Nada além da mão-dele-na-mão-dela. O cheiro bom dele, o gloss perfeito dela. E de repente não se sabia mais quem sorria, espelhavam-se.
Tensos: ele esfrega o tênis no piso provocando sons agudos, ela balança as pernas e desenha no ar com o bico do sapato. Precisavam-se.
E logo não havia encaixe perfeito como a cabeça dela no ombro dele, não havia conflito interessante no mundo como as pequenas picuinhas dos dois, não haviam sonhos mais bonitos, beijos mais longos, sorrisos mais redondos... Não havia.
Éramos nós dois, você lembra?
Meu castelo de cartas ruiu, todas as copas num redemoinho... Foi teu sopro amor, valeu à pena. Corações vivos.
Eu exigia que me devorasse por inteira: meus queixumes, minhas dores, incertezas... E ruminasse-me amor-casto, disposto a ser tocado por ti outra vez.
Você escrevia fábulas e acreditava que as abelhas cometeriam genocídio se tocassem meus lábios como (só) você havia tocado... (impossível haver mel mais puro).
Tuas melhores composições foram as dedilhadas no meu corpo. As notas mais harmoniosas, nossos sussurros em uníssono...O arranjo perfeito.
E eu me divertia a pegar palavras lindas recém saídas de sua boca, torcê-las... E do sumo derramado umedecer meus lábios para dar-lhas de volta.
Enciumava-se a Felicidade e jurava não permanecer mais entre nós... Birra que nunca cumpria, era consequência de nós dois.
Na nossa classe, eu era o quadro negro em que aquelas unhas escreviam a mais bela poesia.
E se você reclamasse algum cansaço, ouviria o meu sussurro: "recosta-te na minha alma".
Mas agora você não está mais aqui.
Eu tenho saudade do nosso futuro. Os teus dedos na minha nuca, a tua respiração roçando na minha... E nossas risadas confundidas: a lembrança boba da nossa vida tão boba antes de nós.
Te espero.
Pronta a derramar o meu amor-mar nas tuas mãos em concha, para que possamos ancorar na orla do infinito.

