Texto para ser lido ao som de 'Amar é bom' de Jauperi.
Como não bastasse minha boca desejá-lo, todo o meu corpo põe-se em rebeldia com saudade do teu.
O meu ouvido ameaça não mais ouvir enquanto não for devolvido o farfalhar molhado da tua língua nele...
Os meus olhos ameaçam cegar-me enquanto não puderem ver de perto o teu sorriso sem graça depois d'algum elogio apaixonado que te faço...
Os meus pés afirmam não me levarem mais a lugar algum que não seja ao teu encontro.
Meu nariz só quer saber o cheiro do teu capote e as minhas curvas, precisam da medidura das tuas mãos.
Não consigo mensurar o que pode me acontecer caso tua ausência se prolongue se até o sabor de tudo me foi perdido, pois a minha língua tem cumprido a promessa de deixar tudo insalubre até que possa sentir de novo o gosto da tua boca.
Meu cabelo colado ao coro cabeludo, não movimenta um só fio num lânguido embaraço, até que você venha paciente e carinhoso tirar a minha franja dos olhos, ou sôfrego desmanchar meu penteado, enleando-se nele, enleando-se em mim.
Meus dedos, agora frios e trêmulos, exigem enlaçar-se aos teus para que possam recuperar os movimentos; e meu coração apático bombeia cada vez menos, arriscando parar se você não aparecer logo para reanimá-lo com o amor desfibrilante e gostoso que só o teu próprio coração pode me dar.
A minha pele que jurou continuar empalidecendo até o albinismo, precisa daquele sol que vem dos teus olhos e me aquece inteira, das tuas frases entre beijos que me fazem corar...
Durmo pouco e sonho muito com lugares onde dividimos a mesa, o chuveiro, a cama...
Os meus ombros têm estado caídos, desanimados pelo longo período sem o teu queixo repousando neles quando me abraça por trás; o meu pescoço, louco de saudade dos teus beijos e mordidas, declarou em carta aberta deixar minha cabeça pender sem firmeza alguma, a menos que tua barba venha logo roçá-lo (indignação que tem o apoio total dos meus pêlos, cansados de ficar inertes dependendo do frio para serem eriçados).
Até o meu umbigo, antes recluso e discreto, tem latejado perguntando quando você vai voltar traçar o caminho que passa por ele e fazer aquela pausa gostosa até seguir adiante.
As roupas já não me cabem, os sapatos me incomodam e fico oscilando entre claustrofobia e espaço demasiado no mundo.
Parte do meu cérebro já está em greve e a parte que sobrou teima em evocar você a todo instante.
Acho mesmo que preciso de você, então, quando chegar nessa última linha, larga tudo e vem.
