domingo, 8 de novembro de 2009

O desfiar dos tempos


Todo dia acordo querendo ser atemporal... E a cada dia, enquanto minha pele flerta com as rugas, faço um esforço pra inalar maturidade.

Quando abrimos espaço para tantas dúvidas e medos, eles criam raízes. Apertam o peito e sufocam o coração. A gente vai ficando pequenininho... Querendo voltar a achar graça em balões coloridos, em como eles são livres e leves... Até que estourem.

Andei pensando em versos (versinhos daqueles que adolescentes copiam na agenda) e desejando explicar tudo com poesia mal rimada. Marcar as páginas com clipes, usar adesivos brilhantes... Anotar infimidades só preu saber que aconteceram.

Às vezes, bem às vezes, a gente fica arrepiado com aquele sopro na nuca que diz, sem dizer, um monte de coisas que a gente já sabe... Esse sopro frio é um pouquinho de loucura, é um aviso, é o inconsciente gritando obviedades tantas, que a gente insiste em ignorar... É por isso que a gente treme.

O sopro inesperado na nuca, esse sopro que faz tremer os membros e planta farpas afiadas no estômago, é o mesmo sopro que antecede o beijo.

Às vezes, bem de tempo em tempo, a ansiedade corrosiva como é, fica querendo me liquefazer de dentro pra fora... Então eu me obrigo a entender que o meu sorriso é como o Sol que, em dia nublado, só se esconde pra descansar e voltar ainda mais quente e efusivo no dia seguinte.

É por isso que às vezes, bem de quase em nunca, eu mudo tudinho... E nessa reinventança me perco e me acho... Sempre cabendo um pouco mais!

Essa sou eu. Admito. E você, quem é no desfiar desses tempos?

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Paf!

E pela primeira vez em 22 anos de vida [recém completados] estou verdadeiramente à beira de um colapso...! Implosiva...Totalmente implosiva.

Quando eu era criança um dos gestos mais legais era estourar o saco de salgadinho. Não sei se você já teve essa experiência... Ao terminar de comer, era só encher de ar... segurar pela borda e de preferência chegar de fininho bem perto de alguém e...Paf!

Sobravam as minhas gargalhadas e a irritação do outro.

Acho que já gastei todos os meus recursos pensantes tentando arrumar essa coleção de cassetes que é a minha vida... Agora tô tão atordoada que ela tá parecendo um saquinho de salgadinho na minha mão... E eu confesso que tô a ponto de estourar...! Será que ainda funciona? Será que eu riria disso? Será que irritaria alguém?

Quer saber? Acho que cansei de tanto comedimento... A apatia que tô sentindo tá começando a me assustar... É aquele momento pasmático antes de enfrentar a montanha russa... Você olha o tamanho, as curvas... E começa a pensar no que antes não pensava: na segurança, nos riscos... E fica ali... instantes que parecem séculos obesos que se arrastam na sua frente... Lentamente você começa a ficar apavorado! E a adrenalina, a emoção, o prazer daquela aventura...? Sinceramente não é no que penso agora. O Outro lado pesa mais... Então parei.

Há dias estou ali com o bilhete na mão vendo pessoas entrarem e saírem da montanha russa...vejo-as gritando, sorrindo, enjoando, divertindo-se... De vez em quando volto a olhar pro bilhete já amassado em minhas mãos... As letras estão começando a desaparecer e suas bordas perdem a cor viva de antes... Não é ação do tempo... é da minha hesitação; ela que causa tudo.

Quando é cedo e o parque enche-se de visitantes... sempre começo a pensar: “dane-se o medo! Dane-se!!!” mas as horas e as pessoas me atravessam como se eu fosse um fantasma, movo o mínimo de músculos possível... Aperto ainda mais o bilhete e meus olhos ficam úmidos. Não vou.

Há tanto em jogo... Não é só a proeminência de uma morte... Mas de dores. Morrer pode doer tanto... Morrer assim... Não quero, não na montanha Russa!

É por isso que lembrei do saquinho de salgadinho/pipoca... É por isso que sinto que preciso estourá-lo... Se você já fez isso, sabe que também sempre há um restinho de salgadinho esfarelado no fundo... e que quando estouramos o pacote, ele voa...os restos se espalham... Geralmente nos melamos... Geralmente grudam, geralmente a gente nem liga.

Ficar preparando-me para experiências em possíveis montanhas russas tá me fazendo surtar aos poucos... Não em histeria, mas em ataraxia... que é tão má quanto.

À medida que estou ali de pé, ninguém sabe, ninguém vê [será que ouviriam se eu estourasse o saco?]... Minhas pernas estão cansadas e quero voltar pra casa... Mas qual é essa atração excitante por aquele “brinquedo”?

O mesmo impulso que leva o menino travesso a enfiar o dedo no bolo de aniversário do coleguinha, que leva o adolescente a dizer as verdades mais cruéis enfrentando os pais, que leva uma jovem como eu a amornar... A começar a duvidar do caráter das coisas [pra que serve uma montanha russa afinal? Os homens a criaram, que tenho eu com ela?] a desconstruir... Reduzir as imensidões com que sonhava... Tudo em nome de um bilhete pra uma maldita montanha russa.

Bilhete que eu quis tanto, que me custou...

Alguém, por favor, me arranca desse Parque?

sábado, 17 de outubro de 2009

Colméia



Eu não era mais feliz na minha infância. Era mais comprometida com a verdade, menos comprometida com as horas, pensava menos... Corria mais, punia-me menos, cobrava-me menos, cantava mais alto! Na infância eu lia as histórias que ia tentar fazer acontecer pro resto da vida...!

É normal o saudosismo quando nos vemos diante de situações complicadas. Estou assim, sentindo como se abelhas estivessem construindo uma colméia dentro da minha cabeça: tudo zunindo demais, agitação demais, atividade demais, confusão demais... E apesar de tudo isso, o meu pensamento, que anda empoeirado, precisa da espanação de alguma ideia absurda!

Fico me perguntando se todo esse borbulho acabará em mel...

Eu sei que o mundo não é uma caixinha de surpresas: suas chagas estão expostas, cabe a mim decidir se tento limpá-las ou venero as secreções...

Mas quando se trata de mim é como se um frenesi me impedisse de ser racional. Aí me pego sonhando com um lugar onde as pessoas ficam sentadas em suas varandas tomando sol, sem medo, apenas querendo vitamina D.

Se eu pudesse só transitar... Será que eu sou a única que hesita ao pegar o guarda-chuva mesmo com o céu tomado por nuvens escuras...? Será que eu sou a única que fica tentando conservar aquele restinho de esperança de que o tempo mude e por isso se arrisca a chegar em casa molhada e gripada?

Tomar chuva às vezes é tão bom...

Tenho produzido mantras do tipo: “não fique ansiosa” e solenemente tento internalizá-los... Não tem adiantado muito. A vontade que tenho ainda é de adiar todas as decisões... Eu queria ter um toque que congelasse o mundo inteiro e, sem sons, sem movimento, sem caos, apenas eu continuasse andando...

- A verdade é que a gente só faz cabana onde quer estar... Deixe-me passar furtivamente... Quando eu achar o lugar certo, descanso! Assim, quando todos se cansarem da embromação do sentir desses dias, estarei pacientemente confortada pelo amor substancial!

Essas idas e voltas tem me deixado tonta, mas sou eu que fico girando como que pra fazer flutuar o vestido, enquanto tudo ao meu redor permanece irritantemente estático...Esperando-me, de olhos arregalados!

A expectativa me frustra e me corta... Posso sentir suas unhas rasgando a minha pele. E o que fazer com essa dor? Sempre a dor... Quando não se sabe como fazê-la parar, deixar doer imprime a segurança que se precisa pra evitar dores futuras...

Sem soluções, termino por aqui... Preciso aproveitar porque, ao que parece, as abelhas deram uma pausa para o almoço.

sábado, 3 de outubro de 2009

O amor e eu


"Amores prolixos,

amores de Circo...

Amores amados, amantes sagazes.

Amores infindos, pois que

são amores efêmeros de ficar pra sempre

acampados na memória.”


O que dizer dessas coisas finitas a que a gente se apega? Essas amanças furtivas que cultivamos pelas coisas passageiras... Mera Mania de Afeição. (?)

Há pessoas que perfuram silenciosamente as defesas que impomos e quando nos damos conta, já ocupam o espaço que antes lhes foi negado...

E lá estamos nós a amar coisas e pessoas! A construir cada vez mais laços: uns finos e sibilantes, outros, laços como que trançados de sisal... Rijos e rústicos que em seu viés, escondem uns bocadinhos de doçura pra vida da gente.

Sou a favor de amar, do amor e até da amança melosa em que a gente se vê preso de vez em quando... A amança de dizer um eu te amo constrangido, ou de rasgar aquele eu te amo descontraído de quem ama mesmo, por mais que pareça brincadeira.

Mas sou defensora dos “eu te amo” de quando é amado mesmo... De quando a gente fala sem querer, uma expressão que escapuliu de lá de dentro porque já era difícil conter esse bichinho do amor entre as paredes veladas do coração.

Aí sim, o “eu te amo” tem gosto e graça. Vem de graça, e tem o total despropósito que só é possível àqueles que aprenderam a amar pelo amor e não pelos benefícios e respostas.

Eu posso falar porque sei o que é.

Vivo cercada de amor - e recebo tanto - que retribuir a essa gente que me ama (com todas as minhas moléstias bem cultivadas) é um prazer tão grande que encobre e me permite superar as desavenças, os tempos e os males que mancham os relacionamentos...

Amo com amores vários, e em todos há melodias circenses... Meu coração pastelão não se cansa, ele roga amor e amolece com cada mimo que recebe...

Só me resta ceder a essa amança toda: despretensiosa, trapezística e que trabalho a cada dia para que seja mais intensa, mais sincera, mais suficientemente AMOR.

Sim, esse é um textinho sobre amores... Que tenho tantos e em tantos graus...

Não tenho amores do passado, nem amores velhos. Não tenho amores tenros nem amores neófitos.Tenho simplesmente amores que dançam comigo de vez em quando; uns mais experientes ou mais saudosos, outros mais apaixonantes e calorosos mas todos amores meus, que colhi pessoalmente nessa vida e nesse mundinho de pipoca que Deus me deu.

Não me preocupo mais com a permanência desses seres amados ao meu lado: o meu amor cabe entre fios de telefone, dígitos de sms, letras de teclado, até limites de caracteres... O meu amor aprendeu a caber-se em lágrimas e orações também. Mas principalmente porque o meu amor resiste na lembrança e no lugar onde se originou – dentro de mim – meu amor ainda sofre, mas não precisa de corpos, precisa de pessoas a quem se doar... E quando não puder entregar-se num abraço, vai deitar-se nas minhas pálpebras que se fecham e recordam os momentos de amor infindos que vivi... Eternos e refugiados, porque eu acredito em amores amados pra sempre... Em essência, em tombos, em ausência... Amor que abnegou de certas vaidades pra acampar na alma e no espírito.

Eu acredito no AMOR... É por isso que amO!

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Voleios

Cansei de capas, bailes de máscaras, de encenações. Capas viciam na invisibilidade, máscaras na falsa aparência e peças no surreal... SURREAL.
Entendi que esses são Dias de Transfusão: tenho recebido doses diretas de sentimentos não identificados. Nem sei o que fazer com eles, mas acolho-os dentro de mim.
A minha vida é um desenho, geralmente bem Clichê... Mas ando interessada é nas Caricaturas! A possibilidade de dar novos ares a expressões antes taciturnas sem as deixar artificial, sem perder de vista as rugas, as sardas e as marcas que fazem de mim quem sou.
Sempre fiz figuração na vida real, agora acho que preciso aproveitar o tempo já que estou no cenário.
Vou vivendo momentos de Voleios tantos, que tenho vontade de sapatear! E depois acolher a vida inteira junto comigo nessa cadeira comum, sentada...
É incrível pensar em ciclos... Esse findar-se e reconstruir-se contínuo... Essa assustadora possibilidade que temos de abandonar e acolher todos os dias.
Cada vez que termina um dia ficam em arquivadas as vivências mais caóticas ou inúteis, as palavras mais desnecessárias ou afáveis, os fados e frações de cada um, em cada canto dessa Terra... E a eterna insatisfação.
E eu?
Desisti de vagar, agora percorro... Percorro em centímetros cúbicos, esquadrinhando. Investigo. E me condenso pra me defender... Hoje sou muito mais plana do que eu era; o que não faz de mim uma estrada fácil de atravessar.
Aprendi que entender o que não posso fazer é importante desde que não gere desculpas preu deixar de fazer o que me cabe.
E quando questionarem os meus métodos, eu sempre terei a certeza de que tentei ser honesta porque, pelo menos, abri mão de reproduzir as mentiras que me contaram, as atitudes que me envergonharam e a presença que me negaram. Eu saberei que sobrevivi sem viver um filme, mas que a minha crônica de botequim poderá ser lida sem medo, por qualquer um que se interesse por uma mente transitória e um coração dedicado a amar.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Só um paralelo


Tem tanta coisa acontecendo sem querer, que já tô questionando qual é a dessa querança proposital que não aparece. Vou descobrindo mundos...

Descobrindo-me num paralelismo de sentimentos, paralelismo de falas, paralelismo de olhares que lanço pra caminhos paralelos que devo pisar!

Tenho entendido as coisas comuns: os objetos comuns, as frases comuns, as caras comuns e as sensações mais comuns... E notado o quanto são essenciais. A minha escova de dentes, os meus “tudo bem”, os olhares de interrogação e a falta, a temível falta que às vezes arrebata dias tranqüilos.

Tenho buscado incêndios só pra ver se o fogo transforma meus medos em cinzas. Mas é tão difícil começar a queimar...

A combustão em mim é uma tarefa árdua porque sou muito mais inverno; porém não há umidade suficiente que impeça minhas chamas de arder... Arder até que tudo que me faz estagnar vire cinza, e então, eu possa soprar pra bem longe.

Vou somando pontos e juntando lenha até que chegue a hora certa de fazer uma grande fogueira: incendiar cabrestos, enganos e os grilhões que eu mesma construí. As dores, eu deixo... Não cabe a mim desfazer-me delas. Porque meu sonho não é uma vida entediada na corte, mas uma vida saborosa em meio aos plebeus, meus semelhantes.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Ledo engano



Esse post é um conjunto de coisas que ando pensando e como qualquer outro não tem o objetivo de buscar concordâncias... Não gostou do primeiro parágrafo? Feche a página.


Sou múltipla. Não tente reduzir a Polissemia que há em mim...Talvez seja você que não comporta meus significados.
Só sei falar disso: de mim, de mim, de mim... E é como se o assunto não esgotasse nunca, porque talvez, o que eu disse ser e querer ontem seja contradito ou ampliado pelas novas funções e influências do meu hoje.
Tenho tempos internos como qualquer pessoa: hora chuvosa e cheia de tempestades que despedaçam tudo ao redor; hora ensolarada e abrasadora.
Sei conter Chuva fininha que dá vontade de abrir os braços e ficar girando pra poder aproveitar cada gota;
Ou Chuva calma e constante, de céu escuro e trovoada.
Ultimamente, abrigo uma Chuva que é recato pra dias em que tudo me parece farisaico demais.
Mas também sei ter Sol!
Sol que queima e traz fadiga, Sol que aquece e amolece o corpo todo com a sensação gostosa de poros dilatados...
E Sol que brinca de esconde-esconde com as nuvens... Fazendo-me sorrir nesse aparecer/esconder-se das tardes.
Sei ter Sol que se põe, que vai embora e deixa o abandono em seu lugar, de solidão... O mesmo Sol que partiu só pra se vingar de mim, Sol que tem ciúme da noite.
Mas também sei ter Sol que nasce... De um parto lento e lastimoso, mas que desponta e constrange de tão forte, sentimental, fogoso.
Tenho o direito de chover e raiar quando eu quiser. Tenho o direito de salmodiar. Tenho o direito de errar e de ser hostil, nem que seja pra me arrepender logo depois... Não vou ceder a essa máscara coletiva e busca desenfreada por parecer bem, a comida que como não é de plástico, portanto, não vivo e me alimento de aparências.
Sou singular em minha aspereza e universal em minhas confusões. Sou plural, abarrotada de S [ésse]... E ainda consigo ser um hibridismo que sabe o sentido que quer assumir (apesar de tudo).
Ledo engano quem pensa que me vê, pois, se me visse mesmo, enxergaria uma colcha de retalhos... Onde cada pedaço tem um motivo.
Tudo que se fez em mim é possível reemendar: acrescentando novos pedaços, retirando alguns excessos... Ledo engano quem pensa estar pronto ou quem acha ser alfaiate.
Minha linha e agulha estão nas mãos de quem começou o cobertor... Então simplesmente afaste a sua tesoura.

“AquEle que começou boa obra em vós (em mim também é claro) há de aperfeiçoá-la até ao dia de Cristo Jesus.” Filipenses 1:6 [grifos meus]


Ps.: Esse texto não é um canto a “não exortação”... Mas também não devo justificativas sobre ele.