Havia muita coisa para ser dita.
Pouco foi dito.
A briga entre Marcelo e Felipe foi intensa. Os ânimos exaltados. As ressalvas.
Não para Thais. Tudo que ela via era a cama desfeita.
Marcelo a conduziu pelo cotovelo assim que a situação permitiu uma brecha de ar.
Respirava de forma tão aflita e tinha os olhos emocionados. Estava tomado por um véu sinistro de súplica, do tipo que exige derramamento febril de sangue para alcançar o perdão.
Começou a falar de forma soluçada e mais parecia um menino do que um homem culpado. Adicionava ao final de cada período um “eu sinto muito”, mexia nervosamente nos cabelos, apertava os dedos com os dedos; avermelhava-os e não conseguia captar nenhuma expressão no rosto mumificado que Thaís exibia.
Ela não dissera uma palavra. Nada. Olhava-o com o queixo levemente erguido e via-se ao redor dos seus olhos um leve tremor, um espasmo... Era a única coisa que ousava mexer-se enquanto ela o escutava. Impassível.
Ela o ouvia, mas mal decodificava. Havia alguma ponta de metal estilhaçando-a, atravessava a sua garganta e fazia com que um sangue quente e invisível aquecesse seu colo que, por sua vez, não se manifestava. Seu peito não dava sinais de respiração: subia e descia imperceptivelmente como se quisesse acolher com calma aquele sangue de traição que o cobria.
Ele tentara explicar tanto em tão pouco tempo. Havia cometido um erro. Erro bruto, vil. Mas a amava, sim... Agora tinha mais certeza do que já tivera em qualquer momento. Não suportaria a idéia de perdê-la. Contrito, insistia que ela não tomasse nenhuma atitude precipitada... Assim se seguiu, assim foi.
Ela nunca o vira daquele jeito. Ele era sempre tão sereno... Estava perturbado. Comportava-se tão servilmente, tão temeroso, que ela sentiu repulsa.
Falou-lhe apenas que precisava ir para casa. Não queria conversar, não queria ouvir, queria partir e quem sabe, na solidez de sua casa, compreendesse tudo aquilo, juntasse os cacos, sentisse algo além de dor e náusea.
Ele ainda tremia quando disse que pegaria as chaves e partiriam imediatamente. Ela recusou de forma seca. Breve discordância. E ela o deixou falando às poucas luzes que os rodeavam. Só.
Não precisou acalmar-se para o telefonema, falou brevemente com Fábio: pediu que a buscasse, contou meias verdades... Esperou em silêncio ao lado de Mel. Assinara nos dígitos do celular, a sua última sentença.
**** ****
A viagem de volta foi taciturna. Fábio tentou angariar informações sobre o que havia acontecido... Sem sucesso. Sentada ao seu lado brincava com o cinto de segurança e dava respostas evasivas. Depois de 20 minutos ele desistiu, seguiram num clima de acordo mudo.
Ao chegarem em casa Fábio perguntou-lhe se não tinha a intenção de ligar para a mãe, Thais respondeu que ele não se preocupasse, contaria a verdade sobre o dia com o namorado oculto mas não desconhecido, sobre a viagem e talvez, talvez até contasse para sua mãe os motivos que levaram ao desentendimento e à ligação surpresa, o pedido de resgate.
Fábio assentiu, mas não sem alguma expressão de descontentamento.
Ela disse que queria subir, tomar um banho, ficar só. Agradeceu. Em poucas palavras agradeceu-o encarando-o. Foi como um convite: Fábio estava a menos de dois passos, abraçou-a. Passada a surpresa dos primeiros instantes Thaís refugiou-se naquele abraço como quem intenta proteger-se de um frio inconcebível trajando roupas de banho, de pés descalços. Agarrou-se a Fábio e permitiu-se suspiros profundos. A anestesia estava passando, começava a dar-se conta: havia sucumbido. Estava cheia de chagas... O céu já não lhe pertencia.
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