26 de agosto de 2009

Sumiçolândia

Postado por Keu Azevedo em 26.8.09 6 comentários


Quem dera todos os dias fossem inteiros... Preu deixar um trechinho de mim em cada curva; me repartir e ainda tê-los...Os dias, meus todos!
Tô pensando seriamente em ir pra Sumiçolândia... Ficar lá quietinha sem precisar fingir, sem tentar aparentar... Mas não é nada definitivo não.
O problema é que a própria Sumiçolândia anda mais difícil, é preciso fazer reserva, preparar-se e preparar tudo antes... Muita gente querendo visitar! Uns passam, conhecem, e vão-se embora... Eram apenas turistas nessa terra de ninguém; outros alugam casas e passam mais que veraneios... Outros, mais esclerosados, insistem em morar lá, encarfunados como ursos...
Tem sempre gente como eu, querendo chegar e sair, se esconder um tempo e depois reaparecer como se nada tivesse acontecido. O fato é que um dia na vida TODOS já quiseram um cantinho nessa cidade escusa.
A Sumiçolândia nem é feia, o interessante de lá é a sinceridade, ninguém se sente coagido a fazer o que não tem vontade: Você não é obrigado a sair de casa, a cumprimentar pessoas, a tomar decisões, a dar explicações, a sorrir amarelo... O SOCIAL é meramente optativo! Você não precisa nem dormir se não quiser... O que menos se sente quando chega na Sumiçolândia é sono.
As ruas estão sempre cheias, porém silenciosas... É que ainda tem muita gente que caminha pra pensar, eu não... Não vou pra Sumiçolândia fazer cooper, fico parecendo vegetal, vivendo de fotossíntese no escuro: quieta e retraída na minha casa temporária [as choupanas da Sumiçolândia são confortáveis e aconchegantes, por isso é preciso ter cuidado pra não se afeiçoar], fico abraçada aos meus joelhos esperando as coisas na vida real tomarem rumo... Às vezes elas tomam, às vezes não... Mas a minha estadia solitária na Sumiçolândia sempre me ensina algo.
Engana-se quem pensa que tudo na Sumiço[apelido carinhoso da cidadezinha moderada] é depressivo. Ok, não vamos negar o forte teor melancólico de sua arquitetura, os traços visíveis de saudosismo em sua paisagem, o clima carregado que tem na maior parte do ano e, sobretudo, a morbidez dos seus pontos turísticos... Mas há histórias de pessoas que voltaram outras depois de uma temporada naquele canto de declínio e abatimento...
Vamos lá gente, menos hipocrisia! Vocês acreditam que seria mesmo possível um ano inteiro só de Montes?... Sem um Vale sequer? Seria muita ingenuidade... Acredito que ruim é começar a trazer móveis pra caverna. Enquanto você passa lá e explora, beleza, quando quer dar um toque de lar àquela cavidade grotesca, é que o surto é verdadeiro.
Sabe aquele lema: O que acontece em Las Vegas, fica em Las Vegas? Com a Sumiçolândia é bem assim... [aviso pra que não cometam garfes] ninguém gosta de dizer o que os fez desejar ir pra lá. Geralmente o que importa é estar um tempo na Sumiço, porque se foi parar lá é irrelevante.
É por isso que eu quero umas férias e escolhi esse roteiro. O cansaço faz com que a gente queira MENOS: menos barulho, menos agitação, menos atividade, menos convenções, menos obrigações e até menos respostas... Apenas PARAR.
Então me entendam, se não fosse um programa individual eu até convidaria... Mas o negócio é que tô precisando de uns dias inteiros... Inteirinhos só pra mim... Pra que eu possa me espalhar por eles, cumprir minha agenda de ociosidade e inércia... Dividir-me apenas entre momentos comigo e comigo mesma. E ainda assim ter meus todos os dias, e todas as coisas... Tudo de algum jeito pra quando eu voltar.
Hasta!

13 de agosto de 2009

Sr. Prazer

Postado por Keu Azevedo em 13.8.09 4 comentários

O prazer é aquilo que sustenta a alma.
Quando prestes a desfalecer por culpa das tarefas entediantes, um bom texto pode tecer mais um fio... E te sustentar ainda que cambaleante, porque ele não te fixa num ponto... Te faz ziguezaguear na dança das palavras...
Às vezes acho que é o texto que nos contém.
Há prazeres incomparáveis. Mas O de devorar as linhas de um bom livro creio imcomparabilíssimo! [se assim posso exagerar... ah, posso sim! esse texto é meu, está me contendo... é arbitrário.]
E falando em Prazer: hoje o encontrei sem querer, ao dobrar uma esquina. Cumprimentei-o de olhos baixos. Ele me disse:
- Vou te visitar!
E veio.
O Prazer é híbrido e pode assumir várias formas... Hoje ele me fez companhia até o entardecer, sobre a forma dos enlevos de Eça de Queiroz.
E aquela visitação foi me preenchendo de tal forma que o poente já acenava, mas eu não queria despedir-me do visitante.
Vagarosamente retirei os óculos.
Esperei.
Era uma sensação de criança quando termina o algodão doce: contente pelo que saboreou, fazendo bico por querer mais.
O Prazer me fez um cumprimento educado, e polidamente retirou-se.
Fiquei ainda algum tempo na mesma posição... Tendo entre os dedos um marca-páginas de Monet, brincava com as papoulas para fugir ao desconsolo.
“- Por que o Prazer não fica pra sempre?”
E a minha mente completava:
“- Quem me dera... Ah... Quem me dera...”
Não sei quando ele aparecerá novamente, quando ficará ali em silêncio do meu lado enquanto faço o exercício egoísta que é necessário: leio.
Esse Prazer não é de diálogos, é de presença! Abanca-se conosco apenas para estar... E o texto, o bendito texto, o emudece... O torce e ele exala a si mesmo: a cada página que viro, mais o Prazer se aconchega.
Mas o fato é que ele se foi... E já faz três horas. Tomei um banho, depois o jantar... Agora não me lamento... Porque descobri uma nova forma de atraí-lo: enquanto escrevo esse texto, mais um benditinho texto... Já ouço a campainha tocar...

7 de agosto de 2009

QUERANÇA

Postado por Keu Azevedo em 7.8.09 1 comentários

Eu sou toda querança! Esse querer que me preenche e me instiga.
Quero apalpar cada momento que vivo pra não esquecer suas curvas, seus enlevos, e principalmente a textura mais áspera ou macia que o envolve...
Memorizar detalhes do que passamos ajuda na catalogação de dias felizes e é treinamento pra esquivar-se de dias menores.
Os dias maiores guardo comigo, os dias menores... Aqueles difíceis e laboriosos, vou colecionando em caixinhas e consulto quando necessário... Jamais se deve jogar fora as sensações indesejadas e dolorosas, elas podem ser a luz que realça as cores dos dias maiores que virão. Eu vejo as cores!
E quando a nostalgia me beira, fico querendo arrancar pedaços do passado bom, só pra devorar de novo... Porque Saudade é ruminar...
Ainda tento não estar ansiosa, não desejar tanto... Mas sou toda querança! Penso nas possibilidades, e sem perceber, meus pés se desprendem do chão... Já estou a voar...
Depois de muito tempo e a muito custo, percebi que se reflito é porque ainda não morri pro que virá...
Então, fico assim: satisfeita com o que vivi, esperançosa com o que há de vir e inevitavelmente louca com o que estou a passar!


Ps.: eu tinha esquecido como escrever me faz bem... E que faço isso [egocentricamente falando] simplesmente porque me compraz...me compraz tanto...
 

...Toda Querança... Template by Ipietoon Blogger Template | Gift Idea