Ele vestiu-se devagar, ela apenas virou-se. Deitada, machucada e muda, respirava nua, protegendo-se com as mãos. Parada. Perdida.
Ele contemplou-a como quem contempla uma obra de arte raríssima. Só que aquela... Aquela havia brotado um pouco de si. Sentiu-se pai e amante e abotoou a camisa com um orgulho doentiu.
Com umas das mãos apoiada na cama, inclinou-se sobre ela e sussurrou-lhe palavras de afeto, falou em amor.
Com umas das mãos apoiada na cama, inclinou-se sobre ela e sussurrou-lhe palavras de afeto, falou em amor.
Não se desculpara porque para ele não havia culpa. Disse-lhe que o destino, o universo talvez, os havia unido e que ninguém melhor que ele saberia fazer as mulheres daquela casa felizes como merecem. Que era normal. Disse que ela havia sido maravilhosa, que agora também era uma mulher, que agora também teriam muitos momentos e confidências juntos, como um casal, que fariam amor... Que ela aprenderia, que ele seria um excelente professor e que, nas próximas vezes, ela haveria de sentir o mesmo que ele sentia: a união de duas almas que estavam destinadas a compartilhar o mundo inteiro, a dois. Tocou-a de leve para que ela lhe virasse o rosto, e como fez em tantas outras vezes antes daquele dia, beijou-a na testa. E partiu.
***
Ela adormeceu... Entorpecida. Acordou com o telefone tocando. Não tomava ciência de nada. Deixou-o ecoar naquele vazio... Não o da casa, o de dentro de si.
Não tinha certeza se conseguiria se mexer. Mas o telefone insistia como um chamado à vida, um sino que a arrancava da terra indolor em que estava para depositá-la no mundo real. No mundo em que as pessoas eram vis, num mundo em que ela só despertaria pra querer morrer.
Sentou-se ainda despida... Podia ouvir que era a terceira chamada, sua mãe insistia do outro lado da linha. Olhou ao redor, o caos da cama desfeita... Dessa vez, por ela.
Todo seu corpo estava criptografado com a moléstia da noite anterior.
Sentiu nojo. Ergueu-se. E como o telefone ainda tocasse, entendeu que precisava tomar uma decisão. Ajoelhou-se, pegou o seu diário embaixo da cama, dentro do baú antigo... Colocou-o sobre as pernas e com a frieza de um assassino arrancou e rasgou cada página. Nada de choro. Nada. Só aquele amontoado de papel espalhando-se pelo quarto já tomado pela luz do dia.
Precisava decidir.
Queria tomar um banho, deixar que a água levasse tudo consigo... Poderia até levá-la, não se importaria. Mas, antes precisava fazer algumas coisas: lavou o rosto, vestiu-se lentamente... Um jeans, uma blusa que não condizia com a temperatura, seu tênis de sempre, o cabelo mal-preso de sempre.
Arrumou o quarto.
Desceu as escadas. Já passava das duas da tarde. Tomou uma água. Ligou para a mãe. Mentiu. Omitiu. Mentiu ainda mais. Sua mãe só chegaria dali há algumas horas...
Abriu a porta querendo transportar-se pro ermo.
Não pensou mais: correu. Correu com toda força restante naquele corpo já débil. Correu em direção ao parque. Correu com as pernas doloridas e o os pulmões no limite.
Lembrou-se de Marcelo, dos encontros, das aulas... Lembrou-se da tarde, da praia, dos beijos dele...Lembrou-se dos toques violentos e sôfregos de Fábio, lembrou-se da dor que sentiu enquanto ele gemia um prazer obsceno e a encarava de cima...
Tudo era corrida, tudo era o vento quente que vinha em direção oposta ao seu rosto suado. Tudo era finito e assustador.
Sentou-se num dos bancos. Recompôs-se como podia e decretou: é o meu tempo. Um último tempo pra mim. E saindo daqui nada mais restará, nada mais importará. É o tempo que me resta.
Pôs a testa sobre os joelhos e despejou ali, até o fim daquela tarde, toda a inocência e os sonhos que já tivera. Pra nunca mais voltar.

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