Quem dera todos os dias fossem inteiros... Preu deixar um trechinho de mim em cada curva; me repartir e ainda tê-los...Os dias, meus todos!
Tô pensando seriamente em ir pra Sumiçolândia... Ficar lá quietinha sem precisar fingir, sem tentar aparentar... Mas não é nada definitivo não.
O problema é que a própria Sumiçolândia anda mais difícil, é preciso fazer reserva, preparar-se e preparar tudo antes... Muita gente querendo visitar! Uns passam, conhecem, e vão-se embora... Eram apenas turistas nessa terra de ninguém; outros alugam casas e passam mais que veraneios... Outros, mais esclerosados, insistem em morar lá, encarfunados como ursos...
Tem sempre gente como eu, querendo chegar e sair, se esconder um tempo e depois reaparecer como se nada tivesse acontecido. O fato é que um dia na vida TODOS já quiseram um cantinho nessa cidade escusa.
A Sumiçolândia nem é feia, o interessante de lá é a sinceridade, ninguém se sente coagido a fazer o que não tem vontade: Você não é obrigado a sair de casa, a cumprimentar pessoas, a tomar decisões, a dar explicações, a sorrir amarelo... O SOCIAL é meramente optativo! Você não precisa nem dormir se não quiser... O que menos se sente quando chega na Sumiçolândia é sono.
As ruas estão sempre cheias, porém silenciosas... É que ainda tem muita gente que caminha pra pensar, eu não... Não vou pra Sumiçolândia fazer cooper, fico parecendo vegetal, vivendo de fotossíntese no escuro: quieta e retraída na minha casa temporária [as choupanas da Sumiçolândia são confortáveis e aconchegantes, por isso é preciso ter cuidado pra não se afeiçoar], fico abraçada aos meus joelhos esperando as coisas na vida real tomarem rumo... Às vezes elas tomam, às vezes não... Mas a minha estadia solitária na Sumiçolândia sempre me ensina algo.
Engana-se quem pensa que tudo na “Sumiço”[apelido carinhoso da cidadezinha moderada] é depressivo. Ok, não vamos negar o forte teor melancólico de sua arquitetura, os traços visíveis de saudosismo em sua paisagem, o clima carregado que tem na maior parte do ano e, sobretudo, a morbidez dos seus pontos turísticos... Mas há histórias de pessoas que voltaram outras depois de uma temporada naquele canto de declínio e abatimento...
Vamos lá gente, menos hipocrisia! Vocês acreditam que seria mesmo possível um ano inteiro só de Montes?... Sem um Vale sequer? Seria muita ingenuidade... Acredito que ruim é começar a trazer móveis pra caverna. Enquanto você passa lá e explora, beleza, quando quer dar um toque de lar àquela cavidade grotesca, é que o surto é verdadeiro.
Sabe aquele lema: “O que acontece em Las Vegas, fica em Las Vegas”? Com a Sumiçolândia é bem assim... [aviso pra que não cometam garfes] ninguém gosta de dizer o que os fez desejar ir pra lá. Geralmente o que importa é estar um tempo na Sumiço, porque se foi parar lá é irrelevante.
É por isso que eu quero umas férias e escolhi esse roteiro. O cansaço faz com que a gente queira MENOS: menos barulho, menos agitação, menos atividade, menos convenções, menos obrigações e até menos respostas... Apenas PARAR.
Então me entendam, se não fosse um programa individual eu até convidaria... Mas o negócio é que tô precisando de uns dias inteiros... Inteirinhos só pra mim... Pra que eu possa me espalhar por eles, cumprir minha agenda de ociosidade e inércia... Dividir-me apenas entre momentos comigo e comigo mesma. E ainda assim ter meus todos os dias, e todas as coisas... Tudo de algum jeito pra quando eu voltar.
Hasta!
