12 de maio de 2010

É porque senti - Parte VI

Postado por Keu Azevedo em 12.5.10 2 comentários

Amaram-se inesquivavelmente. Sem parcela alguma de razão.
Assim é o amor, 0% de comprometimento com a racionalidade chata. Cada dia entregavam-se mais à experiência inócua de querer alguém que também aprendeu a te querer.
E não se diga que esse amor aquecia-se sobre um manto de beijos e carícias; era a relação arrojada dos olhos mais abertos que fechados, das mãos dadas e cabeças baixas contemplando o caminho, pensando somente no que estava ao seu lado.  Entenderam-se trocando músicas, descobriram-se compartilhando futilidades e segredos, e apaixonaram-se como seria mais provável a dois corações que precisavam de alimento: permitiram-se dar um ao outro o colostro do primeiro amor.
Não se percebia os seis anos que os separavam, notava-se apenas a homogeneidade do desejo: não resistir à sombra que aquela árvore lhes oferecia. O amor de um jovem e uma adolescente era o descanso que o mundo lhes deu, o oásis palpável para poderem sobreviver.
Não havia culpa nem padrões, havia os telefonemas duradouros - e sem sentido para quem não sabe o que é ser dois - havia sempre o entrelaçamento de almas antes do entrelaçamento de lábios.
Todo o receio de estarem juntos dissolvia-se no roçar delicado do cabelo dela no peito dele; era assim que quase sempre estavam: ela escondida em seu peito, ele aconchegado na leveza e necessidade daquele encontro.
Apartaram-se do resto. Essa foi a diferença.
Marcelo quis contar de imediato, comunicar às mães amigas, Thaís temeu. Com a temerança de quem tem certeza do repúdio. Sua mãe que a criara sozinha era um cofre impenetrável se assunto era esse: alguém com quem gastar suas horas em satisfação, em sentimento. Era a mãe que havia estado solitária por muito tempo, até a chegada de Fábio, pouco mais de um ano atrás. Thaís aceitara muito bem o relacionamento dos dois, embora não o compreendesse.
Ana era jovem e bonita, o tipo de mulher alta e sóbria que usa coque e economiza nas palavras. Mas entregara-se com tamanha gana e devoção àquele homem, que parecia constrangê-lo. Esse é o problema da carência e da solidão, quando chegam ao fim, tudo em volta se anuvia e o que mais se quer é alimentar-se depois de tanta fome.
Ana e Fábio se conheceram numa das tantas palestras sobre ‘técnicas de empreendedorismo’ promovidas pela empresa na qual ela trabalhava. Fábio interessou-se de imediato e contra todas as perspectivas, Ana também. O fato é que estavam juntos e muito bem, apesar dos papeis aparentemente invertidos a quem quer conhecesse Ana de perto: Fábio era contido e solícito, Ana afogueava-se por ambos.
Sua mãe não retribuiria a aceitabilidade que ela tivera com Fábio, sua mãe sempre lhe ensinou como os homens são traidores e inescrupulosos, como abandonam mulheres de quem se cansaram, e as deixam com filhas no colo e mágoas insondáveis na alma. Sua mãe sempre lhe lembrava o quanto era nova e o quanto não precisava das intempéries de um amor falido.
Deviam esperar.
Thaís quis contar a Fábio, pedir que intercedesse... Ele era sempre tão prestativo... Mas não, era melhor não. Nunca se agradara da idéia de compartilhar assim as suas coisas.
- “Fábio é um homem sensato, carinhoso... Entenderá melhor” / “Fábio é namorado de minha mãe, concordará com ela, ele às vezes é tão diminuto...” Pensava.
Os dias se alternavam como funcionários, cada um ao seu turno... Mas pra quem está apaixonado, a contagem do tempo depende de uma única presença: é rápido quando estão juntos, pirracento quando separados.
Seguiu-se assim, por dois meses...
Até o convite: um final de semana, uma ilha ali perto, amigos de Fábio, viagem de casais. Thaís disse sim. Foram. E tudo culminaria nela desolada... Chorando no banco do parque.


8 de maio de 2010

É porque senti - Parte V

Postado por Keu Azevedo em 8.5.10 2 comentários

Conheceram-se há quase 6 meses atrás. Ele quase 22, ela quase 16.
Ninguém perceberia que havia mais do que uma necessidade abrupta de aprender matemática. Thaís ia para as aulas de reforço duas vezes na semana, e pensava nelas os outros 5 dias que restavam.
Era uma menina madura pra sua idade, mas até os mais maduros estão sujeitos às paixões infantis. O que é o verdadeiro amor senão uma entrega voluntária aos sabores do outro? Quem ama compraz-se em diluir-se para que o outro o experimente, por inteiro.
Marcelo era sem dúvida um bom rapaz. Tinha a voz calma e o sorriso cansado, cabelos escuros e curtos, magro, gentil, quase seguro. Nada demais.
O suficiente para Thaís. Apaixonou-se primeiro pelo jeito que ele segurava o lápis, a forma enroscada como escrevia; apaixonou pelo número 2 e número 5 que só ele sabia fazer daquela forma. É provável que não houvesse igual no mundo.
Apaixonou-se pelo jeito com que ele juntava os farelos de borracha (resultado das correções) apaixonou-se pelo olhar recriminador com que lhe chamava atenção – um jeito tão incomum de torcer a boca, de quase fechar um dos olhos – e pelo suspiro quase profundo que ele dava ao final de cada aula. Apaixonou-se pelo cheiro de madeira e travesseiro de bebê do perfume que ele usava. Apaixonou-se pelas miudezas de Marcelo. O rapaz de dedos longos e óculos dourados.
Marcelo era filho de uma amiga de sua mãe e aceitou essas aulas por quase não saber dizer ‘não’. Não que ensinasse mal, pelo contrário, era um excelente professor, apenas preferia gastar aquelas 2 horas ouvindo Coldplay e tecendo planos.
O que Marcelo via? A princípio nada. Quase apático. Aquela era a menina de que ele mal se lembrava o nome quando não estava na sua presença. Mas um dia, alguma coisa mudou. Não convém explicar como mas ao final da aula Thaís chorou. Sem motivo aparente ela desatou a chorar enquanto fechava o caderno. Estava cansada de escrever quase quatro páginas diárias e só falar dele antes de dormir. Sabia que aquele seria o último encontro, faria no dia seguinte a prova temida, não precisaria mais das aulas.
Soluçava enquanto juntava canetas, fechava zipers, não ousava erguer os olhos, não queria ver o desdém estampado no rosto dele. Não.
Ele não se moveu, quase não poderia notar-se sua presença ali se não pelo barulho fraco da sua respiração... inalterada. Ela tentava ser rápida, juntar suas coisas... Seus dedos não colaboravam, seu corpo inteiro estava dentro de um caldeirão, fervia. Era a ebulição de uma despedida. Quando finalmente terminou de arrumar suas coisas, tentou levantar-se e correr para rua, uma voz a interrompeu.
“- O que aconteceu?” Ele dissera... Ah! Quantas vezes, sozinha em casa havia repassado aquela cena em sua memória... “O que aconteceu?” havia mudado tudo, tudo.
Ela não o fitou de imediato, mas quando o fez, com seus olhos encharcados, viu passar pelo rosto dele uma breve expressão de angústia, que apenas dançou por ali, e se desfez, dando lugar às mesmas sobrancelhas relaxadas de sempre. Ela não respondeu, e uma lágrima vaidosa quis mostrar-se, encheu-se e encaminhou-se lenta pelas maçãs do rosto úmido, parou. Redonda o suficiente para cumprir o seu propósito secreto. Thaís não se lembra como foi, mas num instante menor que o piscar daqueles cílios pesados, Marcelo se inclinou só um pouco e extinguiu aquela lágrima presepeira com o próprio polegar.
- “ o que aconteceu?” repetiu ele, como se tantos números (tantos 2 e 5 lindos) tivessem-lhe sugado o vocabulário.
Ela não respondeu. E como se quase todo o céu coubesse no espaço de um toque, como se o aconchego de quase um mundo inteiro fosse possível, ele a abraçou.
 

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