Estou escrevendo como quem sangra. Vermelho.
Querendo que eu olhe, eu não olho. Principalmente em salas com luzes que amarelam até o meu ex-papel guardado.

Eu tenho um coração ignorante, inocente...
Que faz uma questão danada de desconhecer de muito que há no mundo.
Que se desmancha, se espalha, e se joga no colo das pessoas a esperar qualquer coisa... Que às vezes vem, às vezes não.
Tenho coração que tão pouco se retrai, que não recolhe a mão que estendeu... Por mais que doa mantê-la.
Que não pensa nas conseqüências e vive se lançando sem nunca estar fracionado... Meu coração é sempre um inteiro.
Coração bobo.
Um coração jovial pra aceitar, caduco demais pra resistir.
Nunca tinha parado pra pensar no meu coração e no porquê dessa fragilidade chorosa e derretida que ele tem.
Mas o fato de que só tomei conhecimento agora, é de meu coração assim: uma choupaninha velha no alto de uma serra... Que você pode ter sempre lá, puída e acolhedora. De uma vez, de um para sempre...
Coração que se abre lentamente, mas uma vez aberto, impossível de retroceder. É como implorar a uma rosa formosa que volte a ser botão.
Ai, coração...Toma jeito!
Larga mão de tanta meninice! Mas não cresça... Não cresça nunca.
Fica eternamente o menino que quando cansado demais, se enrosca em qualquer cantinho pra cochilar. E ao farejar os cheiros mais traquinos logo se põe de pé, pronto a recomeçar toda estripulia...
Que em seu cerne é um coração molenga e predisposto... Exatamente o tipo mais perigoso de se ter hoje em dia. Por isso, durante anos quis afunilar sua entrada... Mas algumas pessoas a arrombaram e infringiram descaradamente minhas regras. No fim não foi tão ruim.
Meu coração é um moleque que acelera sem autorização, e quando percebo, já está disparado por uma iniciativa, uma frase, algum sonho, alguns medos... Sempre à frente do meu cérebro, ganha todas as disputas.
Não me envergonho do meu coração que prefere chinelos, que não aspira enormidades, e se contenta com pequenas porções. Um coração grandão e gelatinoso, que se machuca todo, todo dia... Mas ri de seu sorriso sem dentes e no alto de suas bochechas vermelhas começa tudo de novo.
Meu coração espalha em mim pulsação e não raciocínio. Essa é sua função. Descabido seria esperar-lhe algum comedimento. Não pode ser. Coração é substância de irreflexão; um serzinho encharcado e bailador que colocaram dentro da gente pra reprimir a monotonia.
Eu gosto disso.
E sou grata por ele nunca estar desocupado. Nunca.
Guardo uma colônia interessante lá dentro.

Quando o agora metamorfoseia-se em depois, a gente tem muito mais segurança de olhar, muito menos medo de tentar entender o que sentiu.
Entendi muitas coisas que antes não compreendia... Descobri-me mais falível do que pensava e que a minha carapaça pode sim ser corrompida... A minha alma não é de diamante.
E o Destino? O Destino é apenas o plano B do universo.
Entendi que o Respeito e o Zelo são os pés direito e esquerdo do AMOR... Sem eles é impossível caminhar pra onde quer que seja;
Que palavras vazias são as fiéis escudeiras da futilidade, e por isso aprendi a desconfiar dos lábios em que dança muita lisonja.
Experimentando, percebi que para o ansioso que espera, os segundos passam como os passos lentos da cautela; e que, ironicamente, a velocidade que meus passos nunca alcançaram, é vergonhosamente subjugada pela avidez de meus pensamentos. Nem sempre bons.
Compreendi que nem tudo é uma questão de ponto de vista. Principalmente se for para sua vida que estiverem olhando.
Não me surpreendi ao perceber que assim como crianças alimentam-se de fantasia, têm seus lugares mágicos, amigos imaginários... Os Adultos também. Só que eles não sabem.
Entendi que a gente nunca deveria esquecer que pessoas não são bancos nem espelhos em que depositamos tudo que queremos lucrar de volta... Em puro reflexo. E que o grande segredo pra escrever bem sobre o amor é concentrar-se nas mentiras alheias. Os amores inventados são os melhores! Amor é a ficção mais ‘perversa’ e mais gostosa que já existiu.
Constatei que Superação é aquilo que você só consegue quando tem absoluta certeza de que não há mais nenhuma saída; e que se você caminha sempre com os mesmos sapatos, segue pelas mesmas ruas, vira sempre nas mesmas esquinas... Não pode reclamar a falta de mudanças.
As marcas na minha pele me ensinaram que a Tristeza é a máscara mais sacana do diabo... O problema é que a gente a toma emprestado de vez em quando. E por isso, quero somente um coração brando. Do tipo que só se aquece quando maliciosamente provocado.
Aprendi dolorosamente que sou do tipo que tem Saudade. Saudade é a mais infame pieguice que os homens inventaram para não esquecerem uns dos outros. Mas, que aquilo que detenho torna-se fruto de egoísmo... Então forço-me a deixar que o vento leve sem medida... Sacuda, remova... Pra que transfigure-se... Aceitar a liberdade e a ausência, só é possível a quem ama.
Na tabuada que decorei a custo, lia-se que pessoas amargas têm mania de enxergar nanismo nas outras; que ter dedo podre não é sempre escolher o fruto errado é, só por apontar, fazer secar a árvore inteira... E por fim, que eu quero querer a medida menos exata, o querer fosco e paciente que só é possível aos que tem a certeza da conquista.
Não há desmerecimento na falha, há apenas mais humanidade. O perdão que recebo é infinito, mas ainda assim, todos os meus erros devem ser meramente acidentais.
Então, depois de tantas lições, comecei simplesmente a orar por Longanimidade.
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