Amaram-se inesquivavelmente. Sem parcela alguma de razão.
Assim é o amor, 0% de comprometimento com a racionalidade chata. Cada dia entregavam-se mais à experiência inócua de querer alguém que também aprendeu a te querer.
E não se diga que esse amor aquecia-se sobre um manto de beijos e carícias; era a relação arrojada dos olhos mais abertos que fechados, das mãos dadas e cabeças baixas contemplando o caminho, pensando somente no que estava ao seu lado. Entenderam-se trocando músicas, descobriram-se compartilhando futilidades e segredos, e apaixonaram-se como seria mais provável a dois corações que precisavam de alimento: permitiram-se dar um ao outro o colostro do primeiro amor.
Não se percebia os seis anos que os separavam, notava-se apenas a homogeneidade do desejo: não resistir à sombra que aquela árvore lhes oferecia. O amor de um jovem e uma adolescente era o descanso que o mundo lhes deu, o oásis palpável para poderem sobreviver.
Não havia culpa nem padrões, havia os telefonemas duradouros - e sem sentido para quem não sabe o que é ser dois - havia sempre o entrelaçamento de almas antes do entrelaçamento de lábios.
Todo o receio de estarem juntos dissolvia-se no roçar delicado do cabelo dela no peito dele; era assim que quase sempre estavam: ela escondida em seu peito, ele aconchegado na leveza e necessidade daquele encontro.
Apartaram-se do resto. Essa foi a diferença.
Marcelo quis contar de imediato, comunicar às mães amigas, Thaís temeu. Com a temerança de quem tem certeza do repúdio. Sua mãe que a criara sozinha era um cofre impenetrável se assunto era esse: alguém com quem gastar suas horas em satisfação, em sentimento. Era a mãe que havia estado solitária por muito tempo, até a chegada de Fábio, pouco mais de um ano atrás. Thaís aceitara muito bem o relacionamento dos dois, embora não o compreendesse.
Ana era jovem e bonita, o tipo de mulher alta e sóbria que usa coque e economiza nas palavras. Mas entregara-se com tamanha gana e devoção àquele homem, que parecia constrangê-lo. Esse é o problema da carência e da solidão, quando chegam ao fim, tudo em volta se anuvia e o que mais se quer é alimentar-se depois de tanta fome.
Ana e Fábio se conheceram numa das tantas palestras sobre ‘técnicas de empreendedorismo’ promovidas pela empresa na qual ela trabalhava. Fábio interessou-se de imediato e contra todas as perspectivas, Ana também. O fato é que estavam juntos e muito bem, apesar dos papeis aparentemente invertidos a quem quer conhecesse Ana de perto: Fábio era contido e solícito, Ana afogueava-se por ambos.
Sua mãe não retribuiria a aceitabilidade que ela tivera com Fábio, sua mãe sempre lhe ensinou como os homens são traidores e inescrupulosos, como abandonam mulheres de quem se cansaram, e as deixam com filhas no colo e mágoas insondáveis na alma. Sua mãe sempre lhe lembrava o quanto era nova e o quanto não precisava das intempéries de um amor falido.
Deviam esperar.
Thaís quis contar a Fábio, pedir que intercedesse... Ele era sempre tão prestativo... Mas não, era melhor não. Nunca se agradara da idéia de compartilhar assim as suas coisas.
- “Fábio é um homem sensato, carinhoso... Entenderá melhor” / “Fábio é namorado de minha mãe, concordará com ela, ele às vezes é tão diminuto...” Pensava.
Os dias se alternavam como funcionários, cada um ao seu turno... Mas pra quem está apaixonado, a contagem do tempo depende de uma única presença: é rápido quando estão juntos, pirracento quando separados.
Seguiu-se assim, por dois meses...
Até o convite: um final de semana, uma ilha ali perto, amigos de Fábio, viagem de casais. Thaís disse sim. Foram. E tudo culminaria nela desolada... Chorando no banco do parque.
