Tão pobrezinha dona Lola!
Seus vinte e poucos anos mais lhe pareciam rojões acumulados sobre a fronte; sua maneira dura de desprender as palavras da língua lhe emprestava um aspecto irritadiço.
Lola vivia por onde a fartura não tivesse e a sorte longe passasse.
Em casa de comadre que nem filho tinha, Lola logo aprendeu todas as tarefas de uma moça hospedada: limpava, arrumava, cozia... Banhava-se se desse tempo, comia em pé e dormia em cama de cimento... Menos quando a comadre se ausentava: aí era quando Lola recebia um convite imperativo e, desconfiada, dormia encolhida e dolorida na cama da senhora... Afinal, há que se tratar bem o marido da comadre! Homem é homem, bicho de peso.
O seu Inácio muito não lhe falava, pouca coisa se lhe ouvia, mas tinha mão de urso e olhar de caçador enobrecido. Pobre presa, vida de Lola.
A comadre até queria ter filho, sempre comentava dos novos tratamentos; Lola não entendia bem, mas sabia que era caro, dinheiro de comprar umas cinqüenta passagens das que ela precisava pra voltar para casa que não tinha. Seu Inácio, galo atento, resmungava, mas pagava direitinho, se queria filho ninguém sabe, talvez gostasse mesmo era das viagens da comadre.
Na lata de leite ninho escondida com afinco, Lola guardava dois segredos concretos: a carta que não lia por não sabê-lo e o dinheiro mal contado de seu sustento.
E aquelas três almas viviam suas rotinas: passeios melancólicos por lojas de enxovais, planos suspirantes com uma moça de uniforme, submissão grata que sempre se dissolvia num mar de cansaço.
Noutro dia, findada já algumas tarefas, a comadre cheirando a detergente de maçã - que Lola ouviu dizer vindo do estrangeiro - sempre sorridente e polida, convidara a comadre de uniforme para um passeio. Pelo jardim do espaço bem conservado que beirava o prédio, se daria o colóquio.
A moça cismada, disse que preferia ficar em casa, assistiria aquele doutor que falava tão bonito...
Como a senhora insistira, as duas jovens mulheres desceram as escadas... Uma sem querer ceder à interrogação que havia nos olhos da outra.
Mais uma volta.
Perguntas vindas gaguejadas da garganta. Respostas titubeantes de cílios molhados.
Não deu embolada, a conversa foi de rápida moção: Lola saiu despachada não se sabe pra onde feito pacote pra coleta, e a comadre saiu ainda polida e sem surpresa, mas com um leve prefácio de viuvez na cabeça.