25 de setembro de 2010

Espaço pra dois

Postado por Keu Azevedo em 25.9.10 6 comentários
Fechou os olhos, arqueou os pulmões, soltou o ar... Nada. 27ª Tentativa. Olhos úmidos... Sentiu-se impotente. Queria imitar o resfolegar impaciente dele. Nunca imaginara que fosse sentir saudade disso, mas sentia.
Sentia todos os poros esfumaçarem angústia. Lamuriava sozinha sob a luz amarelada da sua varanda. Dali a algum tempo, lembraria desse tempo como o pior de sua vida.
Idealizava compressas de amor para sua alma aflita... Nada. A pele queimava de dentro pra fora, sofria de despejo: um coração sem ter pra quem ir.
Tudo havia começado dois anos antes: ela estagiária, ele funcionário do mês.
Sério, profissional, cabelos curtos, unhas bem cuidadas...
Um trabalho juntos, uma jantar juntos, uma noite juntos: ofício, degustação e pele, pura pele. Conectaram-se.
Ela pequenina, olhar estreito, lábios fartos e nudes. Expôs o corpo, disfarçou a aridez de sentimentos em que se encontrava.
Meses de encontros, vinhos e noites suarentas.
Aquela mania dele de ficar rodando o anel do indicador, aquela mania dela de massagear a própria nuca.
Beijavam-se com afinco, sugavam-se, mordiam-se, e eram sempre amontoados de carne procurando paliativos.
Ele e seu queixo imponente, ela e suas pernas lisissímas.
Ela desbocada, ele discreto.
Ambos pisoteando o campo da paixão com botas enferrujadas. Medrosos: preocupados com a saciedade, amantes fugazes.
Escolha de filmes: discurso dela, arrogância dele.
Uma briga, ela sugere o fim. Mais meses.

Cinco da tarde. Ela olhou de lado: a simples presença dele ali, mesmo que mudo, ainda causava uma fricção porosa na alma, enlarguecia-lhe o sorriso. Pediu demissão.

Outra cinco da tarde. Ele falido. Após 13 dias no escuro olhou ao redor: cercado de papéis amassados e manchas de café. Ninguém havia reclamado a sua falta. Pediu pra morrer.

Encontraram-se: Ele falou por 2 horas, humilhado. Ela assumiu o sentimento, constrangida. Eram duas crianças devastadas que só queriam se abraçar e dormir até o dia amanhecer.

"Todos caminhos trilham pra a gente se ver
Todas as trilhas caminham pra gente se achar, viu
Eu ligo no sentido de meia verdade
Metade inteira chora de felicidade
A qualquer distância o outro te alcança
Erudito som de batidão
Dia e noite céu de pé no chão
O detalhe que o coração atenta...
(...)
Você passa, eu paro
Você faz, eu falo
Mas a gente no quarto sente o gosto bom que o oposto tem
Não sei, mas sinto, uma força que embala tudo
Falo por ouvir o mundo, tudo diferente de um jeito bate."
Maria Gadú

19 de setembro de 2010

O amor dinóis

Postado por Keu Azevedo em 19.9.10 8 comentários
Hora da despedida:
Ela torce a bainha da saia de vista baixa. "Péça o que quisé" murmurou.
"Eu posso querer duas coisa?" perguntou ele aflito, o olhar nubloso, a garganta pigarrenta...
Ela remoe, mas sente que o peito esquenta, as bochecha cora. "Peça então duma vez, uai!"
- "Quero dá um beijo na tua boca."
Ela desprende um risinho fino sem tirar a vista dos pé, anda pra mais perto dele e baixa a guarda: "pode beijar" diz numa voz rançosa de amor guardado.
"Mais num é assim" ele reivindica. 
E apressa-se num palavriado, porque ela já faz cara aborrecida de morte.
"Eu beijo tu, nóis se beija... mas primeiro ocê me promete me dá um cadin de teu coração pra sempre."
Condição difícil.
Tensão no mato: vento assuvia grosso, cutia assiste.
Ela torce a cara mas está regozijada. Apressou o ‘pra sempre’, garrou o pescoço dele: “ocê me leva toda e nunca mais nóis se dispede, dou coração e beijo conforme a tua necessidade”.
Boa barganha. Ele podia aceitar. 

12 de setembro de 2010

Sinto muito

Postado por Keu Azevedo em 12.9.10 7 comentários
Eu sou aquela pessoa cheia de maus hábitos e manias incuráveis... (Deus sabe até quando!)
Essa pessoa sem penduricalhos, sem extravagância por fora, abarrotada por dentro. Trago na barra da saia pouca malícia, pouca sorte... E os assovios calmos, monotônicos, que destoam dessa ansiedade que me cobre. Como um rio: águas avulsas, sentimentos caudalosos. Às vezes sacio tua sede e te molho mansa; às vezes te afogo em águas turvas, te naufrago em mim.
Quase sempre penso que todo ser humano deveria vir com 'botão de alheiamento' e, com um clique, bloquear tudo para que está pouco se lixando. Eu queria isso, mas não consigo ignorar, não com essa alma em carne viva que eu carrego.
Ainda gosto de gente. Gosto.
Gosto de gente capaz de ficar enternecido pela tristeza alheia, gosto de gente que se deixa impregnar pela ventura do outro e é capaz de, sinceramente, desejar-lhe mais. Gosto de gente que usa sarcasmo como defesa porque sei que, assim como eu, são indefesos. Por isso sinto que preciso ser condensada, ando demasiadamente humana: emoções esparramadas.
Vejo gente querendo sair, querendo fugir, querendo sumir... Quanto arfar de asas presas, quanto farfalhar de penas impacientes...
E sabe porque? Inconsistência. O mal do século é o amor regrado: dieta de entrega, comprometimento racionado.
É fazer um bom uso dessa capacidade humana: amar. Sem, é claro, esquecer os inúmeros vieses do amor.
Amor, amor mesmo, está também no inconveniente que é dito, na merda perdoada, nos defeitos aceitos, na mesmice dos dias, e é claro, na cumplicidade tola. Bobagem querer um coração que ria o tempo todo... Não é sangue que ele tem? Deixe-o sangrar de vez em quando, é hemodiálise na alma.
Temo por mim, tenho um coração de inverno, do tipo que o calor das mãos facilmente derrete. (Manusei-o com cuidado). É um coração de papel, ao menor sinal de lágrimas, desmancha-se.
Do tipo que não te dirá 'eu te amo' facilmente porque é um processo custoso. Mas quando finalmente ouvires, retenha para sempre, será teu bem irrevogável.
Em si tratando de amor sou como um vira-lata: cravo os dentes num osso qualquer. Sentir mesmo que um sentimento de caldo seco, é substância. Eu gosto de sentir, gosto. E isso me mata.
Trocaria articulação e doçura por menos intensidade.
Preocupo-me espinhadorçalmente com o rumo das coisas, da gente, do resto, de toda a gente... Sofro com a insensibilidade do mundo, com a perda sensorial das pessoas, com o desregramento da vida.
E a minha consciência borbulha, meu coração se contrai. Quando sofro é sofrer de inferno, quando sorrio é sorrir de fazer abrir sol no inverno.
Eu sinto muito, denotativamente falando.
- Por que, meu Deus, deste alma demais presse corpo tão pequeno nesse mundo tão grande?

"Nem sempre foi assim, outro mundo é possível.
Pode até ser o fim, mas será que é inevitável?
Não vá dizer que eu estou ficando louco
só porque eu não consigo odiar ninguém.
Do goleiro ao centroavante, do juiz ao presidente
...Eu não consigo odiar ninguém." 
(Engenheiros do Hawaii)
 

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