23 de agosto de 2010

Amor de faixa

Postado por Keu Azevedo em 23.8.10 6 comentários


Quase sempre estou insatisfeita. Mas, às vezes, só às vezes sinto pelas coisas uma afeição quase oscular.
Aconteceu quando eu atravessava a rua. Na pressa de explorar cada um a sua margem oposta, esbarraram-se nossos corpos, chocaram-se (e imediatamente reconheceram-se) as nossas almas.
Os óculos dele tortos, a alça da minha bolsa presa ao seu cinto. O vento frio soprava cabelos sobre os meus olhos e bem ali, no meio da rua, segundos antes do sinal abrir, alguém tinha que ceder, fui eu.
Desajeitados rumamos para margem dele, eu de volta, ele querendo seguir.
Rimos.
Derrubei algumas coisas e na minha total falta de tino, ele propôs-se a desfazer o enrosco. Minha bolsa foi a primeira a apaixonar-se, extensão de mim, talvez.
E aquele breve momento pós-choque tornou-se uma avaliação em banho-maria. Eu olhava a sua testa e seus cabelos grossos enquanto ele, sem perder o sorriso constrangido, não ousava levantar os olhos... Ao seu modo, (contou-me depois) já não tinha tanta pressa, alguma coisa no meu cheiro ou no meu mau gosto para acessórios o havia cativado.
Pudesse dizer uma metáfora, diria que ali, exatamente ali, éramos um ramalhete recém colhido; flores tão distintas que algum experiente jardineiro uniu ao acaso, enlaçou-as no contato inusitado de uma alternância de sinais.
Rosa minha, peito teu... E um jardim inteiro despontava entre nós.
Atemporal. Depois disso tudo foi uma questão de remendos: desculpas aqui, risos nos olhos e uma sem-gracice rubra. Mas foi o começo.
Pouco tempo depois éramos nós sobrepostos em camadas irregulares, repousando um sobre a asa do outro.
Nesse meio mundo existiam duas partes: eu e tu. Dois terços de toda a terra pertenciam a nós: o coração e a alma. O terço que sobrou, distribuímos aos pássaros para que levassem no bico as dores e paixões desse planeta abasbacado.
Assim, sem mais nem menos, ele tirou o gosto insosso que a vida havia me deixado na boca. Não sei explicar... Mas ainda hoje, quando a gente se encontra, meu coração bate em decibéis.

19 de agosto de 2010

Planante

Postado por Keu Azevedo em 19.8.10 4 comentários

Tenho vontade de celebrar a loucura das coisas.
Cada dia embeca-se para esfregar a lucidez na minha cara, por isso fico querendo flertar com o incomum.
Invento histórias, crio realidades, me disperso... Talvez porque o escape é mais saboroso, suculento... Alimenta e não sacia, escorre em desejo diluído pelos cantos da boca.
Sou muitas pessoas. Todas criadas nalgum instante de necessidade ou prazer.
Não me confunda nem me limite. Externo apenas o que sobeja. Há ainda um universo borbulhante escondido entre as mechas dos meus cabelos.
Posso ser o atroz que decapita e a língua que entrelaça(-se, -te).
Posso ser a página avelhada que você passa, a silhueta esguia que você sopra da memória...
Posso ser a mão que plaina teu corpo ou o ranço indigesto que não sai da tua boca.
Não (me) acuse. Não se esquive.
Vamos brindar qualquer coisa, dançar uma moda, martelar o mundo!
Carpintemos essa paródia cotidiana com as lixas sentimentais. Pieguemo-nos e esfolemo-nos até altas horas da madrugada; vivamos a inconstância da felicidade trivial.
Comuniquemos melodias, contrariemos a lógica de não contrariar a si mesmo.
O que sustenta as tábuas de uma vida medíocre é a porção de curvas que você não fez, os goles e mais goles de medo que você tomou.
Contorço-me como quem agoniza enquanto expilo cada palavra: filhotes de sangue do reino temperado, localizado precisamente, na intercessão do cérebro e coração.
Em nudez completa apresento vários corpos. Todos meus. Paridos, suados. Imperfeitamente, minha forma de resistência a essa solidez desordenada que nos cerca.

Sou um croqui.
Preto e branco, deitado à tua frente.
Cubra-me com tuas cores,
mas não borre os meus traços.
Tenho um talhe que é só meu.

10 de agosto de 2010

8.760 horas

Postado por Keu Azevedo em 10.8.10 6 comentários

Campainha.
Seis toques.
- Pensei em você nas últimas horas.
Nas últimas 8.760 horas.
Foi difícil.
Só agora me dou conta de que há um ano não aqueço mais a tua orelha fria, não rio das tuas meias infantis entrecortadas pelo chinelo de borracha; não sinto os minúsculos vulcões aveludados da tua pele arrepiada.
Há um ano não gargalhamos em uníssono de piadas ruins, não respiro fundo enquanto você escolhe com alquimia as cores do canudo, não discutimos na locadora por causa de um filme que nem terminaremos de ver.
Faz um ano que você não me censura pela péssima combinação de roupas, que não zomba do meu desleixo, que não amofina-se e aninha-se muda em meu peito... E me deixa criar quadros abstratos no teu couro cabeludo.
Um ano...
365 dias sem o teu corpo de menina que eu girava no ar: eu sol, você terra. Eu à sua volta, eu o seu calor, eu rotação e translação pra ressignificar o (nosso) universo.
E um ano que não olho nos teus olhos. Que não me vejo neles. Que não tenho mais uma imagem digna.
Sabe os seus olhos...
Sonhei com eles noite passada. Sonhei que os beijava...
Eu...
Sim, os seus olhos.
Beijava-os com uma sede implacável e ao mesmo tempo com a delicadeza impossível de quem não quer desfazer com o toque dos lábios, uma simples bolha de sabão.
Não havia entendido, mas agora...
Assim, vendo-os molhados...
Sei onde e como devo beber.
Recôndito:
Se eu tivesse a certeza da tua espera,
tardaria a minha chegada.

5 de agosto de 2010

Business

Postado por Keu Azevedo em 5.8.10 5 comentários

 Acho que fiz um mau negócio...
Vou me vender e comprar um modelo mais novo, mais tolo, mais fácil. Cansei dessa (eu) complicada que adquiri.
Essa pessoa canastrona, indolor, geralmente incapaz de maldizer gente.
(Queria ser ressarcida).
Esse tédio, essa paciência demasiada, essa falta de tato pra revolta...
Essa boca limpa e esses sonhos de criança...
Essa oscilação, essa poesia, essa nerdice...
Essa falta de atenção, de vaidade, de malícia...
(Insatisfeita).
Essa vida musica-tema-de-avós...
Suspiros demais, contusões de menos;
Talvez seja preciso alguma dose de avacalhação. Não sei.





Baús, velhos baús...
Aticei-os ao fogo.
E assistindo às chamas,
sentei para planejar novas lembranças.
O meu sonho agora é ganhar uma vida nova de presente.
Preciso de tempo e páginas limpas
pra errar tudo que eu devo.
Pois, por mais que eu queira,
Não existe refil pra sensações...
Nem pra sentimentos.
O que chamamos de impiedosidade da vida
nada mais é que impulso.
Dê-nos somente boas vivências,
 e amoleceremos.
Enquanto a cidade, já farta, ignora suas presas...
Ela arruma as malas e (re)dobra cuidadosamente
todos os sonhos que nem chegou a usar.
Coisa difícil é aprender a conviver
na nossa própria companhia.

1 de agosto de 2010

Não mais lá, sem querer aqui.

Postado por Keu Azevedo em 1.8.10 4 comentários

Não aprendi a maioria dos Bê-a-bás;
não destabulei  a maioria das regras.
Não cruzei as linhas do inadmissível,
E também não rasguei cédulas oferecidas.
Não usei freios e nem ultrapassei sinais.
Pouca compunção, pouco vivaz.
Em suspenso, Comedi-me.
Entre o suficiente e o extravagante, morei. Exatamente ali.
E isso me foi a morte. Todos os dias.
***
Era uma vez Maria Morna. 
E no afã de não errar, 
morreu de tédio.
 

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