Subiu as escadas, e quando fechou a porta do quarto atrás de si, deixou-se cair lentamente na cama.
Não havia sequer menção de força.
Tentava não pensar, mas cenas teimavam em apropriar-se dela. Gemeu. Sentia um enjôo rotativo com aquela edição; via momentos em que ela e Marcelo planejavam uma série de fantasias... Mais tênues as dele, mais disparatas as dela. Fantasias. Essas cenas eram revestidas agora com a camada branca da desesperança, misturavam-se àquele olhar que trocara com ele no momento da descoberta. Aquele olhar afiado. Aquele olhar denso.
Tinha começado a se despir para o banho quando ouviu batidas na porta. Era Fábio, ainda não tinha ido embora.
Pôs uma camiseta qualquer e abriu a porta. Ele tinha os olhos tensos, como se lutasse contra duas vontades. Partir ou ficar.
Antes que ela pudesse dizer algo, ele meio curvado, começou a falar enquanto entrava. Desculpava-se por ser inconveniente, mas estava preocupado com ela, com essa falta de palavras... Havia tentando deixar de lado, não queria ser invasivo... Mas se ela se abrisse ele poderia ajudá-la a lidar com a mãe. Era sabido que Ana reagiria efusivamente àquilo tudo.
Talvez porque estivesse desapontada ou cansada demais pra reagir, talvez porque fora sempre muito só e agora depois de experimentar a não-solidão-do-amor e logo após conhecer a escura-solidão-da-traição não tinha mais tino para manter-se impenetrável.
Sentaram-se na cama e ela começou a contar-lhe com tamanha amargura, que sua história parecia pertencer à outra pessoa. Alguém que tivesse experimentado anos de abandono.
Fábio ouvia concentrado e mantinha aquelas mãos frias entre as suas.
Ela falava e sacudia a cabeça. Os seus cabelos iam deslizando defensores, querendo encobrir os olhos que começavam a umedecer.
Fábio mantinha uma expressão compadecida. Seus olhos não se desviavam um só instante daquela Thaís que desabafava.
Quando não mais cabia água nos olhos, eles transbordaram. Thais chorou.
E depois, quando reviveu contra a vontade aquela experiência em seus pensamentos, Thaís lembrara que os piores momentos de sua vida haviam começado quando um homem enxugara-lhe as lágrimas.
Fábio inclinou-se e com mãos firmes limpou-lhe apequena torrente que por ali escoava. Mas não se afastou de imediato. Olhou-a. Olhou-a de perto. Com uma de suas mãos, cobriu-lhe todo um lado da face e sem mais aviso... Beijou-a. Thaís a princípio não reagiu, mas assim que sentiu roçar-lhe os lábios, uma corrente elétrica percorreu todo seu corpo. Não era desejo, era medo.
Afastou-se bruscamente e não disse nada, incrédula. Ele sustentava-lhe o olhar, ainda atencioso, ainda firme. Mas alguma coisa lhe tomara de súbito: parecia resoluto. Aproximou-se dela e tocou-a nos ombros, um toque cuidadoso e consciente: ela afastou-se e olhou-o como quem pede respostas para o enigma da vida. Não entendia.
Quando ele falou, sua voz era tão mansa que embalaria o sono da mais histérica criança. Disse que não tivesse medo, que ele apenas queria ajudá-la, como sempre o tinha feito. Ela levantou-se, havia alguma coisa de sinistro naquela situação. Disse que ficasse longe dela, que não precisava de ajuda e pediu que saísse. Ele riu seu riso mais cordial e disse que não havia motivos para alarde. Explicou que ela era linda, inteligente e que não merecia alguém que não lhe desse o valor devido. Mas que ele sim, ELE era exatamente o que ela precisava. Thais percebeu que seu queixo tremia e em poucos segundos ensaiou uma corrida até a porta do quarto. Ele foi mais rápido, antecipou-se, bloqueou-a.
Estava instalado o pânico. Estava materializado o pavor: ele tinha a face de um homem, ele tinha as mãos de um urso, ele tinha a ferocidade de um animal.
Não foi difícil dominá-la. Segurando-a pela nuca, com um só golpe atirou-a na cama. Thaís dava gritos que ardiam e em pouco tempo, exasperada, sentia o roçar da barba dele pelo seu pescoço, o peso do seu corpo imobilizando-a enquanto com uma das mãos rasgava-lhe a camiseta ou acariciava seus quadris e coxas.
Fábio parecia concentrado e dizia ao seu ouvido que ‘não faria nada que ela e seu namorado já não tivessem feito’. Thaís soluçava e implorava, jurava não contar nada desde que ele desistisse. Como isso não adiantasse, lutava com pontapés no ar e pulsos apertados.
Ele beijava-a, arrumava-lhe os cabelos já suados e curtia em silêncio o som daquele desespero, o prazer de despi-la... Respirava quente e ela sentia o cheiro putrefato da violação, do irreparável.
Nada o fazia parar e mesmo quando ela berrou de sua virgindade, tudo que conseguiu foi que ele se detivesse por um mísero instante e em seguida arrematasse: ‘melhor assim, saberei te tratar como alguém que te ama, saberei ser o homem que você precisa, seu primeiro, seu único... Estaremos ligados eternamente. ’
Vencida.
Ela mordeu os próprios lábios em choramingos. O sangue que ali brotou, ele lambeu. E ela entregou-se como carne entregue aos vermes. Cadáver.
***

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