22 de dezembro de 2010

Essa nossa tal felicidade

Postado por Keu Azevedo em 22.12.10 7 comentários

Nada além da mão-dele-na-mão-dela. O cheiro bom dele, o gloss perfeito dela. E de repente não se sabia mais quem sorria, espelhavam-se.
Tensos: ele esfrega o tênis no piso provocando sons agudos, ela balança as pernas e desenha no ar com o bico do sapato. Precisavam-se.
E logo não havia encaixe perfeito como a cabeça dela no ombro dele, não havia conflito interessante no mundo como as pequenas picuinhas dos dois, não haviam sonhos mais bonitos, beijos mais longos, sorrisos mais redondos... Não havia.
Éramos nós dois, você lembra?
Meu castelo de cartas ruiu, todas as copas num redemoinho... Foi teu sopro amor, valeu à pena. Corações vivos.
Eu exigia que me devorasse por inteira: meus queixumes, minhas dores, incertezas... E ruminasse-me amor-casto, disposto a ser tocado por ti outra vez.
Você escrevia fábulas e acreditava que as abelhas cometeriam genocídio se tocassem meus lábios como (só) você havia tocado... (impossível haver mel mais puro).
Tuas melhores composições foram as dedilhadas no meu corpo. As notas mais harmoniosas, nossos sussurros em uníssono...O arranjo perfeito.
E eu me divertia a pegar palavras lindas recém saídas de sua boca, torcê-las... E do sumo derramado umedecer meus lábios para dar-lhas de volta.
Enciumava-se a Felicidade e jurava não permanecer mais entre nós... Birra que nunca cumpria, era consequência de nós dois.
Na nossa classe, eu era o quadro negro em que aquelas unhas escreviam a mais bela poesia.
E se você reclamasse algum cansaço, ouviria o meu sussurro: "recosta-te na minha alma".
Mas agora você não está mais aqui.
Eu tenho saudade do nosso futuro. Os teus dedos na minha nuca, a tua respiração roçando na minha... E nossas risadas confundidas: a lembrança boba da nossa vida tão boba antes de nós.
Te espero.
Pronta a derramar o meu amor-mar nas tuas mãos em concha, para que possamos ancorar na orla do infinito.

6 de dezembro de 2010

Contato

Postado por Keu Azevedo em 6.12.10 5 comentários

Há que se separar pessoas: as tristes e doces, abençoadas e esperançosas, irônicas e de coração mole... Essas todas quero separadas pra mim.
Gosto de gente que após a primeira mordiscada deixa um gostinho doce na boca que te faz lamber os lábios, querer mais.
Sou ladrilhada. Feita de um ladrilho frágil, irregular... Cuidado onde pisa. Como uma taça de açúcar que, ao menor choque fragmenta-se, uma alma sincera estilhaça o meu coração... É perigoso.
Gosto de gente que me rouba o tédio, me arranca do marasmo e - sobretudo contra a minha vontade - chuta meus receios pra bem longe...
Tem gente que é um bocadinho gostoso, um punhado doce que a gente vicia. Tem gente que é um pedaço de estrago, e a essas pessoas, o amor abre um sorriso, quer que fique... Dá medo.
O medo de amar é o que justifica a facilidade em abrir as pernas e não o coração. É esse mesmo medo que petrifica a gente de dentro pra fora. E vira aquela sensação ruim: um quase-abandono, uma quase-dor... Uma querança inteira. Espaço demais...
Tenho esperanças pulmonares que inflam e contraem à medida que vou vivendo. Por isso, em tempos de crise há que se erguer a cabeça, piscar rápido pra que as lágrimas caiam de uma vez, e então, sair ao encalço do impossível.
Murmurar demais e saborear de menos, eis a chave da impaciência humana. A necessidade de planificar, o embargo ao surpreendente... Eu sou assim, cheia de estratagemas pra me auto-sabotar, um eterno jogo de não-é-você-sou-eu.
Só quem já se despejou inteiro num cantil furado sabe o que é se derramar em vão. E é água que não volta mais, sentimentos desperdiçados...
Mas eu sou incorrigivelmente apaixonada pelas pessoas. O que significa se doar mais e de novo, esparramar a alma mais e de novo, e não matar a sede: escorrer mais e de novo pela terra seca... Até que brote. Há de brotar.

24 de novembro de 2010

Todos os inúteis não-você

Postado por Keu Azevedo em 24.11.10 4 comentários

Eu tive um pesadelo: todos eram iguais. Todos.
Não havia mais você, haviam tantos! Temi.
Era impossível viver nesse excesso...
Todos eram bons, todos eram presentes. E eu odiava, odiava.
Queria os teus defeitos, tua arrogância, tua impresença pra depois tua chegada.
Não me comprazia aquele cuidado, queria o cheiro do teu desleixo.
Não me satisfazia aquela querança, eu precisava do teu pouco caso...
Eu tossia.
Adoeci por tua causa: cansada de tanta devoção dos que não eram você.
Os gestos padronizados me nauseavam e a paciência de todos os não-você me deprimiam.
Não haviam brigas nem rompimentos, eu definhava.
Estranhamente precisada de algum dano.
Acordei trêmula e suarenta sem coragem de abrir os olhos.
Estiquei o meu braço no escuro e senti os pelos teus.
Que bom, que bom! "Que bom, que bom" Eu repetia.
Assim que amanheceu despejei umas provocações no teu café da manhã.
Você partiu irritado, soprei-te um beijo.
Gostosa é a tua diferença, a nossa diferença. Os nossos impropérios, o nosso amor.
Voltei a dormir. Você voltaria à noite. Voltaria pra nós.

19 de novembro de 2010

Deleita-te em mim

Postado por Keu Azevedo em 19.11.10 4 comentários

Só aceitei ser tua flor quando percebi que me alimentava das luzes que brotavam em frestas dos teus olhos. E sem perceber estava ali o amor: consumindo-me.
Só você beijava o dorso da minha mão fria e como que com lábios de fogo, fazia flamejar toda a pele... Carícia setada que eu não queria curar.
Mas agora não te tenho. E fica a saudade de sentir o teu perfume amadeirado, deitar sobre os teus braços, aquecer-me no teu corpo... O passo-a-passo de um dia perfeito.
Sobre os meus ombros, o corpo fatigado das noites não dormidas pensando nos planos miúdos e lindos que desenhávamos;
sobre o meu rosto o véu poeirento do sorriso apagado que você deixou, quando levou no seu, a fonte de luz que me alimentava;
sobre os meus lábios outrora cerejosos, restam apenas o chumaço árido que só a tua saliva fazia fértil... Sobre o meu colo, apenas a leveza; a leveza vazia da tua cabeça não repousada;
sobre os meus dedos, a inatividade do deslize não feito sobre o teu rosto, do não enroscar sôfrego nos teus cabelos...
E sobre o meu coração (ah, o meu coração!) a saudade faminta, as rebarbas de um amor definhado e o teu nome a desbotar...
Eu queria que você entendesse que só faço tempestade em copo d'agua pra depois podermos dançar juntos sob o arco-íris.
Que você lembrasse de como diluíamo-nos gostosos e sedentos, morango e chocolate, um no outro.
Vagueio pelos dias, zumbizeio pelas noites num devo-não-devo com a prece que nunca te fiz:
Deleita-te em mim, deleita-te! Saboreemos o doce-amargo-doce de nós dois. E nesse perto-longe-dentro, vivamos.



“Talvez o silêncio nunca me perdoe por ter dito que te amo...
Ser vítima de mim mesmo, de minhas próprias frases,
da minha própria consciência...
Tenho procurado entender a minha vida,
mas as conclusões a que cheguei não são nada conclusivas (...)
E hoje é o primeiro dia do resto dos nossos dias  

...e eu ainda espero por você.
Entre e feche a porta, tente me entender,
acalme-se, pois você vai ver
que estes são os meus problemas,
os problemas que não tenho
e crio em minha mente por você...”
(Reação Em Cadeia – Neurose)

17 de novembro de 2010

Primaverilmente, amei

Postado por Keu Azevedo em 17.11.10 10 comentários

Ponho-me na ponta dos pés, fecho os olhos, abro os braços... E espero somente receber de ti o beijo primaveril que me prometeste. É como se eu fosse uma espiga madura e doce que seus lábios debulharam grão a grão. Enquanto a noite silencia os rumores lá fora, eu me enrosco em você tendo a certeza que recostada no teu peito desanuviarei trevas, compreenderei o universo.
 Encho-me de palavras-cartas-de-amor que amasso e atiro longe... Prefiro o silêncio cúmplice do nosso aconchego. Pois quando juntos, o tempo move-se alquimicamente: o sentimento de ouro puro fazia os minutos eternos.
Eu sairia na chuva todos os dias se soubesse que teria você de novo e de novo para sorrir ao abrir a porta e enxugar-me os cabelos. Perguntada se eu não poderia seguir sem você, pensei em todo o tédio que você varreu da minha vida... E disse não. Frustrada está a Noite porque não pode mais esmagar-me: agora quando ela cai, protejo-me no teu abraço.
Eu que sempre falei de encontros que não entendia, quando encontrei você entendi exatamente do que falava... Ingenuidade ou não, eu acredito no inexplicável, no incontável, no inescrevível...
A verdade é que esse meu coração poroso esperava a minúcia do teu preenchimento. Atirei-me em ti, mergulhei... Mais absurdo seria negar esse mar seu pra mim. Eu a te explorar profundo, você a me envolver inteira. Então, partindo da premissa de que não fomos feitos um pro outro, me sinto aliviada em ser sua. Os amores indisciplinados resistem porque aprenderam a lidar com a contrariedade.
E às vezes eu sonho com o teu rosto: teu queixo fino, teus cílios grandes... Teus lábios se mexendo inaudivelmente... Sei do que falas: falas de nós. Da nossa ligação absurda, do nosso roçar de almas, da nossa conjuntura macia... E por isso gosto tanto desses dias em que sonho com o teu rosto... Que falas mudamente do nosso amor parido à custo, e hoje é doce-dilação. Que só aguarda o momento de descer das noites e voltar pra casa.

1 de outubro de 2010

Re-crença

Postado por Keu Azevedo em 1.10.10 6 comentários
Cruzou os braços com força sob o peito magro, fez beicinho. Era tão inadmissível aquele atraso! Há quase 30 anos espera o amor bater-lhe à porta.
Cansada, Adriana enjaulou os sentimentos, fez uma laqueadura no coração e retirou-se para o interior. Prometeu-se crer no mantra de sua própria autoria: “O amor é o maior engodador da história.”
Havia acreditado em encontros casuais para amores eternos, agora se maldizia: fora tola.
Enquanto houver crença em príncipes encantados, haverá tias solteironas” discursava ela entre amigas. Ainda assim, via-se naquela cara brava o quanto a alma lhe ardia.

***
Sérgio não era o que se pode chamar de um homem viril. Era doce e terno como só os homens imbecis podem ser. Mais amado que amante.
Estalou dedos, acariciou a barba, pensou, fez cálculos, anotações... Impossível determinar quando acreditara ter se tornado o homem mais apaixonado do mundo. Foi correspondido. Ela exigia-o inteiro, ele queria-se indivisível. Não tinha como dar certo.
"Crudelíssima, crudelíssima" exclamava. "Crudelíssima, crudelíssima" entoava mentalmente. Assim ele definia a moça que lhe dissera repetidas vezes um ‘eu te amo’ choroso.

***
Eram então dois desacreditados na praça: ela abre a bolsa, vento açoita papel. Ele não se mexe, fatura do cartão cola-lhe na testa. Adriana xinga, Sérgio ri...
Ele estende-lhe o papel, endireita os óculos. Ela tira o cabelo do rosto, ajeita o decote. Os dedos se tocam. Olhares. Mais vento... Ela agradece e num impulso pergunta se pode sentar-se. Ele finalmente solta o ar. Conversam.
Um querendo a sinopse da alma do outro...
Não temos as mesmas paixões, disse ela. Nem as mesmas opiniões, disse ele.
“É o suficiente”, concordaram intimamente. Agora começavam a sentir-se felizes com a incompatibilidade.
Como haveria de ser, a evidente improbabilidade de uma atração fez com que a atração emanasse.
E depois daquela tarde, partiram re-crentes no amor. Amor de arremate: sentimento viscoso e duradouro que deve tudo à travessura do vento.
"...Se tem que durar, 
vem renascido o amor
bento de lágrimas.
Um século, três, 
se as vidas atrás
são parte de nós.
E como será?
O vento vai dizer
lento o que virá,
e se chover demais,
a gente vai saber,
claro de um trovão,
se alguém depois
sorrir em paz."
(Los Hermanos)

25 de setembro de 2010

Espaço pra dois

Postado por Keu Azevedo em 25.9.10 6 comentários
Fechou os olhos, arqueou os pulmões, soltou o ar... Nada. 27ª Tentativa. Olhos úmidos... Sentiu-se impotente. Queria imitar o resfolegar impaciente dele. Nunca imaginara que fosse sentir saudade disso, mas sentia.
Sentia todos os poros esfumaçarem angústia. Lamuriava sozinha sob a luz amarelada da sua varanda. Dali a algum tempo, lembraria desse tempo como o pior de sua vida.
Idealizava compressas de amor para sua alma aflita... Nada. A pele queimava de dentro pra fora, sofria de despejo: um coração sem ter pra quem ir.
Tudo havia começado dois anos antes: ela estagiária, ele funcionário do mês.
Sério, profissional, cabelos curtos, unhas bem cuidadas...
Um trabalho juntos, uma jantar juntos, uma noite juntos: ofício, degustação e pele, pura pele. Conectaram-se.
Ela pequenina, olhar estreito, lábios fartos e nudes. Expôs o corpo, disfarçou a aridez de sentimentos em que se encontrava.
Meses de encontros, vinhos e noites suarentas.
Aquela mania dele de ficar rodando o anel do indicador, aquela mania dela de massagear a própria nuca.
Beijavam-se com afinco, sugavam-se, mordiam-se, e eram sempre amontoados de carne procurando paliativos.
Ele e seu queixo imponente, ela e suas pernas lisissímas.
Ela desbocada, ele discreto.
Ambos pisoteando o campo da paixão com botas enferrujadas. Medrosos: preocupados com a saciedade, amantes fugazes.
Escolha de filmes: discurso dela, arrogância dele.
Uma briga, ela sugere o fim. Mais meses.

Cinco da tarde. Ela olhou de lado: a simples presença dele ali, mesmo que mudo, ainda causava uma fricção porosa na alma, enlarguecia-lhe o sorriso. Pediu demissão.

Outra cinco da tarde. Ele falido. Após 13 dias no escuro olhou ao redor: cercado de papéis amassados e manchas de café. Ninguém havia reclamado a sua falta. Pediu pra morrer.

Encontraram-se: Ele falou por 2 horas, humilhado. Ela assumiu o sentimento, constrangida. Eram duas crianças devastadas que só queriam se abraçar e dormir até o dia amanhecer.

"Todos caminhos trilham pra a gente se ver
Todas as trilhas caminham pra gente se achar, viu
Eu ligo no sentido de meia verdade
Metade inteira chora de felicidade
A qualquer distância o outro te alcança
Erudito som de batidão
Dia e noite céu de pé no chão
O detalhe que o coração atenta...
(...)
Você passa, eu paro
Você faz, eu falo
Mas a gente no quarto sente o gosto bom que o oposto tem
Não sei, mas sinto, uma força que embala tudo
Falo por ouvir o mundo, tudo diferente de um jeito bate."
Maria Gadú

19 de setembro de 2010

O amor dinóis

Postado por Keu Azevedo em 19.9.10 8 comentários
Hora da despedida:
Ela torce a bainha da saia de vista baixa. "Péça o que quisé" murmurou.
"Eu posso querer duas coisa?" perguntou ele aflito, o olhar nubloso, a garganta pigarrenta...
Ela remoe, mas sente que o peito esquenta, as bochecha cora. "Peça então duma vez, uai!"
- "Quero dá um beijo na tua boca."
Ela desprende um risinho fino sem tirar a vista dos pé, anda pra mais perto dele e baixa a guarda: "pode beijar" diz numa voz rançosa de amor guardado.
"Mais num é assim" ele reivindica. 
E apressa-se num palavriado, porque ela já faz cara aborrecida de morte.
"Eu beijo tu, nóis se beija... mas primeiro ocê me promete me dá um cadin de teu coração pra sempre."
Condição difícil.
Tensão no mato: vento assuvia grosso, cutia assiste.
Ela torce a cara mas está regozijada. Apressou o ‘pra sempre’, garrou o pescoço dele: “ocê me leva toda e nunca mais nóis se dispede, dou coração e beijo conforme a tua necessidade”.
Boa barganha. Ele podia aceitar. 

12 de setembro de 2010

Sinto muito

Postado por Keu Azevedo em 12.9.10 7 comentários
Eu sou aquela pessoa cheia de maus hábitos e manias incuráveis... (Deus sabe até quando!)
Essa pessoa sem penduricalhos, sem extravagância por fora, abarrotada por dentro. Trago na barra da saia pouca malícia, pouca sorte... E os assovios calmos, monotônicos, que destoam dessa ansiedade que me cobre. Como um rio: águas avulsas, sentimentos caudalosos. Às vezes sacio tua sede e te molho mansa; às vezes te afogo em águas turvas, te naufrago em mim.
Quase sempre penso que todo ser humano deveria vir com 'botão de alheiamento' e, com um clique, bloquear tudo para que está pouco se lixando. Eu queria isso, mas não consigo ignorar, não com essa alma em carne viva que eu carrego.
Ainda gosto de gente. Gosto.
Gosto de gente capaz de ficar enternecido pela tristeza alheia, gosto de gente que se deixa impregnar pela ventura do outro e é capaz de, sinceramente, desejar-lhe mais. Gosto de gente que usa sarcasmo como defesa porque sei que, assim como eu, são indefesos. Por isso sinto que preciso ser condensada, ando demasiadamente humana: emoções esparramadas.
Vejo gente querendo sair, querendo fugir, querendo sumir... Quanto arfar de asas presas, quanto farfalhar de penas impacientes...
E sabe porque? Inconsistência. O mal do século é o amor regrado: dieta de entrega, comprometimento racionado.
É fazer um bom uso dessa capacidade humana: amar. Sem, é claro, esquecer os inúmeros vieses do amor.
Amor, amor mesmo, está também no inconveniente que é dito, na merda perdoada, nos defeitos aceitos, na mesmice dos dias, e é claro, na cumplicidade tola. Bobagem querer um coração que ria o tempo todo... Não é sangue que ele tem? Deixe-o sangrar de vez em quando, é hemodiálise na alma.
Temo por mim, tenho um coração de inverno, do tipo que o calor das mãos facilmente derrete. (Manusei-o com cuidado). É um coração de papel, ao menor sinal de lágrimas, desmancha-se.
Do tipo que não te dirá 'eu te amo' facilmente porque é um processo custoso. Mas quando finalmente ouvires, retenha para sempre, será teu bem irrevogável.
Em si tratando de amor sou como um vira-lata: cravo os dentes num osso qualquer. Sentir mesmo que um sentimento de caldo seco, é substância. Eu gosto de sentir, gosto. E isso me mata.
Trocaria articulação e doçura por menos intensidade.
Preocupo-me espinhadorçalmente com o rumo das coisas, da gente, do resto, de toda a gente... Sofro com a insensibilidade do mundo, com a perda sensorial das pessoas, com o desregramento da vida.
E a minha consciência borbulha, meu coração se contrai. Quando sofro é sofrer de inferno, quando sorrio é sorrir de fazer abrir sol no inverno.
Eu sinto muito, denotativamente falando.
- Por que, meu Deus, deste alma demais presse corpo tão pequeno nesse mundo tão grande?

"Nem sempre foi assim, outro mundo é possível.
Pode até ser o fim, mas será que é inevitável?
Não vá dizer que eu estou ficando louco
só porque eu não consigo odiar ninguém.
Do goleiro ao centroavante, do juiz ao presidente
...Eu não consigo odiar ninguém." 
(Engenheiros do Hawaii)

23 de agosto de 2010

Amor de faixa

Postado por Keu Azevedo em 23.8.10 6 comentários


Quase sempre estou insatisfeita. Mas, às vezes, só às vezes sinto pelas coisas uma afeição quase oscular.
Aconteceu quando eu atravessava a rua. Na pressa de explorar cada um a sua margem oposta, esbarraram-se nossos corpos, chocaram-se (e imediatamente reconheceram-se) as nossas almas.
Os óculos dele tortos, a alça da minha bolsa presa ao seu cinto. O vento frio soprava cabelos sobre os meus olhos e bem ali, no meio da rua, segundos antes do sinal abrir, alguém tinha que ceder, fui eu.
Desajeitados rumamos para margem dele, eu de volta, ele querendo seguir.
Rimos.
Derrubei algumas coisas e na minha total falta de tino, ele propôs-se a desfazer o enrosco. Minha bolsa foi a primeira a apaixonar-se, extensão de mim, talvez.
E aquele breve momento pós-choque tornou-se uma avaliação em banho-maria. Eu olhava a sua testa e seus cabelos grossos enquanto ele, sem perder o sorriso constrangido, não ousava levantar os olhos... Ao seu modo, (contou-me depois) já não tinha tanta pressa, alguma coisa no meu cheiro ou no meu mau gosto para acessórios o havia cativado.
Pudesse dizer uma metáfora, diria que ali, exatamente ali, éramos um ramalhete recém colhido; flores tão distintas que algum experiente jardineiro uniu ao acaso, enlaçou-as no contato inusitado de uma alternância de sinais.
Rosa minha, peito teu... E um jardim inteiro despontava entre nós.
Atemporal. Depois disso tudo foi uma questão de remendos: desculpas aqui, risos nos olhos e uma sem-gracice rubra. Mas foi o começo.
Pouco tempo depois éramos nós sobrepostos em camadas irregulares, repousando um sobre a asa do outro.
Nesse meio mundo existiam duas partes: eu e tu. Dois terços de toda a terra pertenciam a nós: o coração e a alma. O terço que sobrou, distribuímos aos pássaros para que levassem no bico as dores e paixões desse planeta abasbacado.
Assim, sem mais nem menos, ele tirou o gosto insosso que a vida havia me deixado na boca. Não sei explicar... Mas ainda hoje, quando a gente se encontra, meu coração bate em decibéis.

19 de agosto de 2010

Planante

Postado por Keu Azevedo em 19.8.10 4 comentários

Tenho vontade de celebrar a loucura das coisas.
Cada dia embeca-se para esfregar a lucidez na minha cara, por isso fico querendo flertar com o incomum.
Invento histórias, crio realidades, me disperso... Talvez porque o escape é mais saboroso, suculento... Alimenta e não sacia, escorre em desejo diluído pelos cantos da boca.
Sou muitas pessoas. Todas criadas nalgum instante de necessidade ou prazer.
Não me confunda nem me limite. Externo apenas o que sobeja. Há ainda um universo borbulhante escondido entre as mechas dos meus cabelos.
Posso ser o atroz que decapita e a língua que entrelaça(-se, -te).
Posso ser a página avelhada que você passa, a silhueta esguia que você sopra da memória...
Posso ser a mão que plaina teu corpo ou o ranço indigesto que não sai da tua boca.
Não (me) acuse. Não se esquive.
Vamos brindar qualquer coisa, dançar uma moda, martelar o mundo!
Carpintemos essa paródia cotidiana com as lixas sentimentais. Pieguemo-nos e esfolemo-nos até altas horas da madrugada; vivamos a inconstância da felicidade trivial.
Comuniquemos melodias, contrariemos a lógica de não contrariar a si mesmo.
O que sustenta as tábuas de uma vida medíocre é a porção de curvas que você não fez, os goles e mais goles de medo que você tomou.
Contorço-me como quem agoniza enquanto expilo cada palavra: filhotes de sangue do reino temperado, localizado precisamente, na intercessão do cérebro e coração.
Em nudez completa apresento vários corpos. Todos meus. Paridos, suados. Imperfeitamente, minha forma de resistência a essa solidez desordenada que nos cerca.

Sou um croqui.
Preto e branco, deitado à tua frente.
Cubra-me com tuas cores,
mas não borre os meus traços.
Tenho um talhe que é só meu.

10 de agosto de 2010

8.760 horas

Postado por Keu Azevedo em 10.8.10 6 comentários

Campainha.
Seis toques.
- Pensei em você nas últimas horas.
Nas últimas 8.760 horas.
Foi difícil.
Só agora me dou conta de que há um ano não aqueço mais a tua orelha fria, não rio das tuas meias infantis entrecortadas pelo chinelo de borracha; não sinto os minúsculos vulcões aveludados da tua pele arrepiada.
Há um ano não gargalhamos em uníssono de piadas ruins, não respiro fundo enquanto você escolhe com alquimia as cores do canudo, não discutimos na locadora por causa de um filme que nem terminaremos de ver.
Faz um ano que você não me censura pela péssima combinação de roupas, que não zomba do meu desleixo, que não amofina-se e aninha-se muda em meu peito... E me deixa criar quadros abstratos no teu couro cabeludo.
Um ano...
365 dias sem o teu corpo de menina que eu girava no ar: eu sol, você terra. Eu à sua volta, eu o seu calor, eu rotação e translação pra ressignificar o (nosso) universo.
E um ano que não olho nos teus olhos. Que não me vejo neles. Que não tenho mais uma imagem digna.
Sabe os seus olhos...
Sonhei com eles noite passada. Sonhei que os beijava...
Eu...
Sim, os seus olhos.
Beijava-os com uma sede implacável e ao mesmo tempo com a delicadeza impossível de quem não quer desfazer com o toque dos lábios, uma simples bolha de sabão.
Não havia entendido, mas agora...
Assim, vendo-os molhados...
Sei onde e como devo beber.
Recôndito:
Se eu tivesse a certeza da tua espera,
tardaria a minha chegada.

5 de agosto de 2010

Business

Postado por Keu Azevedo em 5.8.10 5 comentários

 Acho que fiz um mau negócio...
Vou me vender e comprar um modelo mais novo, mais tolo, mais fácil. Cansei dessa (eu) complicada que adquiri.
Essa pessoa canastrona, indolor, geralmente incapaz de maldizer gente.
(Queria ser ressarcida).
Esse tédio, essa paciência demasiada, essa falta de tato pra revolta...
Essa boca limpa e esses sonhos de criança...
Essa oscilação, essa poesia, essa nerdice...
Essa falta de atenção, de vaidade, de malícia...
(Insatisfeita).
Essa vida musica-tema-de-avós...
Suspiros demais, contusões de menos;
Talvez seja preciso alguma dose de avacalhação. Não sei.





Baús, velhos baús...
Aticei-os ao fogo.
E assistindo às chamas,
sentei para planejar novas lembranças.
O meu sonho agora é ganhar uma vida nova de presente.
Preciso de tempo e páginas limpas
pra errar tudo que eu devo.
Pois, por mais que eu queira,
Não existe refil pra sensações...
Nem pra sentimentos.
O que chamamos de impiedosidade da vida
nada mais é que impulso.
Dê-nos somente boas vivências,
 e amoleceremos.
Enquanto a cidade, já farta, ignora suas presas...
Ela arruma as malas e (re)dobra cuidadosamente
todos os sonhos que nem chegou a usar.
Coisa difícil é aprender a conviver
na nossa própria companhia.
 

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