28 de abril de 2010

É porque senti - Parte IV

Postado por Keu Azevedo em 28.4.10 2 comentários


Diante do pátio que teria que atravessar se quisesse chegar à sala de aula, parou.
As pessoas eram novamente uma massa: dezenas de alunos espalhados e transitórios davam vida àquelas peças de cimento: bancos lotados, muita conversa, muitas cores... Tanta maquiagem, tantas munhequeiras, tantos aparelhos, tanta vivacidade.
Sentiu inveja da inocência que eles exalavam, do despreocupar que exibiam.
Os maiores problemas ali eram os menores da face da terra.
Sentia necessidade de extrair força de algum lugar dentro de si... Mergulhou.
Encontrou apenas as ruínas da cidade argilosa que havia criado para viver. Folhas de papel pardo voavam soltas, numa fluidez penosa. Havia marcas, uma camada espessa de pó branco, isopor esfarelado que brincava de ser neve. E o silêncio. O silêncio cruel que permitia apenas os soluços abafados naquela paisagem sem cor. Sem céu. Apenas o pó que ardia nas narinas.
Entrou num cubículo. Viu suas lembranças, um brinquedo. Soprou o pó, abriu o baú. Em segundos, regrediu e também envelheceu 10 anos.
Ficou tonta, sem ter em que se apoiar, seguiu como quem segue resignado ao sacrifício.
Estava novamente na escola.
Ela escolheu ver tudo em movimento de lábios, sem sons. Concentrou-se nos gestos. Tudo era frenético, mas isolado. Calou a todos dentro da sua cabeça e fez daquele pátio a sua cidade empoeirada.
Toda vez que alguém ameaçava aproximar-se, corrompia sua rota inicial, esquivava-se com astúcia.
Lorena foi a única que a interpelou. Sua melhor amiga. Canastrona, bem-humorada, faladeira... Exatamente o pior tipo de pessoa para se ter ao lado quando o que mais deseja é ser invisível.
Lorena estava mais curiosa que propriamente preocupada, Thaís havia sumido por um dia inteiro sem lhe contar como havia sido o sábado na ilha.
Esforçou-se, esforçou-se muito... E com um movimento doloroso, repuxou a pele, moveu músculos, e então Thaís exibiu o sorriso mais hipócrita que já havia dado na vida. Disse que estava bem, mas que agora precisavam ir para aula. Disse que o passeio havia sido interessante e prometeu – embora não esperasse proferir uma palavra de verdade que fosse – contar tudo que ocorrera naquelas 24 horas ao lado do homem a quem amara.
 

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