12 de março de 2010

É porque senti - Parte III

Postado por Keu Azevedo em 12.3.10 6 comentários


Nunca houve despertadores.
Acordou com os beliscos do sol em sua pele, como só acontecia quando estava atrasada para escola. Abriu lentamente os olhos.
Desejou que a consciência não chegasse.
Mas assim que seus sentidos espreguiçaram-se, sentiu que seus ombros, nuca e cabeça haviam combinado um contíguo de dor.
O Sol que se interpelava irrequieto pelas frestas da janela dava ao seu quarto tons melancólicos: um lusco-fusco tardio, abafado.
Ouviu sons de pés machucando chinelos que em vingança arrastavam-se violentamente culpando o chão. Era sua mãe.
Nem se lembrava de como tinha adormecido, mas estava começando a entender... Havia morrido no dia anterior.
Respirou. Tão fundo que seus pulmões gemeram.
Apesar do medo, olhou para o relógio. Sentiu mais três pontadas seqüenciadas de dor.
Queria ficar trancada. Temeu.
Em poucos segundos estava no chuveiro deixando que a água fria hidratasse suas olheiras, suas mãos pouco firmes, sua pele salgada pelo banho de lágrimas do dia anterior. E deu passos molhados em direção ao momento que conscientemente adiou: olhou-se no espelho. Nua, magra, com a vivacidade como que sugada de canudo. 
Sua mente recordava e via-a. Sentiu vergonha. Dor novamente. Medo.
Atirou a tolha no espelho.
Vestiu-se. Não olhou o horário de aulas. Com uma das mãos pôs os cabelos sobre os olhos, com a outra tateou a mochila. Saiu do quarto. Hesitou.
Ouviu um “Bom dia” e ganhou um sorriso. Amassou-o como papel e atirou no lixo mais próximo. Uma leve inclinação de cabeça, uma torrada já meio fria, uma frase: 
- “Tchau mãe” e A PARTIDA.
Cumpriria todos os planos que traçou para um amanhã que desconhecia, enquanto parecia mumificada na noite anterior. 
Com a língua roçando a unha polegar, pensou. Sofreu. Decidiu.
Destruiria o diário. Seria outra. Uma mulher, em suma.

9 de março de 2010

É porque senti - Parte II

Postado por Keu Azevedo em 9.3.10 3 comentários

O tempo surfava nas ondas daquela memória.
Em espirais os minutos escorriam entre seus cabelos e os dedos que o repuxavam.
O choro havia cessado, a mente estava turva.
Como pode uma menina de 16 anos tão absorta?
Thaís era uma pintura: pele arrepiada, olhos com sombras internas, escarlate... Alguma coisa de conformismo triste começava a aparecer.
Tudo havia começado há poucos meses.
Em seu aniversário ganhara um presente do namorado de sua mãe: um diário.
Era sabido por todos que ela adorava escrever.
“– Escreva suas memórias e suas poesias” ele havia dito.
Assim ela o fez.
Sempre à noite, dentro do seu castelo de sal. Fingia deitar, todas as luzes se apagavam. Silenciosamente pegava o caderno e escrevia compulsivamente por muito tempo.
Escondia-o outra vez. Exatamente onde sua mãe sabia que estava.
Contava pro caderno de capa fosca e manchas rochoso-esverdeadas, todos os enigmas possíveis dos 16 anos. E sempre encerrava: “É o fim por hoje. Amanhã não sei.”
Um mês depois ninguém mais se lembrava do diário. Só o presenteador.
Ele sempre ia ao quarto de Thaís. Oferecia-se pra conversar, perguntava de paixões e conflitos. Acariciava seus ombros e dizia que com ele, poderia sempre contar.
Ela era uma menina de poucas palavras, agradecia pelo gesto e pelo diário. Sempre dizia que usava pouco, não lhe sobrava mais tanto tempo pra escrever entre as aulas e os cursos.
Era hora de ir embora, anunciava a mãe dela.
Ele se despedia com um beijo na testa que variava de 2 a 3 segundos. E ia.
Naquela noite, após todas as luzes apagadas, Thaís e seu companheiro fosco-manchado não ressurgiriam em relatos sob a luz tímida do abajur.
O presente era diferente.
Seu quarto era insípido.
Ela só queria dormir.
E muito mais verdadeiro do que tantas outras vezes, do que em inúmeras páginas, ela se despedia sem saber do amanhã.

Ps.: desculpem a imagem não tão adequada. É que eu imagino primeiro e procuro a foto depois (em todos os casos) é difícil achar algo que corresponda exatamente ao que pensei. Uma pena.
 

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