30 de janeiro de 2009

[parte 3] - final

Postado por Keu Azevedo em 30.1.09 7 comentários
O que fazer? Liana cogitava coisinhas infantis.
Entristecia-se antecipadamente e já lamentava: como tudo em sua vida opaca, aquele rapaz seria somente um pingo de tinta que rebelde desprendeu-se da pena, mas morreu em cima de alguma palavra, num lugar que não lhe pertencia, e sendo maldito por estar ali.
Como de costume, estava conformando sua mente e aquietando seu coração menino, (ela sempre se conformava).
“As chances de que ele nunca mais voltasse àquela biblioteca eram imensas!” bradava a lógica.
Liana fechava o livro de que nem tomara nota e preparava-se para sair, quando o céu se abriu sobre a sua cabeça: Com o barulho da cadeira enquanto ela se levantava, o moço (moço da Liana) erguera o rosto e lhe olhara novamente. Mais baratinada do que nunca, e como não soubesse o que fazer, Liana fez a única coisa que lhe atenuava a expressão sorumbática: sorriu. Sorriu um sorriso tão sincero e desconcertado, que o outro tranqüilo e resoluto, lhe sorriu abertamente de volta.
O tempo parara e os livros que a circundavam ficaram todos em branco... Havia apenas uma luz: a luz daquele sorriso largo e sem som. Liana estava apaixonada.
Tinha medo de fazer mais algum movimento e cair da cama (era sonho, deveria ser) e aquele jovem inominado, era o seu par, como o das comédias românticas que tanto assistia...
Pôs o Lessa no lugar, agora era ela que vivia um conto.
É certo que o veria amanhã e depois, e depois...
Ele lhe sorrira! Sinal de que também entendia de tudo isso.
Passou devagar ao lado dele e pelo canto dos olhos pode perceber que ele ainda mantinha na face os fios daquele sorriso de instantes atrás; mas ela não esboçou mais nada, não queria estragar tudo, amanhã o veria, sim, o veria decerto.
Pegou suas coisas e saiu sem olhar para trás.
A jovem reclusa e demasiadamente aplicada havia dado lugar a uma moça qualquer, que sonhava ser bonita, ser livre, ser amada... Amada sim, porque não?
Agora Liana caminhava como que nas pontas dos pés. Assim que Ingrid soubesse... Não acreditaria, nem ela mesma acreditava...
Foi uma buzinada forte e prolongada que a despertou, e numa fração de segundos, Liana que atravessava a rua embebida por amor, estava estendida no chão, com sangue que lhe desenhava algo abstrato no peito e lhe respingava no rosto.
Não discernia tanto barulho, uns gritavam, gente corria, carros freavam e ela não sentia muito mais... Alguém havia se aproximado, e o cheiro de sangue a deixava ainda mais tonta...
Não podia enxergar direito (perdera seus óculos), mas reconhecera um traço, um traçozinho só...
Eram os mesmos cílios grandes e aqueles olhos... Agora trêmulos, diferentes de outrora. O dono pedia-lhe calma e que respirasse, mas ela não podia fazer muito...
Queria apenas saber uma coisa... A jovem tentava esboçar uma pergunta, mas algo enchia-lhe a boca e escorria quente por todo o seu corpo...
Vamos lá Liana, incentivava-lhe Ingrid, e pela amiga que ela via animada, esforçou-se uma última vez:
- Qual o seu nome?
Perguntou entrecortadamente.
- Qual o seu nome? Repetiu rouca, começava a sentir dor.
- Fernando. Respondeu o moço de olhos fitos nela.
- Como o Fernando Pessoa... Comentou e tossiu, a dor aumentava.
- Fique calma, respire.
Dizia o rapaz e Liana quase não o ouvia.
Repetia para si: Fernando, Fernando, Fernando...

Ainda naquele asfalto gasto, na frente da biblioteca, Liana se foi.
Ela não irá mais ler todas as manhãs, nunca saberá muitas coisas sobre Fernando, sua mãe também não terá uma filha advogada. Mas naquele dia, por algumas horas, Liana experimentou o que é amar.



Ps.: Povo: Olha só, esse conto tem traços bem auto-biográficos, mas não é tudo. Quem me conhece, percebeu fácil...
Quem já leu "A hora da Estrela" entendeu a minha inspiração...Se é que posso chamar assim. O fato é que sou meio Shakespereana...Tenho uma queda por mortes no final.

28 de janeiro de 2009

Continuação [parte 2]

Postado por Keu Azevedo em 28.1.09 6 comentários
Reparou que estava bem arrumado, não era muito alto e usava sapatos recentemente engraxados; reparou que seu cabelo curto era de corte simples e bem feito... Sinal de praticidade. Especulara também a sua idade “por volta dos vinte e cinco” sentenciou. Seus cílios eram grandes, mas a sua aparência era mediana, “jeitosinho” como diria a sua mãe.
O que havia dado nela?! Perguntou o seu bom senso. Primeiro desconcertara-se e abandonara o Pessoa, agora se esquecia do Lessa por um desconhecido que nem a encarava mais?! Aliás, porque será que ele não a encarava mais?! Porque de repente o livro se lhe tornou tão interessante?!
Liana não queria admitir, mas como é comum nas mulheres, estava com seu orgulho ferido. Primeiro ele chega não se sabe de onde e a perturba por inteiro cravando-lhe aqueles olhos escuros, disfarçados por aqueles cílios enormes, e depois de tê-la afrontado tanto, agora se fazia de sonso e inocente, sem sequer erguer o queixo para uma única olhadela!
Era demais!
Se pudesse falar com Ingrid, a amiga concordaria com o desacato.
E mais tempo se passou em que a moça não lia e o jovem que apenas mudava ocasionalmente a posição dos cotovelos, avançava página após página.
Liana não era dada a grandes devaneios, amava as literaturas, mas foi sua objetividade que fez atender ao sonho de sua mãe, que de tanto ver tribunais nas novelas, queria filha advogada. Seu desejo mais secreto (menos para Ingrid) era o de lecionar, ensinar artes em alguma escola... Mas como sempre comentava sua mãe: “professores são verdadeiros loucos, morrem pelo trabalho que mal lhes garante o pão”. Liana queria ser obediente e também precisava de dinheiro. Decidido: seria advogada e quem sabe, uma promotora no futuro.
Mas nesse momento, tudo que lhe ocorria, era entender a mente daquele ser desafiador que lia “A hora da estrela” defronte dela.
Liana não tinha amores. Talvez porque fosse ensimesmada demais, talvez porque tivesse privando-se por medo, ou talvez pelo motivo mais óbvio: não era do tipo que atraía os garotos. Mas naquela manhã, naquela biblioteca, (como ela queria que Ingrid estivesse ali) ela descobrira um alguém.
Um alguém de quem nem sabia o nome, mas sabia que gostava de ler, e de ler Lispector! Alguém que dispora de seu tempo numa biblioteca e que (vale citar) a tinha encarado exaustivamente tempos atrás.
Era a elucubração adolescente, que batia de forma tardia às portas do imaginário daquela jovem.
Liana agora inquieta na sua cadeira: ajeitava os óculos, batia com o lápis na mesa, mexia-se e pensou até em mudar-se para a mesa da frente... Mas certamente descartou tal hipótese, não teria coragem.
Sempre o tempo para nos jogar na cara a concretude de nossos dias: mesmo contra a vontade, ela percebeu que dali a quinze minutos, teria de ir embora, de voltar para casa sozinha, sem saber se veria o moço de olhos penetrantes novamente.


Ps.: Dessa vez o PS é só pra dizer: Caraca! Tem doido pra tudo, num é que leram o texto mesmo?! rsrs Obrigada pelos coments, em breve ponho a parte final.

25 de janeiro de 2009

Contando um conto para se reconhecer [parte 1]

Postado por Keu Azevedo em 25.1.09 6 comentários

Lá estava Liana. Ás nove da manhã jazia sentada na cadeira da biblioteca.
Não era bonita, não era rica, não era segura e muito menos achava ter luz própria (e talvez fosse verdade).
Contava 17 anos e acabara de passar no vestibular, futura advogada como a mãe tanto desejara.
Usava os cabelos sempre presos, assim como permanecia a sua alma presa em si mesma; era magra e sem muita cor, embora por alguns raros segundos o seu sorriso contido desse vida àqueles olhos grandes.
Ia ali para estudar, mesmo depois de aprovada, ainda tinha muito que ler... Porém naquela manhã, estava decidida a degustar poesia.
A biblioteca não era grande coisa, mas tinha os volumes necessários para o entretenimento doentio daquela jovem confusa. Acostumada aos becos e ruelas, Liana não fazia questão dos holofotes, vivia escusa, perdida em andanças que partiam de dentro de si para os livros que tanto consumia.
Não reclamava da escassez de algumas coisas, não sonhava coisas grandes, não se permitia nem um mínimo deslize... Já tentava responder sozinha a perguntas demais!
Mas um dia algo naquela biblioteca mudou.
Algo que ela não sabia o que era.
Seus olhos que apenas surfavam velozmente pelas linhas, encontraram outros olhos espreitando-lhes de passagem.
Estava apaixonada?
Liana não compreendeu de pronto o que se sucedera naquele instante, mas o rapaz que havia sentado na mesa à frente, por algum motivo, insistia em tirar os olhos do livro que tinha nas mãos e pendurá-los nos olhos da moça, que agora incomodada, já não absorvia uma linha sequer do Fernando Pessoa.
Liana ia todos os dias àquela biblioteca. Quando chovia, usava o guarda-chuva preto e antigo ao seu favor, quando o calor era intenso, no cúmulo de ousadia, usava uma camiseta de cores frias como bege ou cinza. Mas estava sempre ali... Não muito afeita a grandes grupos, tornara-se conhecida dos bibliotecários, do rapaz do guarda-volumes, e de mais duas ou três pessoas que também apareciam sempre para uma leitura ou empréstimo.
Mas naquele dia, ela viu algo que não notara anteriormente: havia aquele rapaz que a olhava. Liana (ou Lia, como a chamava sua única melhor amiga, Ingrid) detestava que lhe encarassem, numa definição de sua mãe, mulher cheia de verbetes, era como uma “lagarta que fazia questão de se esconder no casulo” e aquele rapaz insistente já a desconcertava...
Olhou o relógio de plástico que ficava na parede: ainda faltavam quase duas horas para o término de sua estadia fantástica entre os livros... O que fazer? Definitivamente o jovem a espionava já sem muito pudor.
Mais desconfiada que constrangida, Liana olhou para si como que a tentar desvendar o motivo de grotesco interesse. Não encontrando nada, fechou o livro com certa impaciência e se dirigiu a uma das estantes para pô-lo de volta no lugar. Percebeu então que o rapaz agora era quem havia retornado à leitura, estava quieto, imóvel... Não pode deixar de perceber também que o volume que estava em suas mãos era um de seus livros preferidos: “A hora da estrela” de Clarice Lispector...

-Bom, se ele lê Clarice Lispector não pode ser de todo o mal, ponderou.
Decidira retornar com algum livro de contos nas mãos, gostava de contos, eram para ela a projeção sucinta e impactante de alguma realidade solta por ai. Escolhera a esmo algum exemplar e acabou detendo-se a um do Orígenes Lessa e de volta à mesa de sempre, se pôs a ler.
Como era estranho...
As descrições, os períodos se simples ou compostos, já não a atraiam tanto. Algo mudara deveras... O jovem da mesa da frente já não a olhava mais.
Estava agora concentrado em sua leitura e como ela agora o observava, pode notar que de vez em quando sua testa se franzia... Talvez não gostasse de um trecho ou se preocupasse com Macabéia... Liana não sabia.
E nem entendia o porquê de o Lessa ter se tornado repentinamente tão desinteressante.
Tentando ser discreta, fingia ler e até virava algumas páginas de vez em quando, mas ocupava-se mesmo de olhar o rapaz da mesa da frente.



Ps.: Posto o resto no decorrer dessa semana, [ainda não acabou] Não pus de uma vez porque post grande demais ninguém quer ler e esse já havia ultrapassado...hehehe
 Por enquanto, confabulem sobre a saga de Liana.

21 de janeiro de 2009

Além do que os [meus] olhos hoje podem ver

Postado por Keu Azevedo em 21.1.09 4 comentários

Tudo que vejo ao meu redor tem aspecto gasto.
As piadas são repetitivas: sempre os mesmos bodes-expiatórios,
a poeira invade as casas e transforma as pessoas em múmias.
Preciso olhar além,
voltar a crer em estórias, ouvir mais causos, dar mão à palmatória.
Granir pontos coloridos no papel só pra poder ver que desenhos eles formam no ar.
Dispor-me de tal forma a querer ser humo, consumir-me e refigurar-me nutrição para que outros sejam saciados.
Hoje, meus olhos vêem asas arrevesadas, mas eu entendo que ainda é preciso voar...
O tempo adequado e as condições favoráveis não chegarão.
Não se espera que o deserto vire rio para atravessá-lo; e se ainda assim alguém o crê, que construa sua canoa antes que as águas invadam... A prudência é irmã das grandes travessias.
O que procuramos não está no profundo de nós, lá dentro não há muita coisa. Está em encontrar o sentido mais louco pra fazer aquilo que sabíamos desde o início: fomos chamados para servir.
Um serviço não lisonjeador, mas de amor com propósito.
Um serviço que é capaz de transformar a resistência, vencer paradigmas.
Quando estamos bravos após um desentendimento, não são as justificativas a melhor estratégia, mas aquele sorriso sincero que nos desarma, aquele abraço apertado e silencioso que nos amolece...
O que eu vejo é um mundo perdido de quem mata porque esqueceu que acima de tudo, está a capacidade humana de AMAR.
Mas eu acreditarei até o fim, acreditarei na remissão.
Isso é olhar além do que os meus olhos hoje podem ver.
As batalhas se multiplicarão, a dor também. Mas no homem há seiva, há essa inigualável fênix que renasce do sangue derramado.
É quando se esquece a lição que se volta aos livros... É hora de ensinar aos mestres que a sabedoria e a dignidade não se constroem com meditação e yoga, mas com exercício vivo da tolerância, com a mão estendida quando não haverá recompensas, com a prática do amor que tantos pregam e poucos executam.
É tempo de enxergar além dos determinismos, dos olhos acusadores, é tempo de dizer: “vem como estás”...
Quem acolhe uma semente seca e a rega, tem árvore para descansar à sombra.
Isso é apurar a visão, é tentar olhar além do que os meus olhos hoje podem ver.
 
Ps.: O título desse post [que tb já foi o do blog] 
é o nome de uma música da banda de rock OFICINA G3 
que teve um papel fundamental na minha adolescência:
 “Além do que os olhos podem ver”

Ps.2: Claro que sou influenciada pelo que está acontecendo:
Israel =Shalom=Palestina: Oxalá/ inshalá*

18 de janeiro de 2009

São teus olhos

Postado por Keu Azevedo em 18.1.09 7 comentários

São os teus olhos fulvos que me desestruturam.
A separação que consigo fazer entre os três tons que revestem tua retina,
e a ponte que eles criam diretamente com os meus próprios olhos.

São os teus olhos que discretamente se movem enquanto ouço tua voz,
que me fala de qualquer coisa boba...
Nada me importa mais que olhar os teus olhos.

Não sei se é o sorriso discreto e a brincadeira que teu olhar faz
enquanto me olhas,
ou o aconchego inconfundível de cobertor velho,
que sinto somente quando entre o movimento dos teus cílios,
posso brincar de esconde-esconde com cada olho teu.

São os teus olhos o quebra-cabeça que mais desafia a minha sanidade.
E quando se aproximas, se me olhas um instante,
Faz valer à pena cada coisa que eu pude enxergar até hoje.
Porque são teus olhos o sinete perfeito para o meu atestado de amante.

Queria cuidar de cada olhar teu:
do mais furtivo que me lanças,
aos mais serenos e entusiastas com que sonho.
Olhares somente de teus olhos,
que latentes e vivos
fulminariam a necessidade que tenho de estar contigo.


Ps.: Créditos da imagem pra Geisiel, thanks for the help.

17 de janeiro de 2009

Coisas aleatórias

Postado por Keu Azevedo em 17.1.09 8 comentários
Regrinhas básicas do meme são:

-Linkar a pessoa que te indicou.
-Escrever as regras do meme em seu blog.
-Contar 6 coisas aleatórias sobre você.
-Indique mais 6 pessoas e coloque os links no final do post.
-Deixe a pessoa saber que você a indicou, deixando um comentário para ela.
-Deixe os indicados saberem quando você publicar seu post.
E os indicados são:

Flávia e Anderson: http://flaviaeanderson.blogspot.com/
Ana: http://anaconfabulando.blogspot.com/
R.Vinícius: http://folhas-avulsas.blogspot.com/
Ad: http://pronnciasdemim.blogspot.com/
Alê: http://olhardeale.blogspot.com/
Vitor: http://vitor-17.blogspot.com/

** Assim como a Nathi http://meupretextodiario.blogspot.com/ roubei o joguinho!!! Gostei.


1- Tenho rinite alérgica e miopia... Ah! Sou filha caçula.
2- Não sei dar estrelinha e amo andar descalça.
3- Não tenho muita paciência com crianças.
4- Adoro fazer surpresas e não gosto muito de café (evito o máximo que posso).
5- Uma das coisas que mais detesto na vida é comer sozinha! É tão sem graça... Quando não tem jeito, ligo pelo menos a tv... Pra ver se ameniza a sensação horrível que sinto de comer só.
6- Relevo as coisas com facilidade (tenho caráter complacente).

*Acho que num falei muita coisa interessante né?! Esse negócio de aleatório é difícil... Hahaha se pensar demais fica planejado, se escrever o que vem, fica tosco. kkkkkk

15 de janeiro de 2009

Eu mereço!

Postado por Keu Azevedo em 15.1.09 7 comentários

Eu mereço um lugar onde boyzinhos ridículos fazem sucesso com bandas chamadas NX ZERO E FRESNO. (?)
Eu mereço um lugar onde a adolescente Malu Magalhães ou faz sucesso por namorar Marcelo Camelo (mais de 15 anos mais velho e pra mim um dos melhores músicos do país) ou por ser completamente nosense, no sentido mais abstrato da palavra, porque sinceramente, nem crescendo numa bolha de estanho, ela seria tão...tão... tão daquele jeito.
Eu mereço um lugar onde, por mais incrível que pareça, as pessoas dão ibope para a nona [é, eu disse 9ª] edição de um reality show chamado BIG BRODER BRASIL... É vergonhoso... E nem precisa falar sobre o exercício do voyeurismo né?!
Eu mereço um lugar onde CALYPSO vende horrores a cada cd e caras como Humberto Gessinger, Hebert Vianna, Zeca Baleiro e Fernando Anitelli... ... ... Morte aos gênios! hahaha
Eu mereço um lugar onde ler literatura de qualidade [isso lógico, não inclui Paulo Coelho e Augusto Cury] é coisa incomum entre os jovens, mas ficar vidrado por MALHAÇÃO e reproduzir o que tem lá, é via de regra.
Eu mereço um lugar onde gostar de poesia e usar cor-de-rosa é coisa de “gay” [homem-que-é-homem-num-pode], mas requebrar dançando pagode ou funk, se comportar feito ogro em tantos aspectos e acabar com o pulmão, o fígado e afins se entupindo de nicotina e cerveja pode...
Eu mereço um lugar onde virgindade é démodé e as regras gramaticais nunca podem ser alteradas.
Eu mereço um lugar onde Roberto Carlos faz um “especial” com as mesmas músicas e o mesmo tudo, ano após ano, com leves alterações em algum dueto e nas caras vistas na platéia: geralmente aparece alguma celebridade do momento... Sempre emocionadíssima!
Eu mereço um lugar onde crianças indígenas podem ser soterradas vivas se nascerem com alguma espécie de ‘deficiência’, pois “os índios e sua cultura estão acima das leis”, consequentemente, hábitos como o infanticídio estão acima do direito à vida também: leis de merda!
Eu mereço um lugar onde milhares de jovens fazem passeata na metrópole em prol de uma causa humanitária: para que o RBD não acabe... Mas os mendigos, os famintos e os desabrigados que se f...!
Eu mereço um lugar em que cantoras como Maysa, de vida torpe e valores distorcidos, são protagonistas endeusadas em mini-séries, mas a maioria dos habitantes nem sabe quem foi Guimarães Rosa.
Eu mereço um lugar onde ao invés de tentar mudar esses fatos, uma jovem escreve uma postagem que quase ninguém lê.

“Esse é o nosso mundo: o que é demais nunca é o bastante e a primeira vez é sempre a última chance. Ninguém vê aonde chegamos, os assassinos estão livres, nós não estamos.” (Renato Russo)

PÁTRIA AMADA, BRASIL.


Ps.: Tudo que citei aí é de verdade, mas é opinião minha! Hehehe
Ps.2: Sim, dessa vez sou eu mesma na foto.

10 de janeiro de 2009

Folia No Meu Quarto - O Teatro Mágico

Postado por Keu Azevedo em 10.1.09 3 comentários

Bom, não é novidade eu citar o TM aqui, mas é que essa música tem me encantado demais!Tem trechos da letra [destacarei p/ vcs saberem] que tem tudo haver com esse meu momento "férias-resenha" [embora eu ame sobretudo os primeiros versos, e todo o resto tb] ... A melodia e a combinação das vozes [Fernando Anitelli/Nô Stopa] são perfeitas! Quem tiver a oportunidade, escute.


"Se água nos olhos do palhaço molha
Menina dos olhos abandonada

Boneca de pano, de pena, chora... pano
Água nos olhos da gente escorre

Corre beirando boca, ribeirão
Dorme junto ao coração
Faz do peito cachoeira

Leva, lavando, me deixando leve
Que a certeza não escorregue
Feito pedra de sabão

[Laiálaiá laláiaiêrauêra...]

Bola, vidro, janela, bronca, tapa
Dias e dias sem televisão
Fecho porta pra não escutar briga
E, também, pra briga não escutar minha canção

Que faço distraindo a vida
Vou traindo minha sina
Distraindo decisão
Falo coisas que as vezes não faço
Sou boneca, sou palhaço, ponto de interrogação
[Laiá, laiá laiaêrauêraa...]

Todo ser seria
Todo rio riria
Toda flor folia
Abajour pra escuridão

Toda brincadeira começa com alegria
Mas o sino do almoço troca o riso por feijão

Todo ser seria
Todo rio riria
Toda flor folia
Abajour pra escuridão

Toda brincadeira começa com alegria
Mas o sino do almoço troca o riso por feijão

Quero mais careta no retrato
Quero mais folia no meu quarto
Quero mais careta no retrato
Quero mais folia no meu quarto."

7 de janeiro de 2009

Sucessão

Postado por Keu Azevedo em 7.1.09 3 comentários

Com a mesma calmaria da casca de uma semente que se desprende
e vagueia ininterrupta até chegar ao chão;
com a mesma alvura dos dias de sol,
com o mesmo espírito da bagunça entre amigos,
e com o mesmo franzir de têmporas daquele que acaba de acordar... É que me vejo enquanto a semana passa.
Com o bocejo, a leitura e as lições que decoram os mais preocupados...
Enquanto os dias se sucedem
e os números obstinados das horas, correm.

Cercada de papéis que se querem incutidos,
a única coisa que posso fazer é esguichar
minuciosidades parcialmente coloridas,
que crio enquanto, sozinha, deixo-me deixar de querer ser.

Lá fora a rua é sonora,
aqui dentro o dia anda rosado...

Por falta de embasamento, o que leio me deixa triste.
Mas é tristeza pendular,
que sacode o intimismo como farelo de bolacha doce,
já não serve mais...
Então me deito na rede trançada pelas minhas escolhas
e com algum encadernado nas mãos,
passo a tarde imaginando lugares e pessoas diferentes das que conheço.
Quando o cansaço me abate,
abano a cabeça para afastar as emoções
e repouso sobre o peito o passaporte que havia em minhas mãos.
Cessada a viagem, durmo pra poder concretizar os sonhos que acabei de ter.
Porque sei que amanhã, sucederá o mesmo.

1 de janeiro de 2009

Domingo no parque

Postado por Keu Azevedo em 1.1.09 5 comentários

José não era um José como tantos outros. Era o meu José.
Posso dizer que conhecia cada ondulado de seu cabelo, cada cicatriz de suas pernas, cada um dos três tipos de sorriso que eles esboçava... Mas não foi o suficiente.

Nos conhecíamos desde as ultra-sonografias de nossas mães, amigas de condomínio... Ambas eram empregadas domésticas de patroas também amigas num mesmo andar. O José veio primeiro, quase dois meses depois nasci eu, (que ele chamava Ju quando brincava, Juliana quando repreendia) cheguei um pouquinho mais tarde, com mais dor, talvez um prelúdio apenas.
É um perigo imenso vidas tão entrelaçadas.
Não é que a gente namorasse desde sempre, a princípio eu gostava apenas como ele me olhava, como falava comigo e o jeito que cuidava tanto de mim... O José estava certo, eu já devia a minha vida a ele.
O meu pai morreu e foi a mãe dele que nos deixou também... O mais estranho é que eles dois estavam juntos e, desde então, os nossos pais que sobraram não se encaravam mais. O fato é que ele me amava, o meu José me amava. Amava com uma devoção infantil, com um calor abrandado pelo cuidado, com o esforço do trabalhador que era naquela feira onde gastava todo o seu dia, vendendo frutas pra ganhar o pão.
A gente sempre passeava depois da feira, mas o José adorava me ver. Gostava de me ver trabalhando, de me ver em casa, de me ver na rua passando pra entregar uma trouxa de roupa, gostava de me ver dormindo... Triste foi o último dia que eu o vi.
Ainda na escola conheci o João. Todo mundo conhecia o João, era o justiceiro do colégio, o mais bonito e mais forte, o que tinha sonhos tão grandes quanto os medos que o tornavam um arruaceiro... O João queria ser como o Pelé, a cor da pele ele tinha, mas quem não tem tanta sorte acaba na construção, o João virou pedreiro e capoeirista: o primeiro pelo destino, o segundo pelo ódio do destino.
Ninguém gostava do João, somente o José.

O grande problema é que o José nem sonho tinha, eu queria ir pra faculdade, ele queria casamento, eu queria fazer dança, ele queria ter sete filhos. Isso não é sonho. Nem imagino com o que ele sonharia se ainda pudesse sonhar hoje... O José só deu asas à mente quando a mente lhe mentia; cigana traiçoeira é a mente: quer lhe relembrar o passado, quer lhe mostrar um futuro, nunca se sabe se é o seu. Eu tinha medo do futuro, medo de perder o José, medo de esfolar a mão esfregando pro resto da vida... Não vou mais.
Eu já andava pensando, e o João até me alertava: dizia que arriscar é bom, me chamou pra capoeira, mas o José não gostaria... O José gostava de parque, de roda gigante, só no final de semana quando aparecia. Eu estava cansada, meu pai morreu e agora era o José que me cercava. Recusei o convite, pro parque também não iria. Estava feito. Gota d’água.
O José não aceitou, queria passeio, queria compromisso, queria continuar sempre me vendo. Eu disse não. Ali foi um adeus.
José agora já não gritava brincalhão pros fregueses na feira, eu andava estudiosa, queria prestar vestibular... O João marrento me ajudava, não era tão mal assim, dizia que se regenerara, e nem brigava mais.

O parque voltou, a minha prova era na segunda-feira, foi o João que sugeriu: “- É pra descontrair, relaxar um pouco...”
Eu disse um sim, ganhei uma rosa, fui tomar sorvete, esquecer o José que eu já não via. Mas o José também precisava espairecer, esquecer a Ju que ele desesperadamente queria.

Não deu outra: Eu queria o sorvete, o João a companhia, mas o José queria mesmo continuar me vendo...
Eu via o parque e a roda gigante, o João uma moça bonita, o José um ex-amigo e duas traições. José via a rosa, criava um mundo, a roda gigante e mais dedução, olhava o sorvete e sentia arrepios.
José ainda me via, mas não era assim que gostava de estar me vendo. (Juliana!) A roda gigante girava e era José que entontecia. A rosa dizia de amor, o parque era cenário macabro, era o destino chamando José, sussurrando histórias, criando confusão.

Reluz uma faca, derrama-se o sorvete (morango é vermelho, o coração é vermelho, o amor de José também era vermelho).
José foi o último que vi, João o segundo a cair e José o terceiro que jazia morto, morto em si, morto sem mim... Morto de pé, com sangue na mão, no parque, naquele domingo.
E na segunda não tem mais feira, nem construção.
Ê José, ê João.



Ps.: Esse conto foi feito a princípio por mera obrigação: 
foi uma atividade avaliativa da Disciplina Lingua Portuguesa VI, lá da UEFS. 
A profa Norma Soeli exigiu que transformássemos em prosa o enredo da música
 (homônima a esse conto) do G. Gil... 
Se vc conhece a música, fica mais bacana pra sacar as coisas, 
mas se não conhece
 (vale à pena pesquisar, é um super clássico do Gil, 
e eu nem gosto muito das músicas dele) 
tudo bem... 
Cada um faria ao seu modo, 
desde que com o limite de linhas e mais umas coisas que ela determinou; 
eu escolhi que a Juliana narrasse o acontecido... Deu isso aí... 
Tirei nota máxima. \o/

2009: 3 coisas...

Postado por Keu Azevedo em 1.1.09 1 comentários

Galeraaa! hahaha foi uma piada! Num tem galera por aqui... rsrs
Bom, nesse post (que na verdade eu deveria ter feito antes) trago 3 coisas desses meus últimos dias de 2008:
1- Que sacanagem! Caramba, foi só eu que vi na tv anunciarem orgulhosos as 24 TONELADAS de fogos que serão usados em Copacabana pra "comemorar o novo ano"? (fora os de outras capitais)
Oxe! Nem imagino qto isso custou e sendo bem sincera, acho um desperdício absurdo! Já pensou todo esse dinheiro aplicado em algo que não fossem estrondos e luzes passageiras que não mudam a vida de ninguém?! Sou boboca mesmo, num vejo graça nessas peripércias, afff!

2- Depois de tentar ler José de Alencar 3 vezes, finalmente estou concluindo um clássico seu, e transcrevo aqui um trecho em que a protagonista filosofa sobre as mulheres:
" As que falam como uma novela, em vil prosa, são essas moças românticas e pálidas que se andam evaporando em suspiros; eu falo como um poema: sou a poesia que brilha e deslumbra!"
(Aurélia - romance: Senhora)
Esse trecho me chamou muito à atenção, ela totalmente "se achou" mas a abordagem é interessantíssima. Gosto desses desafios, essas coisas que me fazem pensar... Não sou nem prosa e nem poesia segundo esses conceitos acima...Diria que tô no meio termo.

3- Meus planos pra 2009?
NENHUM!
Meu plano esse ano é não planejar...
Cansei de escrever na agenda e tentar mentalizar um monte de coisas que eu nunca cumpro durante o ano.
Cansei de planejar, confabular, determinar e não dar em nada...
Em 2009, deixo a cargo de Deus e dos escritos dEle pra mim.
Não criei espectativas, não faço idéia do que acontecerá... Estou só vivendo enquanto isso... Que esse bloquinho em branco que é a minha vida, neste ano que se inicia, seja escrito...Não sei com o que nem como...Mas que seja escrito...E não por só mim!
[No expectation, no deception]

FELIZ 2009 pra todos e todas! Amanhã ponho texto novo...Tô terminando!

Ps.: Tenho um verdadeiro tombo pelos clássicos, a maioria me atrai muuuuuuito, mas o "Zé de Alencar" é meio que uma pedra na minha sandália... Nunca gostei muito dele... Tô achando legalzinho...Quem sabe melhora... rsrsrs

 

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