27 de julho de 2010

De peito aberto

Postado por Keu Azevedo em 27.7.10 5 comentários

De peito aberto...
Do tipo que se rasga, que sangra. Que dói, esbraveja, exagera...
Do tipo em carne viva, que se compraz em arder... Que geme arisco, que explode, que não se desculpa.
Do tipo incisivo, penetrante, audacioso...
Que despachado cospe verdades, tripudia, causa inveja...
Que mete os pés, arromba, planta-se e não se move.
Irregular, viril, E-S-C-A-N-C-A-R-A-D-O...
Que enfie o dedo no meu nariz e me force a baixar a guarda.
Que desbanque meu orgulho, cale minhas teorias, desarrume minhas certezas tão organizadinhas...
Que não oferte, exija. Que não espere minha boa vontade: imponha-se, envolva-me e desenhe o prumo que lhe apetece.
Que se faz vadio, surdo, travesso, carente... Quando bem entende.

De calo, odor, firmeza, realidade.
Adulto, pivete, vampiro, barbudo...

Que indignado bate a porta e vai embora; que volta correndo na chuva...
Mais forte que eu, mais entregue que eu, mais esperto que eu...
Intrigante, instigante, enxerido, aguçado...
Descabido.
...Amor assim, eu quero.

13 de julho de 2010

Refletindo

Postado por Keu Azevedo em 13.7.10 5 comentários


A vida não é uma senhora virtuosa em todo o tempo. Nem eu. Pertencemos uma à outra... E, se posso confessar, a relação é bem complicada. O perigo de deixar-se consumir pelo outros é que só lhe restará o mesmo destino de uma bituca de cigarro. O problema com a vida feita sob medida é que o ser humano está em ininterrupta mutação.
Ficam pessoas, sentimentos, opiniões, dores... Todos enfiados no fundo do armário como aquele jeans que não cabe mais e que temos dificuldade de se desfazer. Sabe o que eu acho? Que periga essa gente toda descobrir um dia, que essa vida inteira, se resume a quem e o que você escolheu guardar. Em si.
O passado não é forte o suficiente pra sustentar sozinho toda a carga do futuro... Deixe que as moedas se percam, e se um dia, tiverem que voltar às suas mãos, parecerão incomparavelmente valiosas.

Entendi. Liguei o alerta. Destrui todas as chaves de mim. Agora estou tranquila, dormindo. Só ousarei sair da cama quando tiver a certeza: "arrombaram a fechadura!"
Pus uma placa com letras vermelhas na porta: ‘Se não for pra me içar ao céu, por favor, deixe-me enraizar em paz.’
E constatei que as companhias desnecessárias são aquelas que trabalham para moldar em nós um pouco de si mesmos. Não preciso daqueles que precisam de minhas desculpas por ser como sou.
Não é que as coisas sejam irremediáveis nem nada... É que estando como estão, eu poderia seguramente fazer um chapéu com os meus tornozelos. Eu fico olhando ao redor e cada vez entendo menos. Cada vez quero menos. Cada vez disfarço menos. Cada vez lamento menos. Assustador isso.
Então agora, dei pra conversar comigo mesma:
- Hey! Estica as pernas, relaxa essas têmporas... Há de ser que um dia, muito como quem não quer nada, o amor de toma... Irreversivelmente...
Ele há de te encontrar. Te para na rua, te olha na cara, afronta teus medos, não pede licença: Te pega no colo e te leva... Irreversivelmente.
E vivo.
Sem procura. Apenas inexoravelmente esperando.

N’algum lugar escondido, sei que ainda há espaço.
Mas s'eu te deixar de fora, amor... Invada.

9 de julho de 2010

Contra a contagem do tempo

Postado por Keu Azevedo em 9.7.10 1 comentários
Eu já falei o quanto acho calendários deprimentes? Todos eles.
Ficam com aqueles olhos grandes enumerados, fitando-me... Trazendo aquela opressora noção dos dias transcorrendo... Com seus meses escritos tripudiando do sucedimento do tempo sob mim...
Evocando lembranças que não quero, esfregando datas e datas na minha cara: prazos, aniversários, ausências, ESPERAS...
Calendários são o símbolo mais macabro da minha impotência, do meu não-controle e dessa passagem cruelíssima da vida... Bem embaixo do meu nariz.
Não é apenas medo de envelhecimento, acho envelhecer uma coisa bonita - abstratamente falando – o problema está nas garras do tempo. No registro minucioso de sua passagem. No tic-tac que fica zumbindo nos ouvidos e nas marcas atemporais que o próprio tempo imprime.
[Envelhecer é uma tentativa de regressão: a pele, por exemplo, que foi fisiologicamente forçada a espreguiçar-se e recobrir um corpo cada vez maior, um dia simplesmente atendendo às sugestões maliciosas do tempo, decide que é hora de retroceder... Vai enrugando-se, franzindo-se... Querendo com dobras, reaver o que lhe fora roubado: a pequena maciez da infância, a beleza admirada. Não consegue. Torna-se um manto de flacidez murchosa. Isso não é algo só de pele, porém esse texto não é pra falar de alterações físicas da passagem do tempo, é pra falar da minha revolta com esse caminhar reboante que o tempo tem e com a catalogação angustiante de quem somos e fazemos enquanto o vemos passar].
Por isso odeio calendários. São como uma criança que insiste em cutucar minhas costelas perguntando: “e então, já chegamos? falta muito?” Não estou questionando a utilidade da marcação do tempo, estou dizendo do quão tirânico isso é.
Eu sou infantilmente contra essa contagem do tempo. Que não o impedirá de passar jamais, que tenho que obedecer, que é a sinfonia regedora do universo e tudo (todos) que nele há. Mas sou contra.
Terminantemente contra essa imagem de bloquinhos e numeroszinhos me dizendo quando descansar, comemorar, cumprir, dormir, comer, morrer...
Minha contrariedade importa? Não. Mas a tenho... Aqui... E não deixarei que soma alguma de datas e estações, que alternação nenhuma de horas, comprimam ainda mais, o que restou de arbitrariedade em mim.



'O vento toca o meu rosto
me lembrando que o tempo vai com ele
levando em suas asas os meus dias,
desta vida passageira...
Minhas certezas, meus conceitos,
minhas virtudes, meus defeitos...
nada pode detê-lo.
...O tempo se vai
mas algo sempre eu guardarei:
O Teu amor, que um dia eu encontrei.'
(Oficina G3) 

4 de julho de 2010

Freedom for me

Postado por Keu Azevedo em 4.7.10 3 comentários

Hoje eu acordei com desejo de liberdade.
Não liberdade de passeatas, de direitos e sacrilégios, não a liberdade social, não a liberdade do mundo...
Eu quero uma liberdade quase libidinosa, liberdade de mim comigo.
 Quero de volta a minha liberdade dos pés descalços, do choro soluçado, do papel amassado, do não querer mais saber... É a liberdade que continua travada aqui, envolta em fiapos de receio, arranhando a minha garganta.
Quero de volta a liberdade que perdi quando fui esquecendo a aurora e materializando privações.
Quero a liberdade de falar bobagens e de pedir perdão. A liberdade de curtir as horas sem relógio, de pedir atenção, admitir-me fraca.
Quero a liberdade de não dar notícias, ouvir música ruim, dormir 12 horas consecutivas; de não esconder mais meu desagrado, minha impaciência, minha discordância ou minha falta de opinião...
A liberdade de sair de dentro de mim ou de enclausurar-me, de escrever sem explicar, de trocar companhia por livros, TV por internet, festa por conversa quentinha em casa, com edredom, algum riso, algumas frases pra não se esquecer. Essa liberdade que eu quero é o elo entre uma fuga sacana e um abraço apertado.
Quero essa liberdade que outra pessoa não me tirou senão eu mesma. A vida é uma jogatina. Eu quero de volta os sentimentos que apostei...
E dane-se o mundo se teimar em ficar no meu caminho! Quando minhas pernas estiverem gastas demais e minhas vistas turvas... Eu quero poder ter vivido o gozo da liberdade. Vale à pena um punhado de arrependimentos em troca de uma plenitude futura. E eu quero.
- E se quando livre eu estiver, você ainda quiser comigo estar... Seremos pássaros prontos a desertar o ninho... Juntos.

1 de julho de 2010

Coisa de toque

Postado por Keu Azevedo em 1.7.10 5 comentários

 O mais engraçado, é que eu bem conheço do tocável.
Dos toques, de ser tocada, de tocar com funções grosseiras, lascivas, brandas...
Mas você me ganhou exatamente na primeira vez que fez a coisa mais esperada, repetitiva.
Ganhou-me justamente quando aderiu ao clichê mais antigo para persuasão e domínio;
Tomou-me por completo, eu, a rainha-mestra na arte da combinação de peles...
Me vi penetrada pela sutileza de um obelisco: seu chamado inconsciente, seu toque tatuando uma cicatriz de puro sentimento... Em mim.
E sabe como o fez? Quando me tocou sem intenção.
Tocou-me como se eu fosse quebrável. Escorregou as rugas invisíveis de suas digitais em mim.
Assim como uma gota fininha de água precipita-se e acerta um transeunte.
Tocou-me quase que imperceptivelmente, como se eu fosse um assovio tão tênue, que ao menor contato dissolveria em luz.
Foi o toque mais perfeito.
E naquele toque-encontro milesímico de ponta dos dedos e ombro,
eu percebi que havia escolhido pelo mais (cândido) toque casual
a pessoa-destino de toda a minha vida.
 

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