Nunca houve despertadores.
Acordou com os beliscos do sol em sua pele, como só acontecia quando estava atrasada para escola. Abriu lentamente os olhos.
Desejou que a consciência não chegasse.
Desejou que a consciência não chegasse.
Mas assim que seus sentidos espreguiçaram-se, sentiu que seus ombros, nuca e cabeça haviam combinado um contíguo de dor.
O Sol que se interpelava irrequieto pelas frestas da janela dava ao seu quarto tons melancólicos: um lusco-fusco tardio, abafado.
Ouviu sons de pés machucando chinelos que em vingança arrastavam-se violentamente culpando o chão. Era sua mãe.
Nem se lembrava de como tinha adormecido, mas estava começando a entender... Havia morrido no dia anterior.
Respirou. Tão fundo que seus pulmões gemeram.
Apesar do medo, olhou para o relógio. Sentiu mais três pontadas seqüenciadas de dor.
Queria ficar trancada. Temeu.
Em poucos segundos estava no chuveiro deixando que a água fria hidratasse suas olheiras, suas mãos pouco firmes, sua pele salgada pelo banho de lágrimas do dia anterior. E deu passos molhados em direção ao momento que conscientemente adiou: olhou-se no espelho. Nua, magra, com a vivacidade como que sugada de canudo.
Sua mente recordava e via-a. Sentiu vergonha. Dor novamente. Medo.
Sua mente recordava e via-a. Sentiu vergonha. Dor novamente. Medo.
Atirou a tolha no espelho.
Vestiu-se. Não olhou o horário de aulas. Com uma das mãos pôs os cabelos sobre os olhos, com a outra tateou a mochila. Saiu do quarto. Hesitou.
Ouviu um “Bom dia” e ganhou um sorriso. Amassou-o como papel e atirou no lixo mais próximo. Uma leve inclinação de cabeça, uma torrada já meio fria, uma frase:
- “Tchau mãe” e A PARTIDA.
- “Tchau mãe” e A PARTIDA.
Cumpriria todos os planos que traçou para um amanhã que desconhecia, enquanto parecia mumificada na noite anterior.
Com a língua roçando a unha polegar, pensou. Sofreu. Decidiu.
Com a língua roçando a unha polegar, pensou. Sofreu. Decidiu.
Destruiria o diário. Seria outra. Uma mulher, em suma.

