24 de novembro de 2010

Todos os inúteis não-você

Postado por Keu Azevedo em 24.11.10 4 comentários

Eu tive um pesadelo: todos eram iguais. Todos.
Não havia mais você, haviam tantos! Temi.
Era impossível viver nesse excesso...
Todos eram bons, todos eram presentes. E eu odiava, odiava.
Queria os teus defeitos, tua arrogância, tua impresença pra depois tua chegada.
Não me comprazia aquele cuidado, queria o cheiro do teu desleixo.
Não me satisfazia aquela querança, eu precisava do teu pouco caso...
Eu tossia.
Adoeci por tua causa: cansada de tanta devoção dos que não eram você.
Os gestos padronizados me nauseavam e a paciência de todos os não-você me deprimiam.
Não haviam brigas nem rompimentos, eu definhava.
Estranhamente precisada de algum dano.
Acordei trêmula e suarenta sem coragem de abrir os olhos.
Estiquei o meu braço no escuro e senti os pelos teus.
Que bom, que bom! "Que bom, que bom" Eu repetia.
Assim que amanheceu despejei umas provocações no teu café da manhã.
Você partiu irritado, soprei-te um beijo.
Gostosa é a tua diferença, a nossa diferença. Os nossos impropérios, o nosso amor.
Voltei a dormir. Você voltaria à noite. Voltaria pra nós.

19 de novembro de 2010

Deleita-te em mim

Postado por Keu Azevedo em 19.11.10 4 comentários

Só aceitei ser tua flor quando percebi que me alimentava das luzes que brotavam em frestas dos teus olhos. E sem perceber estava ali o amor: consumindo-me.
Só você beijava o dorso da minha mão fria e como que com lábios de fogo, fazia flamejar toda a pele... Carícia setada que eu não queria curar.
Mas agora não te tenho. E fica a saudade de sentir o teu perfume amadeirado, deitar sobre os teus braços, aquecer-me no teu corpo... O passo-a-passo de um dia perfeito.
Sobre os meus ombros, o corpo fatigado das noites não dormidas pensando nos planos miúdos e lindos que desenhávamos;
sobre o meu rosto o véu poeirento do sorriso apagado que você deixou, quando levou no seu, a fonte de luz que me alimentava;
sobre os meus lábios outrora cerejosos, restam apenas o chumaço árido que só a tua saliva fazia fértil... Sobre o meu colo, apenas a leveza; a leveza vazia da tua cabeça não repousada;
sobre os meus dedos, a inatividade do deslize não feito sobre o teu rosto, do não enroscar sôfrego nos teus cabelos...
E sobre o meu coração (ah, o meu coração!) a saudade faminta, as rebarbas de um amor definhado e o teu nome a desbotar...
Eu queria que você entendesse que só faço tempestade em copo d'agua pra depois podermos dançar juntos sob o arco-íris.
Que você lembrasse de como diluíamo-nos gostosos e sedentos, morango e chocolate, um no outro.
Vagueio pelos dias, zumbizeio pelas noites num devo-não-devo com a prece que nunca te fiz:
Deleita-te em mim, deleita-te! Saboreemos o doce-amargo-doce de nós dois. E nesse perto-longe-dentro, vivamos.



“Talvez o silêncio nunca me perdoe por ter dito que te amo...
Ser vítima de mim mesmo, de minhas próprias frases,
da minha própria consciência...
Tenho procurado entender a minha vida,
mas as conclusões a que cheguei não são nada conclusivas (...)
E hoje é o primeiro dia do resto dos nossos dias  

...e eu ainda espero por você.
Entre e feche a porta, tente me entender,
acalme-se, pois você vai ver
que estes são os meus problemas,
os problemas que não tenho
e crio em minha mente por você...”
(Reação Em Cadeia – Neurose)

17 de novembro de 2010

Primaverilmente, amei

Postado por Keu Azevedo em 17.11.10 10 comentários

Ponho-me na ponta dos pés, fecho os olhos, abro os braços... E espero somente receber de ti o beijo primaveril que me prometeste. É como se eu fosse uma espiga madura e doce que seus lábios debulharam grão a grão. Enquanto a noite silencia os rumores lá fora, eu me enrosco em você tendo a certeza que recostada no teu peito desanuviarei trevas, compreenderei o universo.
 Encho-me de palavras-cartas-de-amor que amasso e atiro longe... Prefiro o silêncio cúmplice do nosso aconchego. Pois quando juntos, o tempo move-se alquimicamente: o sentimento de ouro puro fazia os minutos eternos.
Eu sairia na chuva todos os dias se soubesse que teria você de novo e de novo para sorrir ao abrir a porta e enxugar-me os cabelos. Perguntada se eu não poderia seguir sem você, pensei em todo o tédio que você varreu da minha vida... E disse não. Frustrada está a Noite porque não pode mais esmagar-me: agora quando ela cai, protejo-me no teu abraço.
Eu que sempre falei de encontros que não entendia, quando encontrei você entendi exatamente do que falava... Ingenuidade ou não, eu acredito no inexplicável, no incontável, no inescrevível...
A verdade é que esse meu coração poroso esperava a minúcia do teu preenchimento. Atirei-me em ti, mergulhei... Mais absurdo seria negar esse mar seu pra mim. Eu a te explorar profundo, você a me envolver inteira. Então, partindo da premissa de que não fomos feitos um pro outro, me sinto aliviada em ser sua. Os amores indisciplinados resistem porque aprenderam a lidar com a contrariedade.
E às vezes eu sonho com o teu rosto: teu queixo fino, teus cílios grandes... Teus lábios se mexendo inaudivelmente... Sei do que falas: falas de nós. Da nossa ligação absurda, do nosso roçar de almas, da nossa conjuntura macia... E por isso gosto tanto desses dias em que sonho com o teu rosto... Que falas mudamente do nosso amor parido à custo, e hoje é doce-dilação. Que só aguarda o momento de descer das noites e voltar pra casa.
 

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