22 de julho de 2011

I Do

Postado por Keu Azevedo em 22.7.11 6 comentários

Texto para ser lido ao som de "I Do" da 

Colbie Caillat  

 http://www.youtube.com/watch?v=E0oyglKjbFQ&feature=player_embedded


Acho injusta essa ressaca duma vida que não bebi.
- O que deseja?
- Esperança. Em baldes, por favor.
Não é que as coisas estejam irremediáveis nem nada, é quando o amor chega, ele despenteia cada fiozinho do interior da gente. E você acaba ficando tão tolamente esperançoso que, ao querer dividir com o resto, se dá conta da demanda maior que imaginava.
Impus uma dieta rígida ao meu coração cacófago. Disse que ele havia de se desintoxicar. Mas ele não me ouve. Coração que é coração é surdo como uma porta e sofre de alienação seletiva.
Eu estava sentada envolvida num jogo mental de re-batizar pessoas que passavam (sim, eu rebatizo pessoas ao meu bel-prazer) quando, da forma mais imbecil possível, ele me perguntou as horas. Eu não imaginaria clichê maior. Após a minha resposta fria, seguiu-se a falta de assunto que seria a primeira e última entre nós nos próximos meses.
Você lembra do meu último pedido? Aqui, nesse balcão mesmo(?)... Eu lembro. Cheguei dando um bom dia frouxo e pedi ‘O mundo num potinho da nestlé e um amor em saco de pão’. Parece que veio.
Das grandes lições que eu havia aprendido é a de nunca endividar a alma para dar bons sentimentos a ninguém. Esqueça, não é uma lição tão boa assim.
Não dou a qualquer um o direto de fazer parte do meu sorriso, sabe. (?) Mas quando ele chegou contando todas aquelas verdades... Você me conhece, verdades aleatórias sempre me interessam. A gente é o conjunto das histórias que leu, as que viveu e, sobretudo, as que imaginou antes-durante-e-depois de ambas. Por isso mesmo não aceito remendos, não quero pouco, quero em completude: quero tempo pra gastar comigo, quero tempos extras para pensar em mim e nas mais diversas formas de me fazer feliz. Eu quero se for homem com sensibilidade e colhões suficiente pra querer.
E ele parecia o tipo de cara que precisa de resgate. Que posso fazer? Sou mole pressas coisas. Não que fosse indefeso, pelo contrário, ele tinha aquela combinação que venho discutindo contigo por anos: olhar firme, mãos firmes, um certo desprezo, sorriso sacana... Sempre achei que essa fosse a fórmula.
Ensaio uma série de indiferenças que nunca represento. Foi assim, tem sido assim com ele. Em se tratando de confusão psicológica eu sou fluente, mas na sentimental eu sou nativa... Você bem está cansado de saber... Eu que não sei. Não sei o que tem dado em mim. Penso que amor é quando a pessoa te aquece de dentro pra fora; uma espécie de enlace térmico entre almas que tremem.
Ontem minha mãe me disse que tenho sorrido diferente. Será?
Havia uma inutilidade pro meu sorriso até que encontrou o dele. E nos nossos sorrisos se sorrindo, cada músculo moveu-se em paz. Mas eu não o quero para minha paz, eu o quero pro alvoroço que há de dar sentido a todas as pequenas coisas que a calma ignora.
E daí que a gente não é igual? Não sou do tipo que beija espelho. Quando nossas bocas se encontraram, um mundo Yin Yang até então oculto, aparece pronto a ser explorado.
Eu sou machista. Quero que pague a conta, discorde de mim, censure meu vestido curto e me cale com um beijo de macho quando eu estiver certa.
Eu preciso de mãos medindo a minha cintura pra que eu fique satisfeita com todas as medidas. Do olhar dele vadiando dos meus pés à cabeça, do cheiro dele ocupando o espaço do meu cheiro, e aquela boca travessa testando as mais ínfimas nuances do meu paladar, enquanto os ouvidos atentos decifram meus sussurros e as mãos possessivas já me encobrem.
Você tem razão, não é assim tão fácil. Mas se eu não acreditar em finais felizes, eu não tenho mais nada.
O que eu faço agora que o perfume que ponho cuidadosamente no meu pescoço espera o comentário dele (?)  Agora que o meu batom doce, espera a aprovação de sabor...
Estou em ruínas, meu caro amigo. Em ruínas. E eu sabia das contra-indicações dessa droga de amor.

6 de julho de 2011

Encontro

Postado por Keu Azevedo em 6.7.11 3 comentários

Texto para ser lido ao som de 'Cupido' da Maria Rita.

Às vezes penso que o amor é um suéter clichê tricotado a quatro mãos. Mas sempre tive problemas com essa coisa de pertencimento, isso de mais alguém em mim, essa afronta gostosa que ofusca o senso do ridículo.
Acontece que não sei sentir arrumadinho e peco em burocratizar quereres. Às vezes me falta gana... E sobra tino. Por isso não tenho pique para mil amores. Entrega de verdade é como vinho.
Triste que a magia das coisas e a fé boba nem sempre crescem junto conosco. São como calças que vão encurtando... Até que a gente se desfaz.
Confesso que andei considerando a apostasia amorosa, mas não é pra mim.
Ainda quero tuas mãos medindo a minha cintura, teu olhar violando o meu decote... E minha língua cobertor pra tua orelha fria.
Ainda quero você debruçando os olhos em mim no equilíbrio perfeito de desejo e doçura, ainda preciso do teu abraço-encontro, doado.
A gente se viu. E em casa, me olhando no espelho, despontou um sorriso bobo. Percebi que era teu... E que já tem demais de você em mim. Porque a gente se desdobra na gente. E paira aquela sensação boa de sentimentos se cumprimentando.
Com a gente é sempre assim: a princípio olhares que se perguntam, em seguida, línguas que se respondem.
O batom que eu ponho é só pra adornar a cesta de beijos que te guardo; pra que logo vivamos todas as boas e gastas metáforas sobre plantar e colher. De tanto te ter, poderia ser guiada pelo som macio da tua respiração no escuro. Sei que sou tua da mesma forma... Assustador, não? Às vezes é medo de amar, às vezes é só retardo sentimental.
E soa tão brega essa coisa de encontro, de amado... É o que dizem, mas sinceramente não me importo. Visto a minha breguice sem pudor. Assim como te quero sem precedentes. Afinal, não são os apaixonados um bando de crianças travessas que querem lançar dardos de felicidade no resto do mundo?
Cansei de afeição sob medida, você precisa saber que venha quando vier, terei o sorriso certo, o abraço ditoso e o beijo intato separados pra ti.
Estive com o coração leve, moço. E não sabia dizer se era leveza de pureza ou vazio. Já pensou se não for a gente que sente demais e sim o mundo que precisa esticar as pernas dormentes pra sentir como nós? Pois.
Romantismo é a parte em carne viva da gente que brota de dentro pra fora. E ainda é a mais bonita. Manter a alma leve desdolorisa a vida. E não é nada senão o amor, capaz de inflá-la.
Já chorei densos rios, mas já sorri sóis e verões inteiros. E agora, quero fazer ambos ao teu lado. 

"Eu vi quando você me viu
Seus olhos pousaram nos meus
Num arrepio sutil
Eu vi... pois é, eu reparei
Você me tirou pra dançar
Sem nunca sair do lugar
Sem botar os pés no chão
Sem música pra acompanhar
(...)
Você me tirou todo o ar
Pra que eu pudesse respirar
Eu sei que ninguém percebeu
Foi só você e eu...
Foi só por um segundo
Todo o tempo do mundo
E o mundo todo se perdeu
Ficou só você eu eu"
[Cupido - Maria Rita]
 

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