30 de junho de 2010

Tentativa

Postado por Keu Azevedo em 30.6.10 5 comentários
Eu tricotei meu mundo. 
Como velha ranzinza sentei e decidi as cores, o formato, o tempo, a textura, o volume...
Decidi como queria: do meu jeito, meu nicho. 
Entreguei-me dias e dias à tentativa mais obstinada de controlar, prover, delinear...
E quando tudo finalmente ficou pronto... Apareceu você. 
Em poucos segundos percebi a inutilidade da minha obra.
Fio a fio você me desfez. Inteira. 
Porque o mundo perfeito não é nada sem alguém que te desestruture.

29 de junho de 2010

Diálogos profusos 2

Postado por Keu Azevedo em 29.6.10 2 comentários

Ele: – Quando eu era pequeno eu tinha um carrinho vermelho.
Ela: - Eu adorava carrinhos, mas meu pai dizia que era coisa de menino.
Ele: - Eu adorava meu carrinho vermelho.
Ela: - Eu nunca pude ter um carrinho...
Ele: - Eu passava horas brincando só com ele...
Ela: - Eu via os meninos da rua e morria de inveja deles e de seus carrinhos.
Ele: - Eu tinha outros carrinhos, mas o vermelho era o meu preferido.
Ela: - Meu sonho era ter um, mesmo que fosse pequeno.
Ele: - Um dia a gente se mudou, perdi meu carrinho.
Ela: - Uma vez eu roubei um carrinho de meu primo, fiquei escondida no quintal da minha tia, brincando com ele... O carrinho, não meu primo.
Ele: - Eu nunca tive outro carrinho igual. Depois dele eu não tive mais carrinho nenhum.
Ela: - [...]
Ele: - [...]
Ele: - Um carrinho me ensinou o que é a perda.
Ela: - Um carrinho me ensinou o que é ausência.
Ele: - Deixar de ter, dói.
Ela: - Nunca ter tido dói mais ainda.
Ele: - Acho que precisamos de carrinhos.
Ela: - Acho que precisamos de amor.

28 de junho de 2010

Diálogos profusos

Postado por Keu Azevedo em 28.6.10 2 comentários

 – Eu tenho tanto medo...
- Eu também tenho.
- O que a gente faz hein?
- Se desmedaliza.
- Como se faz isso?
- A gente finge que pode, que é esperto, que vai conseguir, que não existe o ridículo, que a derrota não abate, que a dificuldade não paralisa, que as opiniões alheias não deprimem, e que o próprio medo não assusta.
- Hummm, e como se faz isso?
- Não sei.
- É, medo é para os trouxas.

27 de junho de 2010

É porque senti - Final (parte II)

Postado por Keu Azevedo em 27.6.10 0 comentários

Ele vestiu-se devagar, ela apenas virou-se. Deitada, machucada e muda, respirava nua, protegendo-se com as mãos. Parada. Perdida.
Ele contemplou-a como quem contempla uma obra de arte raríssima. Só que aquela... Aquela havia brotado um pouco de si. Sentiu-se pai e amante e abotoou a camisa com um orgulho doentiu.
Com umas das mãos apoiada na cama, inclinou-se sobre ela e sussurrou-lhe palavras de afeto, falou em amor.
Não se desculpara porque para ele não havia culpa. Disse-lhe que o destino, o universo talvez, os havia unido e que ninguém melhor que ele saberia fazer as mulheres daquela casa felizes como merecem. Que era normal. Disse que ela havia sido maravilhosa, que agora também era uma mulher, que agora também teriam muitos momentos e confidências juntos, como um casal, que fariam amor... Que ela aprenderia, que ele seria um excelente professor e que, nas próximas vezes, ela haveria de sentir o mesmo que ele sentia: a união de duas almas que estavam destinadas a compartilhar o mundo inteiro, a dois. Tocou-a de leve para que ela lhe virasse o rosto, e como fez em tantas outras vezes antes daquele dia, beijou-a na testa. E partiu.
***
Ela adormeceu... Entorpecida. Acordou com o telefone tocando. Não tomava ciência de nada. Deixou-o ecoar naquele vazio... Não o da casa, o de dentro de si.
Não tinha certeza se conseguiria se mexer. Mas o telefone insistia como um chamado à vida, um sino que a arrancava da terra indolor em que estava para depositá-la no mundo real. No mundo em que as pessoas eram vis, num mundo em que ela só despertaria pra querer morrer.
Sentou-se ainda despida... Podia ouvir que era a terceira chamada, sua mãe insistia do outro lado da linha. Olhou ao redor, o caos da cama desfeita... Dessa vez, por ela.
Todo seu corpo estava criptografado com a moléstia da noite anterior.
Sentiu nojo. Ergueu-se. E como o telefone ainda tocasse, entendeu que precisava tomar uma decisão. Ajoelhou-se, pegou o seu diário embaixo da cama, dentro do baú antigo... Colocou-o sobre as pernas e com a frieza de um assassino arrancou e rasgou cada página. Nada de choro. Nada. Só aquele amontoado de papel espalhando-se pelo quarto já tomado pela luz do dia.
Precisava decidir.
Queria tomar um banho, deixar que a água levasse tudo consigo... Poderia até levá-la, não se importaria. Mas, antes precisava fazer algumas coisas: lavou o rosto, vestiu-se lentamente... Um jeans, uma blusa que não condizia com a temperatura, seu tênis de sempre, o cabelo mal-preso de sempre.
Arrumou o quarto.
Desceu as escadas. Já passava das duas da tarde. Tomou uma água. Ligou para a mãe. Mentiu. Omitiu. Mentiu ainda mais. Sua mãe só chegaria dali há algumas horas...
Abriu a porta querendo transportar-se pro ermo.
Não pensou mais: correu. Correu com toda força restante naquele corpo já débil. Correu em direção ao parque. Correu com as pernas doloridas e o os pulmões no limite.
Lembrou-se de Marcelo, dos encontros, das aulas... Lembrou-se da tarde, da praia, dos beijos dele...Lembrou-se dos toques violentos e sôfregos de Fábio, lembrou-se da dor que sentiu enquanto ele gemia um prazer obsceno e a encarava de cima...
Tudo era corrida, tudo era o vento quente que vinha em direção oposta ao seu rosto suado. Tudo era finito e assustador.
Sentou-se num dos bancos. Recompôs-se como podia e decretou: é o meu tempo. Um último tempo pra mim. E saindo daqui nada mais restará, nada mais importará. É o tempo que me resta.
Pôs a testa sobre os joelhos e despejou ali, até o fim daquela tarde, toda a inocência e os sonhos que já tivera. Pra nunca mais voltar.

É porque senti - Final (parte I)

Postado por Keu Azevedo em 27.6.10 0 comentários
Subiu as escadas, e quando fechou a porta do quarto atrás de si, deixou-se cair lentamente na cama.
Não havia sequer menção de força.
Tentava não pensar, mas cenas teimavam em apropriar-se dela. Gemeu. Sentia um enjôo rotativo com aquela edição; via momentos em que ela e Marcelo planejavam uma série de fantasias... Mais tênues as dele, mais disparatas as dela. Fantasias. Essas cenas eram revestidas agora com a camada branca da desesperança, misturavam-se àquele olhar que trocara com ele no momento da descoberta. Aquele olhar afiado. Aquele olhar denso.
Tinha começado a se despir para o banho quando ouviu batidas na porta. Era Fábio, ainda não tinha ido embora.
Pôs uma camiseta qualquer e abriu a porta. Ele tinha os olhos tensos, como se lutasse contra duas vontades. Partir ou ficar.
Antes que ela pudesse dizer algo, ele meio curvado, começou a falar enquanto entrava. Desculpava-se por ser inconveniente, mas estava preocupado com ela, com essa falta de palavras... Havia tentando deixar de lado, não queria ser invasivo... Mas se ela se abrisse ele poderia ajudá-la a lidar com a mãe. Era sabido que Ana reagiria efusivamente àquilo tudo.
Talvez porque estivesse desapontada ou cansada demais pra reagir, talvez porque fora sempre muito só e agora depois de experimentar a não-solidão-do-amor e logo após conhecer a escura-solidão-da-traição não tinha mais tino para manter-se impenetrável.
Sentaram-se na cama e ela começou a contar-lhe com tamanha amargura, que sua história parecia pertencer à outra pessoa. Alguém que tivesse experimentado anos de abandono.
Fábio ouvia concentrado e mantinha aquelas mãos frias entre as suas.
Ela falava e sacudia a cabeça. Os seus cabelos iam deslizando defensores, querendo encobrir os olhos que começavam a umedecer.
Fábio mantinha uma expressão compadecida. Seus olhos não se desviavam um só instante daquela Thaís que desabafava.
Quando não mais cabia água nos olhos, eles transbordaram. Thais chorou.
E depois, quando reviveu contra a vontade aquela experiência em seus pensamentos, Thaís lembrara que os piores momentos de sua vida haviam começado quando um homem enxugara-lhe as lágrimas.
Fábio inclinou-se e com mãos firmes limpou-lhe apequena torrente que por ali escoava. Mas não se afastou de imediato. Olhou-a. Olhou-a de perto. Com uma de suas mãos, cobriu-lhe todo um lado da face e sem mais aviso... Beijou-a. Thaís a princípio não reagiu, mas assim que sentiu roçar-lhe os lábios, uma corrente elétrica percorreu todo seu corpo. Não era desejo, era medo.
Afastou-se bruscamente e não disse nada, incrédula. Ele sustentava-lhe o olhar, ainda atencioso, ainda firme. Mas alguma coisa lhe tomara de súbito: parecia resoluto. Aproximou-se dela e tocou-a nos ombros, um toque cuidadoso e consciente: ela afastou-se e olhou-o como quem pede respostas para o enigma da vida. Não entendia.
Quando ele falou, sua voz era tão mansa que embalaria o sono da mais histérica criança. Disse que não tivesse medo, que ele apenas queria ajudá-la, como sempre o tinha feito. Ela levantou-se, havia alguma coisa de sinistro naquela situação. Disse que ficasse longe dela, que não precisava de ajuda e pediu que saísse. Ele riu seu riso mais cordial e disse que não havia motivos para alarde. Explicou que ela era linda, inteligente e que não merecia alguém que não lhe desse o valor devido. Mas que ele sim, ELE era exatamente o que ela precisava. Thais percebeu que seu queixo tremia e em poucos segundos ensaiou uma corrida até a porta do quarto. Ele foi mais rápido, antecipou-se, bloqueou-a.
Estava instalado o pânico. Estava materializado o pavor: ele tinha a face de um homem, ele tinha as mãos de um urso, ele tinha a ferocidade de um animal.
Não foi difícil dominá-la. Segurando-a pela nuca, com um só golpe atirou-a na cama. Thaís dava gritos que ardiam e em pouco tempo, exasperada, sentia o roçar da barba dele pelo seu pescoço, o peso do seu corpo imobilizando-a enquanto com uma das mãos rasgava-lhe a camiseta ou acariciava seus quadris e coxas.
Fábio parecia concentrado e dizia ao seu ouvido que ‘não faria nada que ela e seu namorado já não tivessem feito’. Thaís soluçava e implorava, jurava não contar nada desde que ele desistisse. Como isso não adiantasse, lutava com pontapés no ar e pulsos apertados.
Ele beijava-a, arrumava-lhe os cabelos já suados e curtia em silêncio o som daquele desespero, o prazer de despi-la... Respirava quente e ela sentia o cheiro putrefato da violação, do irreparável.
Nada o fazia parar e mesmo quando ela berrou de sua virgindade, tudo que conseguiu foi que ele se detivesse por um mísero instante e em seguida arrematasse: ‘melhor assim, saberei te tratar como alguém que te ama, saberei ser o homem que você precisa, seu primeiro, seu único... Estaremos ligados eternamente. ’
Vencida.
Ela mordeu os próprios lábios em choramingos. O sangue que ali brotou, ele lambeu. E ela entregou-se como carne entregue aos vermes. Cadáver.
***

25 de junho de 2010

É porque senti - Parte VIII

Postado por Keu Azevedo em 25.6.10 0 comentários

Havia muita coisa para ser dita.
Pouco foi dito.
A briga entre Marcelo e Felipe foi intensa. Os ânimos exaltados. As ressalvas.
Não para Thais. Tudo que ela via era a cama desfeita.
Marcelo a conduziu pelo cotovelo assim que a situação permitiu uma brecha de ar.
Respirava de forma tão aflita e tinha os olhos emocionados. Estava tomado por um véu sinistro de súplica, do tipo que exige derramamento febril de sangue para alcançar o perdão.
Começou a falar de forma soluçada e mais parecia um menino do que um homem culpado. Adicionava ao final de cada período um “eu sinto muito”, mexia nervosamente nos cabelos, apertava os dedos com os dedos; avermelhava-os e não conseguia captar nenhuma expressão no rosto mumificado que Thaís exibia.
Ela não dissera uma palavra. Nada. Olhava-o com o queixo levemente erguido e via-se ao redor dos seus olhos um leve tremor, um espasmo... Era a única coisa que ousava mexer-se enquanto ela o escutava. Impassível.
Ela o ouvia, mas mal decodificava. Havia alguma ponta de metal estilhaçando-a, atravessava a sua garganta e fazia com que um sangue quente e invisível aquecesse seu colo que, por sua vez, não se manifestava. Seu peito não dava sinais de respiração: subia e descia imperceptivelmente como se quisesse acolher com calma aquele sangue de traição que o cobria.
Ele tentara explicar tanto em tão pouco tempo. Havia cometido um erro. Erro bruto, vil. Mas a amava, sim... Agora tinha mais certeza do que já tivera em qualquer momento. Não suportaria a idéia de perdê-la. Contrito, insistia que ela não tomasse nenhuma atitude precipitada... Assim se seguiu, assim foi.
Ela nunca o vira daquele jeito. Ele era sempre tão sereno... Estava perturbado. Comportava-se tão servilmente, tão temeroso, que ela sentiu repulsa.
Falou-lhe apenas que precisava ir para casa. Não queria conversar, não queria ouvir, queria partir e quem sabe, na solidez de sua casa, compreendesse tudo aquilo, juntasse os cacos, sentisse algo além de dor e náusea.
Ele ainda tremia quando disse que pegaria as chaves e partiriam imediatamente. Ela recusou de forma seca. Breve discordância. E ela o deixou falando às poucas luzes que os rodeavam. Só.
Não precisou acalmar-se para o telefonema, falou brevemente com Fábio: pediu que a buscasse, contou meias verdades... Esperou em silêncio ao lado de Mel. Assinara nos dígitos do celular,  a sua última sentença.
****    ****
A viagem de volta foi taciturna. Fábio tentou angariar informações sobre o que havia acontecido... Sem sucesso. Sentada ao seu lado brincava com o cinto de segurança e dava respostas evasivas. Depois de 20 minutos ele desistiu, seguiram num clima de acordo mudo.
Ao chegarem em casa Fábio perguntou-lhe se não tinha a intenção de ligar para a mãe, Thais respondeu que ele não se preocupasse, contaria a verdade sobre o dia com o namorado oculto mas não desconhecido, sobre a viagem e talvez, talvez até contasse para sua mãe os motivos que levaram ao desentendimento e à ligação surpresa, o pedido de resgate.
Fábio assentiu, mas não sem alguma expressão de descontentamento.
Ela disse que queria subir, tomar um banho, ficar só. Agradeceu. Em poucas palavras agradeceu-o encarando-o. Foi como um convite: Fábio estava a menos de dois passos, abraçou-a. Passada a surpresa dos primeiros instantes Thaís refugiou-se naquele abraço como quem intenta proteger-se de um frio inconcebível trajando roupas de banho, de pés descalços. Agarrou-se a Fábio e permitiu-se suspiros profundos. A anestesia estava passando, começava a dar-se conta: havia sucumbido. Estava cheia de chagas... O céu já não lhe pertencia.

5 de junho de 2010

É porque senti - Parte VII

Postado por Keu Azevedo em 5.6.10 1 comentários

Arrumara a mochila tentando enfiar ali o misto de ansiedade e apreensão que sentia. 
Formigavam-lhe os dedos. Queria ir logo, estar logo com Marcelo outra vez, num lugar especial, entre amigos... Dele. 
Havia pensado muito depois de ter aceitado o convite: ele queria assumi-la diante dos seus amigos da faculdade, isso era bom. Como seria recebida? Olhares, muitos olhares. Estava sendo tomada por um pavor... Ser avaliado com olhares incisivos é uma das formas mais cruéis de opressão. 
Era uma casa grande, bonita, arejada, e extremamente desorganizada a que ficariam. Além dela e Marcelo, estariam ali mais três casais.  
A princípio todos falavam muito e ao mesmo tempo, não se importaram com a presença de Thaís, isso a confortou. Havia porém, uma moça loira e esguia que lhe fora apresentada como Karina, - namorada de um dos rapazes da turma de Marcelo, o piadista e gesticulador Felipe – que não baixava a guarda; Karina a olhava como se a despisse e fazia certa questão de usar termos comuns àquele grupo que Thaís desconhecia. 
Passaram o dia inteiro divididos entre alguma bebida e conversas aleatórias, bastante sol, e alguns momentos de privacidade para os casais. Marcelo mantinha-se atencioso, mas não se posicionava quando as coisas tomavam um rumo desconfortável para Thaís. Isso a fez permanecer um tanto retraída. 
Como a tarde declinava Marcelo a convidou para estarem um pouco a sós; foi com certo alívio que se retiraram discretamente para a beira da água. A maré estava baixa e as ondas continuavam vagarosamente naquele ir e vir indeciso... Caminhavam abraçados sem mencionar palavra, foi ele que quebrou o silêncio: 
- Então, pode me crucificar agora... Foi uma péssima idéia. 
- Não foi, não. (mentiu) 
- Ok, pelo menos consegui ouvir a sua voz agora... 
- Falta de assunto, só isso. Eles são todos legais.  
- São.  
Marcelo levantou o rosto e fitou alguma coisa invisível... Respirou fundo e retomou um diálogo agora mais voltado para os dois. Desculpou-se, e delicadamente tentou animá-la. Thaís entrou no jogo, mesmo notando que alguma coisa o perturbava tanto quanto a ela. Dessa vez, foi ela quem falou: 
- O que é essa ruguinha bem aqui? 
- Hummm, nada que um beijo seu não dissipe. 
Beijaram-se, primeiro com o toque sutil de lábios omissos, depois com a verdade e a lembrança do sentimento que tinham um pelo outro. 
O vento brincava com os cabelos dela, a areia saltitava atrás das pegadas dele. Voltaram a sorrir timidamente, naquela união regida pelo trato de almas doces, joviais. 
Voltaram à casa abraçados. Ele respirava aqueles ares como quem retorna ao escritório depois de meses de férias: um tanto ansioso, um tanto preocupado com o que deixara e como estaria. Ela, deixava-se tomar pela segurança que só agora principiava, estaria mais aberta... Tudo aquilo estava prestes a acabar, não custava ser um pouco mais sociável, sim... Ela que se fechara, faria isso por ele.  
Eram quase 19:00h. 
Marcelo beijou-lhe a testa e o rosto e disse que ela ficasse ali com a Mel, não demoraria. Melissa era uma das jovens que ali estavam, era a mais baixinha e a mais sorridente – também havia sido a mais receptiva. Era dos pais dela aquela casa, pouco usavam -. Logo teceram uma conversa animada, e Thaís pode ver que não lhe era forçoso estar ao lado dela, os amigos de Marcelo bem deviam ser legais... Sim, o eram. 
Como o papo já durasse mais de meia hora, Mel disse estar com fome e sugeriu irem comer alguma coisa. Thaís quis esperar Marcelo, mas ela disse que lhe desse um tempo, provavelmente estava com os outros rapazes fazendo ‘coisas de homem’ como, por exemplo, falar delas.  
A cozinha era grande e toda branca, - a parte mais organizada da casa - e contrastava imensamente com todo o resto. Enquanto dividiam uma torta salgada, Mel continuava falante. Por algum motivo Thaís começou a dispersar-se: aquela cozinha branca parecia deixá-la menor, sufocá-la... Todas aquelas gavetas, azulejos, tudo tão branco... A ausência de cor lhe cegava, deixava o ar mais rarefeito. 
Interrompeu-se pela entrada barulhenta de Vítor e Nanda, um outro casal que viera passar o dia ali. Perguntaram por seus respectivos namorados, mas, os outros dois já um pouco altos pela bebida, disseram não fazer idéia, e subitamente saíram da cozinha assim como entraram. Embora a companhia de Mel fosse agradável, Thaís começou a preocupar-se. Não gostava de ficar longe de Marcelo, muito menos ali. Também não tinha planejado passar a noite, voltariam de carro e a viagem durava em média uma hora. Estava chegando a hora de despedirem-se; ela precisava estar em casa quando a mãe ligasse no domingo pela manhã.  
A sua mãe sempre checava se estava tudo bem. 
Decidiram partir em busca de Caio e Marcelo. Agora mais à vontade, Thaís ousou perguntar algumas coisas sobre os outros casais. Mel traçou um rápido perfil de cada um deles: 
Ela e Caio namoravam a mais de um ano, conheceram-se através de Marcelo, e embora fossem opostos em quase tudo, tinham um relacionamento saudável, feliz... Ela julgava. 
Vítor e Nanda eram o tipo de casal chiclete, chegavam a ser chatos de tão apegados, mas no fim, se mereciam... Ainda terminariam no altar certamente, sentenciou. 
Já Karina e Felipe eram o casal mais improvável... Karina era sua amiga há muitos anos, mas nunca achou que se interessaria pelo Felipe. Depois que ela e o Marcelo terminaram... 
- Eles namoraram? 
- Ele não te contou? 
Agora estava mais claro: o tom sarcástico como Karina falava, a altivez com que a olhava... Thaís entendeu tudo, inclusive o constrangimento de Mel, julgando ter falado mais do que devia. 
- Não tem problema, pode falar. (tentou amortecer, queria mais detalhes) 
Mel falou com cuidado de quem escolhe as palavras certas: Karina e Marcelo haviam terminado por pura incompatibilidade, ele água, ela fogo. Ele um rio manso, ela a larva quente de um vulcão. Brigavam constantemente. Continuaram se falando, a prova que haviam superado era ela namorar agora o melhor amigo dele, o Felipe. Felipe sempre gostou dela... Mas tinha o Marcelo, ele não tentaria nada. Ela por sua vez, nem notava a existência de Felipe, até uns dois meses atrás. 
“O fato é que somos quatro casais, cada um feliz, curtindo e vivendo ao seu modo.” Concluiu. 
Deram a volta na casa, passaram pela praia e não os encontraram. Quando estavam entrando novamente, viram Caio e Felipe que pareciam conversar alto perto da porta dos fundos, Felipe parecia nervoso... Era uma discussão. Caio usava seu próprio corpo para interpelá-lo e fazia gestos pondo sempre as palmas das mãos para baixo. Pedia calma. 
Thaís refreou o passo e temeu aproximar-se, não por medo, mas como que por pressentimento. Depois disso tudo ocorreu em flashs, as cenas piscavam em câmera lenta sendo intercaladas por um vazio pesado, mudo, branco... 
Ao captar não mais que duas ou três palavras da discussão ainda mais acalorada dos meninos, Thaís adentrou com o ímpeto fastidioso e seguiu o mais rápido que pode para as escadas. Tudo era retorcido. Monstros feios e suarentos saiam das portas que ela abria, salivando para devorá-la. A penúltima porta a abocanhou com a verdade: Marcelo e Karina falavam baixo e rapidamente, pareciam tomados por algum pânico, sabidos de alguma notícia assustadora, eram ambos de uma euforia danosa. Ela tentava prender os cabelos e tinha os olhos verdes amedrontados, ele colocava a camisa e estava a dois passos da porta. 
Viram-se. Ele e Thaís se olharam. Tão perfurantemente... Mergulharam dessa vez, no limbo das más palavras não ditas. 
Ele não disse nada, ela não ousou piscar. Ele não a tocou. Ela não se mexeu. Os lábios dele tremiam, ela parecia uma estátua de sal, branca, emporcelanada. Ele desviou-se dela, desceu as escadas.  
E era o mundo real assassinando-a pela primeira vez.
 

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