Sentada com a testa a roçar os joelhos, ela pensava.
Ventava pouco e o fim de tarde era de uma mornidão incômoda.
Ela nem sabia de temperatura.
Ao seu redor, poucas pessoas e pouco barulho.
Ela também não sabia de som nenhum. E gente, gente era vulto, carne e pano. Descoloridos, em movimento.
Tinha 16 anos e pouca vida. 16 anos sem certezas.
Uma menina que espera a meia-noite só pra poder criar a ilusão de que o tempo não existe: nem noite nem dia, só ela e as coisas pequenas desprotegidas no mundo grande.
Mas agora estava ali. Com o cadarço do sapato desamarrado e as unhas sujas.
Ela só sabia do branco. Era o branco que ela via quando pensava numa solução.
Todos os outros fatos tinham cores, mas o depois era branco (horas adiante? Todas brancas). O branco lhe emudecia.
Concentrava suas emoções na nuca.
Era a nuca que tremelicava quando estava nervosa, era ao redor da nuca que sentia o fervilhar de vergonha, era a dor aguda na nuca que antecipava qualquer outra dor, qualquer outro golpe.
Sua nuca agora estava fria, rija. Como só acontece quando lhe bate o desespero.
O desespero dela é assim mesmo: de cabeça baixa e narinas abrindo-se e fechando-se em sintonia com as lágrimas que reprime... Reprime e só caem por infração. Suicidam-se da ponta do nariz pra molhar suas coxas.
Olha o relógio. Todo o tempo está abafado. Coração abafado. Alma sufocada.
Ela pensa que olha ao redor e nem sabe o que vê. Mas precisa voltar pra casa.
Só precisa, não quer.
Respira mas não fundo o suficiente e a última lágrima mártir, entrega-se, precipita-se e morre em seu colo.
Resignada prepara-se para levantar. Olha o cadarço. Queria amarrar. Mas não pode concertar tudo, tudo está fora do lugar, o mundo todo é um tear de tênis e cadarços.
Todos desamarrados, ela não pode fazer nada.
Segue com as mãos nos bolsos, bolsos de trás. Essa mania estranha. Menina não anda com as mãos nos bolsos, menos ainda nos de trás. E ela se importa? Nem com as mãos de unhas sujas muito menos com o cadarço.
O nariz vermelho a denuncia, o cabelo desarrumado não.
Uma vez em casa – planeja vagamente – vai direto para o quarto. E o que mais (dentre todas as coisas da Terra, palpáveis ou não) ela desejava agora, era não ser obrigada a responder nenhuma pergunta.
Odiou perguntas e todas as pessoas que perguntam as coisas, pra ela e pra qualquer um. Jurou não fazer mais perguntas pra ninguém.
A aflição faz qualquer jura fazer sentido.
Não morava longe dali. Faz 8 anos que sabia o caminho. Há oito anos começou a ir e vir sozinha. Mas desde aquela época, sempre tinha uma pergunta ou outra.
Hoje era o que mais temia. A possibilidade de uma interrogaçãozinha sequer, fazia sua nuca latejar.
Contou. Sugou o ar pesado. Entrou em casa.
Colocar um pé na frente do outro nunca foi tão difícil.
Sumiu.
Trancou-se.
Agora está livre para sentir-se imbecil, para se arrepender. E para despedir-se de vez da criança que era. Que ela abandonou naquele banquinho há alguns minutos atrás.
Sem volta.
Sem volta.

