22 de dezembro de 2010

Essa nossa tal felicidade

Postado por Keu Azevedo em 22.12.10 7 comentários

Nada além da mão-dele-na-mão-dela. O cheiro bom dele, o gloss perfeito dela. E de repente não se sabia mais quem sorria, espelhavam-se.
Tensos: ele esfrega o tênis no piso provocando sons agudos, ela balança as pernas e desenha no ar com o bico do sapato. Precisavam-se.
E logo não havia encaixe perfeito como a cabeça dela no ombro dele, não havia conflito interessante no mundo como as pequenas picuinhas dos dois, não haviam sonhos mais bonitos, beijos mais longos, sorrisos mais redondos... Não havia.
Éramos nós dois, você lembra?
Meu castelo de cartas ruiu, todas as copas num redemoinho... Foi teu sopro amor, valeu à pena. Corações vivos.
Eu exigia que me devorasse por inteira: meus queixumes, minhas dores, incertezas... E ruminasse-me amor-casto, disposto a ser tocado por ti outra vez.
Você escrevia fábulas e acreditava que as abelhas cometeriam genocídio se tocassem meus lábios como (só) você havia tocado... (impossível haver mel mais puro).
Tuas melhores composições foram as dedilhadas no meu corpo. As notas mais harmoniosas, nossos sussurros em uníssono...O arranjo perfeito.
E eu me divertia a pegar palavras lindas recém saídas de sua boca, torcê-las... E do sumo derramado umedecer meus lábios para dar-lhas de volta.
Enciumava-se a Felicidade e jurava não permanecer mais entre nós... Birra que nunca cumpria, era consequência de nós dois.
Na nossa classe, eu era o quadro negro em que aquelas unhas escreviam a mais bela poesia.
E se você reclamasse algum cansaço, ouviria o meu sussurro: "recosta-te na minha alma".
Mas agora você não está mais aqui.
Eu tenho saudade do nosso futuro. Os teus dedos na minha nuca, a tua respiração roçando na minha... E nossas risadas confundidas: a lembrança boba da nossa vida tão boba antes de nós.
Te espero.
Pronta a derramar o meu amor-mar nas tuas mãos em concha, para que possamos ancorar na orla do infinito.

6 de dezembro de 2010

Contato

Postado por Keu Azevedo em 6.12.10 5 comentários

Há que se separar pessoas: as tristes e doces, abençoadas e esperançosas, irônicas e de coração mole... Essas todas quero separadas pra mim.
Gosto de gente que após a primeira mordiscada deixa um gostinho doce na boca que te faz lamber os lábios, querer mais.
Sou ladrilhada. Feita de um ladrilho frágil, irregular... Cuidado onde pisa. Como uma taça de açúcar que, ao menor choque fragmenta-se, uma alma sincera estilhaça o meu coração... É perigoso.
Gosto de gente que me rouba o tédio, me arranca do marasmo e - sobretudo contra a minha vontade - chuta meus receios pra bem longe...
Tem gente que é um bocadinho gostoso, um punhado doce que a gente vicia. Tem gente que é um pedaço de estrago, e a essas pessoas, o amor abre um sorriso, quer que fique... Dá medo.
O medo de amar é o que justifica a facilidade em abrir as pernas e não o coração. É esse mesmo medo que petrifica a gente de dentro pra fora. E vira aquela sensação ruim: um quase-abandono, uma quase-dor... Uma querança inteira. Espaço demais...
Tenho esperanças pulmonares que inflam e contraem à medida que vou vivendo. Por isso, em tempos de crise há que se erguer a cabeça, piscar rápido pra que as lágrimas caiam de uma vez, e então, sair ao encalço do impossível.
Murmurar demais e saborear de menos, eis a chave da impaciência humana. A necessidade de planificar, o embargo ao surpreendente... Eu sou assim, cheia de estratagemas pra me auto-sabotar, um eterno jogo de não-é-você-sou-eu.
Só quem já se despejou inteiro num cantil furado sabe o que é se derramar em vão. E é água que não volta mais, sentimentos desperdiçados...
Mas eu sou incorrigivelmente apaixonada pelas pessoas. O que significa se doar mais e de novo, esparramar a alma mais e de novo, e não matar a sede: escorrer mais e de novo pela terra seca... Até que brote. Há de brotar.
 

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