27 de janeiro de 2010

Momento Topázio

Postado por Keu Azevedo em 27.1.10 5 comentários


Estou escrevendo como quem sangra. Vermelho.
Palavras jorram através da caneta e tingem languidamente esse papel comum.
Tão comum...
Do meu bolso.
Papel que é receptáculo de meus pensamentos e meus olhos.
Mas meus pensamentos são borrões escuros, escrever é dispô-los. Cada um enxerga a figura que quer.
Borro papel numa sala clara, e movimentada sem luxo.
Um homem come, uma senhora me olha e crianças mal-educadas sambam pra lá e pra cá.
A TV mostra gente bonita e eu não olho pra TV. (As pessoas tão bonitas ficam cinzas. Não gosto de cinza assim como não gosto de chuchu).
Olho pro papel que morava no meu bolso, agora borrado com minha caligrafia de professora. Nem boa nem ruim, de professora.
Ao fundo tilintar de pratos e copos, cadeiras arrastadas sem pudor e uma música brego-regional. Não gosto também.
Música e gente parada é uma combinação chata. Música e gente conversando em salas com homem comendo e senhora encarando, também é chato.
No início a música me irritava. Agora como sempre, adaptei-me. Convivo com ela, com a música. Eu sempre convivo com as coisas.
E agora até convivo com pessoas e crianças numa sala.
Seria hora do jantar. Não vou jantar. Estou nessa sala de luzes amareladas sujando um papel.
Hoje eu vi o pôr-do-sol (antes dessa sala). Inacreditável é saber que ainda existem coisas lá fora. Essa sala cor de gema é esperta, engana a gente.
Era tudo laranja no pôr-do-sol. Tudo laranja-tecido lá fora.
Engraçado como o laranja antes e depois dessa sala é diferente.
Era uma despedida grandona do Sol. Mas essa sala é pequena. E ninguém vai embora.
A sala é de um amarelo que nem pisca.
O homem não está mais comendo... Mas tem uma cara tarada de quem está louco para lamber os dedos.
A senhora não está mais interessada em mim. Ela pinta o cabelo. Bom, não é por isso que ela não está mais interessada em mim. Ela está narrando alguma coisa que nem me interessa. Narra sem tirar os olhos da TV.
Eu nem vou retribuir o antigo olhar dela. Não assinei promissória de olhar pra quem me olha, só se for de desvio, por acaso. 
Querendo que eu olhe, eu não olho. Principalmente em salas com luzes que amarelam até o meu ex-papel guardado.
Ela não narra pra mim. Estou cansada de crônicas e de salas tendenciosamente feitas para o doutor visão amarela.
Estou engabelando o tempo melando papel.
As crianças não calam a boca. E correm. Não gosto mais de crianças. Essas da sala amarela principalmente. Não gosto de crianças que falam e que correm.
Acho que não gosto de crianças quando amarelas assim. Deve ser a luz da sala.
Eu gostaria de um jantar. Mas não gostaria de comer nessa sala de TV, senhora, homem e crianças.
Deve ser por causa do tilintar que não se permite interromper... Ao fundo.
Ou porque, mesmo desvirtuando o papel, eu saiba da hora. Das horas. E de que essa seria a do jantar.
Tenho caneta e também o Vento aqui. (vento todo saliente pro meu papel borrado e ex-dobrado que se abrigava no meu bolso).
O Vento parece macio na sala. O vento não amarela por causa dela.
Ninguém liga pro vento, e é vento de verdade, da rua.
Vento que também deve ter visto o pôr-do-sol de hoje. Antes de vir pra essa sala.
Eu vim parar numa sala de parede branca chapiscada. E tão amarela...
Com crianças e adultos que nem se importam com o vento. Só se importam com a TV. Nem devem enxergar amarelo (a menos que eu mostrasse os borrões que estou fazendo no papel).
Até o homem comilão e frustrado lambedor de dedos parece se importar com a senhora narradora.
(devo estar como que amarelo-enciumada das relações nessa sala)
E o Vento desprezado, coitado.
Deve ter sido ele que amarelou a sala. Amarelou de vingança.
Será que o papel marcado pelas dobraduras, que tirei do meu bolso e borrei todinho com a caneta, ficará raivoso e amarelado depois de borrado por completo?
Não sei.
Mas ele acabou agora. Minha caneta está fazendo cócegas na sua bordinha sem linhas.
E agora?
Será que se eu falar mais que as crianças, e pedir pra senhora que me olhava, ela começa a narrar tudo de novo?

14 de janeiro de 2010

Coracionalizando

Postado por Keu Azevedo em 14.1.10 4 comentários

Eu tenho um coração ignorante, inocente...

Que faz uma questão danada de desconhecer de muito que há no mundo.

Que se desmancha, se espalha, e se joga no colo das pessoas a esperar qualquer coisa... Que às vezes vem, às vezes não.

Tenho coração que tão pouco se retrai, que não recolhe a mão que estendeu... Por mais que doa mantê-la.

Que não pensa nas conseqüências e vive se lançando sem nunca estar fracionado... Meu coração é sempre um inteiro.

Coração bobo.

Um coração jovial pra aceitar, caduco demais pra resistir.

Nunca tinha parado pra pensar no meu coração e no porquê dessa fragilidade chorosa e derretida que ele tem.

Mas o fato de que só tomei conhecimento agora, é de meu coração assim: uma choupaninha velha no alto de uma serra... Que você pode ter sempre lá, puída e acolhedora. De uma vez, de um para sempre...

Coração que se abre lentamente, mas uma vez aberto, impossível de retroceder. É como implorar a uma rosa formosa que volte a ser botão.

Ai, coração...Toma jeito!

Larga mão de tanta meninice! Mas não cresça... Não cresça nunca.

Fica eternamente o menino que quando cansado demais, se enrosca em qualquer cantinho pra cochilar. E ao farejar os cheiros mais traquinos logo se põe de pé, pronto a recomeçar toda estripulia...

Que em seu cerne é um coração molenga e predisposto... Exatamente o tipo mais perigoso de se ter hoje em dia. Por isso, durante anos quis afunilar sua entrada... Mas algumas pessoas a arrombaram e infringiram descaradamente minhas regras. No fim não foi tão ruim.

Meu coração é um moleque que acelera sem autorização, e quando percebo, já está disparado por uma iniciativa, uma frase, algum sonho, alguns medos... Sempre à frente do meu cérebro, ganha todas as disputas.

Não me envergonho do meu coração que prefere chinelos, que não aspira enormidades, e se contenta com pequenas porções. Um coração grandão e gelatinoso, que se machuca todo, todo dia... Mas ri de seu sorriso sem dentes e no alto de suas bochechas vermelhas começa tudo de novo.

Meu coração espalha em mim pulsação e não raciocínio. Essa é sua função. Descabido seria esperar-lhe algum comedimento. Não pode ser. Coração é substância de irreflexão; um serzinho encharcado e bailador que colocaram dentro da gente pra reprimir a monotonia.

Eu gosto disso.

E sou grata por ele nunca estar desocupado. Nunca.

Guardo uma colônia interessante lá dentro.

8 de janeiro de 2010

Balanço

Postado por Keu Azevedo em 8.1.10 3 comentários

Quando o agora metamorfoseia-se em depois, a gente tem muito mais segurança de olhar, muito menos medo de tentar entender o que sentiu.

Entendi muitas coisas que antes não compreendia... Descobri-me mais falível do que pensava e que a minha carapaça pode sim ser corrompida... A minha alma não é de diamante.

E o Destino? O Destino é apenas o plano B do universo.

Entendi que o Respeito e o Zelo são os pés direito e esquerdo do AMOR... Sem eles é impossível caminhar pra onde quer que seja;

Que palavras vazias são as fiéis escudeiras da futilidade, e por isso aprendi a desconfiar dos lábios em que dança muita lisonja.

Experimentando, percebi que para o ansioso que espera, os segundos passam como os passos lentos da cautela; e que, ironicamente, a velocidade que meus passos nunca alcançaram, é vergonhosamente subjugada pela avidez de meus pensamentos. Nem sempre bons.

Compreendi que nem tudo é uma questão de ponto de vista. Principalmente se for para sua vida que estiverem olhando.

Não me surpreendi ao perceber que assim como crianças alimentam-se de fantasia, têm seus lugares mágicos, amigos imaginários... Os Adultos também. Só que eles não sabem.

Entendi que a gente nunca deveria esquecer que pessoas não são bancos nem espelhos em que depositamos tudo que queremos lucrar de volta... Em puro reflexo. E que o grande segredo pra escrever bem sobre o amor é concentrar-se nas mentiras alheias. Os amores inventados são os melhores! Amor é a ficção mais ‘perversa’ e mais gostosa que já existiu.

Constatei que Superação é aquilo que você só consegue quando tem absoluta certeza de que não há mais nenhuma saída; e que se você caminha sempre com os mesmos sapatos, segue pelas mesmas ruas, vira sempre nas mesmas esquinas... Não pode reclamar a falta de mudanças.

As marcas na minha pele me ensinaram que a Tristeza é a máscara mais sacana do diabo... O problema é que a gente a toma emprestado de vez em quando. E por isso, quero somente um coração brando. Do tipo que só se aquece quando maliciosamente provocado.

Aprendi dolorosamente que sou do tipo que tem Saudade. Saudade é a mais infame pieguice que os homens inventaram para não esquecerem uns dos outros. Mas, que aquilo que detenho torna-se fruto de egoísmo... Então forço-me a deixar que o vento leve sem medida... Sacuda, remova... Pra que transfigure-se... Aceitar a liberdade e a ausência, só é possível a quem ama.

Na tabuada que decorei a custo, lia-se que pessoas amargas têm mania de enxergar nanismo nas outras; que ter dedo podre não é sempre escolher o fruto errado é, só por apontar, fazer secar a árvore inteira... E por fim, que eu quero querer a medida menos exata, o querer fosco e paciente que só é possível aos que tem a certeza da conquista.

Não há desmerecimento na falha, há apenas mais humanidade. O perdão que recebo é infinito, mas ainda assim, todos os meus erros devem ser meramente acidentais.

Então, depois de tantas lições, comecei simplesmente a orar por Longanimidade.

 

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