29 de janeiro de 2011

Por remendos

Postado por Keu Azevedo em 29.1.11 6 comentários

Ele que ama.
Essa seria a sua mais exata definição. E que ama de rasgar-se em versos, comprimir-se em insegurança, devanear à meia voz as discrepâncias dessa alma amante.
Ele romanesco.
Nascido de alguma ode pra pernoitar nesse mundo: alteando sua espada, combatendo os dragões de fumaça que moram dentro dele... De garbo e quixotez, um embrulho delicado pra guardar um coração mais frágil ainda.
Ele aquiescência.
Aquele que quer salvar o mundo, mas ainda não aprendeu a preservar a própria (in)sanidade. De pó que é sopro, que se perde e parte com suas feridas à procura de onde descansar as asas.
Ele em termos.
Dedilhado em sangue, fundido à beijo-e-flor, desenho no chão em giz:  a travessura gostosa do menino que trepa e rouba o fruto, a inocência no canto erguido dos lábios, a vida vivida em tom de aurora.
Ele demasiado.
A bossa do homem, a curvatura fantasiosa do homem, os sentimentos do homem, as cicatrizes do homem. E tudo desemboca nesse ele que hora se esconde, hora exacerba, enquanto segue pisando descalço esse caminho custoso que a gente ruma.
Ele em ruído e anseio, a beleza em retalhos que o acaso uniu pra poesificar e aquecer a gente que te cuida.

*Texto dedicado ao querido amigo e poeta @NandoLago. 
Para ser lido ao som de "Strawberry Swing" do Coldplay .

19 de janeiro de 2011

Foto-mensagem

Postado por Keu Azevedo em 19.1.11 7 comentários

A gente nunca tem o que quer: coração com alzheimer, cabeça com botãozinho de descarga...
Então resolvi escrever pra você, passar a limpo os blocos de nota não ditos.
E dizer que te quis, mentindo o tempo verbal. Que te odeio, usando o antônimo da verdade. Que te preciso, revelando minha fraqueza.
Desculpa essa minha superfície irregular... Mas não é nada que o calor das tuas mãos não aplainem.
Eu já me penalizei demais, um pouco de estrago é questão de honra.
 
Preciso de você que me embriaga e me faz ver a vida a dois. Ter-te meu: fórmula de alta complexidade, mas de inquestionável eficácia para a concepção de dias felizes.
Porque antes de você era água. E você  -  “idiota! Idiota!” eu repito enquanto constato – deu consistência à minha vida inodora, insalubre. Teu toque de Midas transformando em valioso, tuas voz rouca despertando o inanimado.
Mas a sorte prostituta vendeu-se por um baixo preço.
A vida é uma teia abstrata que o tempo vai tecendo com suas negras patas. E só a tua impresença preencheu meus braços estendidos.
Ando sonolenta e tudo me distrai, fico conversando mentalmente comigo, faço caras e bocas pra estranhos. Porque há em mim uma lacuna que só aceita a tua resposta.
E hoje eu queria ouvir as mesmas músicas contigo: 2, 3, 4... Infinitas vezes um replay. E no fim, no chão, distender-te com meu riso, contrair-te com meus beijos. Hálitos cruzados. Rijos e relaxados, a mistura de nós dois.
Então não admire se eu enlouquecer e te disser "vem". Você pode largar tudo, pode deixar tudo e vir de novo. E eu vou abrigar-te dentro de mim, no espaço que te convir.
Decifra-me, mas paliativamente... Gastemos tempo: você a me ler e eu a alterar informações. E recomecemos a trilha: teus lábios gotejando promessas no meu ouvido, arranhando os poros do meu pescoço e... Finalmente encobrindo os meus.
E quando a gente estiver longe, longe dessa promessa imprecisa de ‘pra sempre’, seremos homologados pela instância de mais alta sandice: o amor agridoce das tardes de chuva, do futebol na TV, das compras intermináveis, da tua toalha molhada na cama, da minha calcinha pendurada no Box;  de você segurando minha bolsa todo desconfortável, dos meus sms fora de hora... E de a gente revezando quem vai acordar primeiro pra velar e admirar apaixonado o sono do outro.
E eu vou fotografar você...   - aquela mania minha de foto – mas fotografar de dentro pra fora. E ver que não é uma foto sua, é nossa. Eu estou lá dentro.
 

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