20 de março de 2011

Your new home

Postado por Keu Azevedo em 20.3.11 3 comentários
Texto para ser lido ao som de 'Chasing Pavements' da Adele.

Equilibrou a taça no peito do pé. Apostara um beijo que o faria. Ao receber o prêmio deixou que o vinho derramasse. Não faz mal, amor é desalinho.
- Sempre quis teu beijo pra meu desjejum. E logo cedo ouvir tua voz ainda rouca me dando bom dia baixinho...
Como é bom ver a compatibilidade das nossas inúmeras imperfeições, e como a gente se ajeita, se afunila, se enrosca e sempre se perdoa. Vai ver o amor é assim, vai ver o amor tá nisso.
Hoje me vejo te amando. Inteiramente, sabe? De-domingo-a-domingo.
A gente não fica chovendo eus-te-amo, não é bem assim.  Se diz, é declarado sem pressa, sempre um ‘eu-te-amo-aurora’ rosadinho e lindo... Daquela forma de parar, encarar e dizer como quem confessa e premia; uma particularidade toda banhada à entrega.
Quando você está feliz vira ator de quinta, disfarça mal a cara imbecil que a felicidade te dá. É como aquela cara boba que faço tentando segurar o riso quando você me provoca, ou a expressão presença-e-fantasia desenhada na minha testa de todos os outros mundos que eu só vejo quando você me abraça...
A gente se ampara, não é? Você me disse isso. Te adoro o menino que pede colo e o homem que beija a minha nuca. Te adoro fazendo cara feia pra minha roupa mais curta e tua impaciência com a minha indecisão pra sabores do que quer que seja.
Você é minha estação inalterável: tua simplicidade me banha e me acalma no verão, teu improviso piegas colore a minha primavera, tua sobriedade me dá segurança no outono, o teu toque afogueia e aquece meu inverno.
Você não me completa, eu não te completo: somos inteiros, amalgamados.
Você que me sabe muitas: aprendeu a caçar minhas bruxas e se deliciar com minhas fadas.
Acho que eu posso dizer o que toda mulher sonha em dizer um dia (e dá até aquele friozinho na barriga)... É que acabou a minha espera. A minha procura terminou na tua porta, dear. Sei que você planejou isso, tá aí a tua vitória: estou me jogando, vou preencher finalmente esses teus braços abertos.
Tira o sapato e fica à vontade... Sabe o meu coração? - Aquele mesmo marcado e cansado - É tua casa agora.

17 de março de 2011

Bárbaro de mim

Postado por Keu Azevedo em 17.3.11 2 comentários
Texto para ser lido ao som de  Fuckin' Perfect da Pink.

Quando te chamei de imbecil, impulsivo, burro e disse que só me fazia sofrer, você respondeu que eu ainda te agradeceria. Ok, obrigada Coração.

Tarefa árdua é essa de manter pessoas e sentimentos sincronizados. Lidar com um coração agitado, que acelera revolucionário e se recusa a deixar o corpo repousar.
Ódio que sinto desse reducionismo eu-e-você-nós-dois sob o qual meus dias tem se apoiado. E cada vez mais se perpetua a certeza de que não quero amor veraneio quente-intenso-efêmero, quero você meu amor-inverno que me sopra arrepios só pra poder me aquecer em teus braços.
Se faço tempestade em copo d'agua é pra depois podermos dançar juntos sob o arco-íris. E como negar que tem sido você? Ainda não tomei conhecimento de anfetamina melhor que um sorriso teu!
Não pode ser outro, acho que é isso. Me enlouquece não poder controlar teus impactos, e matematizar essa minha entrega (in)voluntária... E são tantos desencontros no meio do nosso encontro! O que, curiosamente, não me faz gostar menos dessa nossa relação labirintizada.
- Shit!
Aqui dentro tem aquela tua poltrona velha, macia, com a marca do teu corpo... Esperando você. Teu lugar. Lembro de você sentado do meu lado, lembro de te esperar chegar e fingir rabiscar alguma coisa pra que fosse menos cortante a espera, e lembro-me de ficar mantralmente repetindo que não importaria se você não aparecesse. Sempre importou.
Saudade da gente ocasionalmente de mãos dadas e daquele abraço às vezes sem jeito que você me dava no final da noite. Algum dia eu devia te dizer o quanto acho doce você se queixando que se importa muito mais comigo do que eu contigo, algum dia eu deveria me defender menos e seguir o teu conselho de te deixar me ter. Algum dia eu deveria mesmo dizer que adoro tua calça amarrotada, tuas camisas 3x4, e embora eu não admita em voz alta, você é o puta-cara-que-eu-sempre-quis.
Tenho te cultivado e sinto que vai valer à pena. De dia ditosa plantar-te, no fim da tarde em regozijo colher-te, e à noite em sofreguidão tragar-te. Sinto que você sente igual, então nem tenho mais o que pedir pro Papai Noel esse ano.
A gente foi brincando com o ‘por acaso’ e não se deu conta que toda nossa confusão é liga. Você me fala das marcas que a vida te deixou e eu te ensino que cicatriz é a pintura na carne dos desafios que se venceu. Eu te falo dos meus sonhos em marca d’agua e você põe lápis na minha mão e me ajuda a desenhar tudo de novo: sonhos novos, aquarelados.
A diferença é o que você me causa. O perigo que você representa ao ver em mim a mulher que deseja e a menina que quer cuidar.
E nem estou falando dos teus recados dizendo que sente saudade 24 horas depois de a gente ter se falado, ou de você me chamando de ‘anjo’ e jurando que acredita nisso; não se trata de você dizendo que adora os meus vestidos infantis e me deixando sem graça com seus comentários premeditadamente maliciosos, das tuas chamadas perdidas no meu celular, do seu jeito de mexer no meu cabelo e mexer com meu mundo ao mesmo tempo... É quem você me torna e quem quer ser comigo.
Então vem e não me cura, me deixa te precisar. Vem imperfeito e manhoso preu ser tua prece e delírio.
...Vandalize minha zona de conforto que eu te deixo ficar.

9 de março de 2011

Little Girl

Postado por Keu Azevedo em 9.3.11 3 comentários


Regida por uma certeza embolorada, aninhava-se nas cobertas.
Contorcia-se e lembrava. Por que havia de ter memória? Tinha. Eram sentimentos cristalizados: um desejo salinizado, uma tristeza levemente apimentada por uma consciência não muito limpa.
Pensava na abrangência das coisas: no indo, no vindo, no findo. Esses monólogos mentais de idas, voltas e finais... Entorpeciam.
Caridava-se com pequenos ‘tudo-vai-ficar-bem-amanhã-pode-ser-melhor’ sempre que começava a esmorecer. E embora a vida quase sempre não lhe sorrisse, satisfazia-se com os pequenos risos que dela arrancava à custa de algumas cócegas imbecis.
Havia muito que deixara pessoas amarelecendo no fundo do seu armário, havia muito que encerrara caminhos e diligentemente escorreu - noite após noite - por alguma fresta... E derramada, evaporara-se num dia de sol qualquer.
Tinha aquela pitadinha excêntrica de tédio que deixa pessoas mais saborosas: importantificava genteS, ignorava fatos, pintava mundos preto-e-branco e barganhava consigo mesma os prazos que se impusera.
Esperava ensejos que não vinham enquanto falava da importância de agarrar-se à vida que enuava-se na sua frente.
Não tinha variedade de assuntos, nem de caras. Mas era de uma pungência gostosa às segundas-feiras e de uma sobriedade áspera aos domingos.
Pensava milhares de ‘merda!’ durante o dia que não ousava pronunciar, substituindo sempre por uma cara oca e um repuxar insuportável de lábios.
Calçava os chinelos preguiçosa, deixava o telefone tocar... Tomava um café forte sem ressaca. Enjoava as horas e então passava a brincar com o controle remoto, sentada com os pés em cima do sofá e os joelhos formando um muro frágil escondendo o próprio corpo. Respirava devagar. Pensava em atrasos, em qual lua estava, nos filmes empoeirados da locadora da esquina.
E pensava em amor. E como em se tratando de amor estamos ilhados, esperando sempre que alguém pegue o barco e decida remar até nós.
Fez apostas e planos silenciosos. Quis. Quis com um querer canibalesco perder o juízo, subjugar as impossibilidades que lhe cuspiram, beijar as promessas e aceitá-las de volta, tragar lenta e profundamente uma prece para morar dentro de si, e ali permanecer pra ser ruminada em tempos difíceis.
Sabia que não chegaria a conclusão nenhuma. Decidiu tomar um banho. Logo alguns sais, o cheiro bom e amofinado da cama se misturando à fumaça, a água morna escorrendo verdades abaixo... Soltou os cabelos molhados e saiu.
Estava acontecendo de novo: deixou que o vento menino lhe secasse o cabelo e lhe bulisse o vestido, enquanto pisava nas páginas do seu próprio livro... Escrevendo naquela tarde cinza mais um trecho grifável.


“Far far, there's this little girl
she was praying for something to happen to her
everyday she writes words and more words
just to speak out the thoughts that keep floating inside
and she's strong when the dreams come cos' they
take her, cover her, they are all over
(…)
Far far, there's this little girl
she was praying for something good to happen to her
from time to time there're colors and shapes
dazzeling her eyes, tickeling her hands
they invent her a new world with
oil skies and aquarel rivers…”
-  Yael Naim 


 

...Toda Querança... Template by Ipietoon Blogger Template | Gift Idea