pode ser assim? O céu é uma orquestra!
Havia uma sinfonia de nuvens, não sei explicar... Nem sempre é possível um câmbio justo entre os olhos e as palavras. É que o céu estava lindo! Aquela coisa de bolotinhas brancas e fofas entrecortadas pela luz discreta do Sol.
É difícil manter-se inafetivo por coisas assim. Eu me rendo.
Estou aprendendo a arriscar, na tentativa de ter lágrimas menos amargas. O que permanece inerte lamenta-se muito mais.
Essa vida é um aglomerado de bulícios. Bulícios dessintonizados vindos da gente de fora; bulícios incontroláveis de dentro da gente...
Cansei de pessoas calculadas demais. Quero ao meu lado as pessoas fábulas!
É por isso que olho. Gosto de tentar despir a alma das pessoas... Olhando... Não vou dizer que sempre consigo, mas a cada peça que cai, eu fico mais ciente de que só as efemérides boas é que me importam. Pra compreender isso, é preciso despir e despir-se, desavergonhadamente... Almas nuas são mais sinceras.
Eu digitaria mil laudas e você nunca entenderia qual é a sensação de numa conversa banal, poder ver (e até ouvir o som) das peças de roupa que encobriam aquela alma, caindo uma a uma... Você precisa tentar.
E estar disposto a desnudar-se também. O olhar alheio é um mistério infindo.
E só bem depois a gente entende com essa olharada toda, que, no fim das contas, todos querem alguém pra em algum momento dizer:
- "agora os meus cinco sentidos são todos seus”
 

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