26 de outubro de 2009

Paf!

Postado por Keu Azevedo em 26.10.09 3 comentários

E pela primeira vez em 22 anos de vida [recém completados] estou verdadeiramente à beira de um colapso...! Implosiva...Totalmente implosiva.
Quando eu era criança um dos gestos mais legais era estourar o saco de salgadinho. Não sei se você já teve essa experiência... Ao terminar de comer, era só encher de ar... segurar pela borda e de preferência chegar de fininho bem perto de alguém e...Paf!
Sobravam as minhas gargalhadas e a irritação do outro.
Acho que já gastei todos os meus recursos pensantes tentando arrumar essa coleção de cassetes que é a minha vida... Agora tô tão atordoada que ela tá parecendo um saquinho de salgadinho na minha mão... E eu confesso que tô a ponto de estourar...! Será que ainda funciona? Será que eu riria disso? Será que irritaria alguém?
Quer saber? Acho que cansei de tanto comedimento... A apatia que tô sentindo tá começando a me assustar... É aquele momento pasmático antes de enfrentar a montanha russa... Você olha o tamanho, as curvas... E começa a pensar no que antes não pensava: na segurança, nos riscos... E fica ali... instantes que parecem séculos obesos que se arrastam na sua frente... Lentamente você começa a ficar apavorado! E a adrenalina, a emoção, o prazer daquela aventura...? Sinceramente não é no que penso agora. O Outro lado pesa mais... Então parei.
Há dias estou ali com o bilhete na mão vendo pessoas entrarem e saírem da montanha russa...vejo-as gritando, sorrindo, enjoando, divertindo-se... De vez em quando volto a olhar pro bilhete já amassado em minhas mãos... As letras estão começando a desaparecer e suas bordas perdem a cor viva de antes... Não é ação do tempo... é da minha hesitação; ela que causa tudo.
Quando é cedo e o parque enche-se de visitantes... sempre começo a pensar: “dane-se o medo! Dane-se!!!” mas as horas e as pessoas me atravessam como se eu fosse um fantasma, movo o mínimo de músculos possível... Aperto ainda mais o bilhete e meus olhos ficam úmidos. Não vou.
Há tanto em jogo... Não é só a proeminência de uma morte... Mas de dores. Morrer pode doer tanto... Morrer assim... Não quero, não na montanha Russa!
É por isso que lembrei do saquinho de salgadinho/pipoca... É por isso que sinto que preciso estourá-lo... Se você já fez isso, sabe que também sempre há um restinho de salgadinho esfarelado no fundo... e que quando estouramos o pacote, ele voa...os restos se espalham... Geralmente nos melamos... Geralmente grudam, geralmente a gente nem liga.
Ficar preparando-me para experiências em possíveis montanhas russas tá me fazendo surtar aos poucos... Não em histeria, mas em ataraxia... que é tão má quanto.
À medida que estou ali de pé, ninguém sabe, ninguém vê [será que ouviriam se eu estourasse o saco?]... Minhas pernas estão cansadas e quero voltar pra casa... Mas qual é essa atração excitante por aquele “brinquedo”?
O mesmo impulso que leva o menino travesso a enfiar o dedo no bolo de aniversário do coleguinha, que leva o adolescente a dizer as verdades mais cruéis enfrentando os pais, que leva uma jovem como eu a amornar... A começar a duvidar do caráter das coisas [pra que serve uma montanha russa afinal? Os homens a criaram, que tenho eu com ela?] a desconstruir... Reduzir as imensidões com que sonhava... Tudo em nome de um bilhete pra uma maldita montanha russa.
Bilhete que eu quis tanto, que me custou...
Alguém, por favor, me arranca desse Parque?

17 de outubro de 2009

Colméia

Postado por Keu Azevedo em 17.10.09 4 comentários

Eu não era mais feliz na minha infância. Era mais comprometida com a verdade, menos comprometida com as horas, pensava menos... Corria mais, punia-me menos, cobrava-me menos, cantava mais alto! Na infância eu lia as histórias que ia tentar fazer acontecer pro resto da vida...!
É normal o saudosismo quando nos vemos diante de situações complicadas. Estou assim, sentindo como se abelhas estivessem construindo uma colméia dentro da minha cabeça: tudo zunindo demais, agitação demais, atividade demais, confusão demais... E apesar de tudo isso, o meu pensamento, que anda empoeirado, precisa da espanação de alguma ideia absurda!
Fico me perguntando se todo esse borbulho acabará em mel...
Eu sei que o mundo não é uma caixinha de surpresas: suas chagas estão expostas, cabe a mim decidir se tento limpá-las ou venero as secreções...
Mas quando se trata de mim é como se um frenesi me impedisse de ser racional. Aí me pego sonhando com um lugar onde as pessoas ficam sentadas em suas varandas tomando sol, sem medo, apenas querendo vitamina D.
Se eu pudesse só transitar... Será que eu sou a única que hesita ao pegar o guarda-chuva mesmo com o céu tomado por nuvens escuras...? Será que eu sou a única que fica tentando conservar aquele restinho de esperança de que o tempo mude e por isso se arrisca a chegar em casa molhada e gripada?
Tomar chuva às vezes é tão bom...
Tenho produzido mantras do tipo: “não fique ansiosa” e solenemente tento internalizá-los... Não tem adiantado muito. A vontade que tenho ainda é de adiar todas as decisões... Eu queria ter um toque que congelasse o mundo inteiro e, sem sons, sem movimento, sem caos, apenas eu continuasse andando...
- A verdade é que a gente só faz cabana onde quer estar... Deixe-me passar furtivamente... Quando eu achar o lugar certo, descanso! Assim, quando todos se cansarem da embromação do sentir desses dias, estarei pacientemente confortada pelo amor substancial!
Essas idas e voltas tem me deixado tonta, mas sou eu que fico girando como que pra fazer flutuar o vestido, enquanto tudo ao meu redor permanece irritantemente estático...Esperando-me, de olhos arregalados!
A expectativa me frustra e me corta... Posso sentir suas unhas rasgando a minha pele. E o que fazer com essa dor? Sempre a dor... Quando não se sabe como fazê-la parar, deixar doer imprime a segurança que se precisa pra evitar dores futuras...
Sem soluções, termino por aqui... Preciso aproveitar porque, ao que parece, as abelhas deram uma pausa para o almoço.

3 de outubro de 2009

O amor e eu

Postado por Keu Azevedo em 3.10.09 4 comentários

Amores prolixos,
amores de Circo...
Amores amados, amantes sagazes.
Amores infindos, pois que
são amores efêmeros de ficar pra sempre
acampados na memória.

O que dizer dessas coisas finitas a que a gente se apega? Essas amanças furtivas que cultivamos pelas coisas passageiras... Mera Mania de Afeição. (?)
Há pessoas que perfuram silenciosamente as defesas que impomos e quando nos damos conta, já ocupam o espaço que antes lhes foi negado...
E lá estamos nós a amar coisas e pessoas! A construir cada vez mais laços: uns finos e sibilantes, outros, laços como que trançados de sisal... Rijos e rústicos que em seu viés, escondem uns bocadinhos de doçura pra vida da gente.
Sou a favor de amar, do amor e até da amança melosa em que a gente se vê preso de vez em quando... A amança de dizer um eu te amo constrangido, ou de rasgar aquele eu te amo descontraído de quem ama mesmo, por mais que pareça brincadeira.
Mas sou defensora dos “eu te amo” de quando é amado mesmo... De quando a gente fala sem querer, uma expressão que escapuliu de lá de dentro porque já era difícil conter esse bichinho do amor entre as paredes veladas do coração.
Aí sim, o “eu te amo” tem gosto e graça. Vem de graça, e tem o total despropósito que só é possível àqueles que aprenderam a amar pelo amor e não pelos benefícios e respostas.
Eu posso falar porque sei o que é.
Vivo cercada de amor - e recebo tanto - que retribuir a essa gente que me ama (com todas as minhas moléstias bem cultivadas) é um prazer tão grande que encobre e me permite superar as desavenças, os tempos e os males que mancham os relacionamentos...
Amo com amores vários, e em todos há melodias circenses... Meu coração pastelão não se cansa, ele roga amor e amolece com cada mimo que recebe...
Só me resta ceder a essa amança toda: despretensiosa, trapezística e que trabalho a cada dia para que seja mais intensa, mais sincera, mais suficientemente AMOR.
Sim, esse é um textinho sobre amores... Que tenho tantos e em tantos graus...
Não tenho amores do passado, nem amores velhos. Não tenho amores tenros nem amores neófitos.Tenho simplesmente amores que dançam comigo de vez em quando; uns mais experientes ou mais saudosos, outros mais apaixonantes e calorosos mas todos amores meus, que colhi pessoalmente nessa vida e nesse mundinho de pipoca que Deus me deu.
Não me preocupo mais com a permanência desses seres amados ao meu lado: o meu amor cabe entre fios de telefone, dígitos de sms, letras de teclado, até limites de caracteres... O meu amor aprendeu a caber-se em lágrimas e orações também. Mas principalmente porque o meu amor resiste na lembrança e no lugar onde se originou – dentro de mim – meu amor ainda sofre, mas não precisa de corpos, precisa de pessoas a quem se doar... E quando não puder entregar-se num abraço, vai deitar-se nas minhas pálpebras que se fecham e recordam os momentos de amor infindos que vivi... Eternos e refugiados, porque eu acredito em amores amados pra sempre... Em essência, em tombos, em ausência... Amor que abnegou de certas vaidades pra acampar na alma e no espírito.
Eu acredito no AMOR... É por isso que amO!
 

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