
José não era um José como tantos outros. Era o meu José.
Posso dizer que conhecia cada ondulado de seu cabelo, cada cicatriz de suas pernas, cada um dos três tipos de sorriso que eles esboçava... Mas não foi o suficiente.
Nos conhecíamos desde as ultra-sonografias de nossas mães, amigas de condomínio... Ambas eram empregadas domésticas de patroas também amigas num mesmo andar. O José veio primeiro, quase dois meses depois nasci eu, (que ele chamava Ju quando brincava, Juliana quando repreendia) cheguei um pouquinho mais tarde, com mais dor, talvez um prelúdio apenas.
É um perigo imenso vidas tão entrelaçadas.
Não é que a gente namorasse desde sempre, a princípio eu gostava apenas como ele me olhava, como falava comigo e o jeito que cuidava tanto de mim... O José estava certo, eu já devia a minha vida a ele.
O meu pai morreu e foi a mãe dele que nos deixou também... O mais estranho é que eles dois estavam juntos e, desde então, os nossos pais que sobraram não se encaravam mais. O fato é que ele me amava, o meu José me amava. Amava com uma devoção infantil, com um calor abrandado pelo cuidado, com o esforço do trabalhador que era naquela feira onde gastava todo o seu dia, vendendo frutas pra ganhar o pão.
A gente sempre passeava depois da feira, mas o José adorava me ver. Gostava de me ver trabalhando, de me ver em casa, de me ver na rua passando pra entregar uma trouxa de roupa, gostava de me ver dormindo... Triste foi o último dia que eu o vi.
Ainda na escola conheci o João. Todo mundo conhecia o João, era o justiceiro do colégio, o mais bonito e mais forte, o que tinha sonhos tão grandes quanto os medos que o tornavam um arruaceiro... O João queria ser como o Pelé, a cor da pele ele tinha, mas quem não tem tanta sorte acaba na construção, o João virou pedreiro e capoeirista: o primeiro pelo destino, o segundo pelo ódio do destino.
Ninguém gostava do João, somente o José.
O grande problema é que o José nem sonho tinha, eu queria ir pra faculdade, ele queria casamento, eu queria fazer dança, ele queria ter sete filhos. Isso não é sonho. Nem imagino com o que ele sonharia se ainda pudesse sonhar hoje... O José só deu asas à mente quando a mente lhe mentia; cigana traiçoeira é a mente: quer lhe relembrar o passado, quer lhe mostrar um futuro, nunca se sabe se é o seu. Eu tinha medo do futuro, medo de perder o José, medo de esfolar a mão esfregando pro resto da vida... Não vou mais.
Eu já andava pensando, e o João até me alertava: dizia que arriscar é bom, me chamou pra capoeira, mas o José não gostaria... O José gostava de parque, de roda gigante, só no final de semana quando aparecia. Eu estava cansada, meu pai morreu e agora era o José que me cercava. Recusei o convite, pro parque também não iria. Estava feito. Gota d’água.
O José não aceitou, queria passeio, queria compromisso, queria continuar sempre me vendo. Eu disse não. Ali foi um adeus.
José agora já não gritava brincalhão pros fregueses na feira, eu andava estudiosa, queria prestar vestibular... O João marrento me ajudava, não era tão mal assim, dizia que se regenerara, e nem brigava mais.
O parque voltou, a minha prova era na segunda-feira, foi o João que sugeriu: “- É pra descontrair, relaxar um pouco...”
Eu disse um sim, ganhei uma rosa, fui tomar sorvete, esquecer o José que eu já não via. Mas o José também precisava espairecer, esquecer a Ju que ele desesperadamente queria.
Não deu outra: Eu queria o sorvete, o João a companhia, mas o José queria mesmo continuar me vendo...
Eu via o parque e a roda gigante, o João uma moça bonita, o José um ex-amigo e duas traições. José via a rosa, criava um mundo, a roda gigante e mais dedução, olhava o sorvete e sentia arrepios.
José ainda me via, mas não era assim que gostava de estar me vendo. (Juliana!) A roda gigante girava e era José que entontecia. A rosa dizia de amor, o parque era cenário macabro, era o destino chamando José, sussurrando histórias, criando confusão.
Reluz uma faca, derrama-se o sorvete (morango é vermelho, o coração é vermelho, o amor de José também era vermelho).
José foi o último que vi, João o segundo a cair e José o terceiro que jazia morto, morto em si, morto sem mim... Morto de pé, com sangue na mão, no parque, naquele domingo.
E na segunda não tem mais feira, nem construção.
Ê José, ê João.
Posso dizer que conhecia cada ondulado de seu cabelo, cada cicatriz de suas pernas, cada um dos três tipos de sorriso que eles esboçava... Mas não foi o suficiente.
Nos conhecíamos desde as ultra-sonografias de nossas mães, amigas de condomínio... Ambas eram empregadas domésticas de patroas também amigas num mesmo andar. O José veio primeiro, quase dois meses depois nasci eu, (que ele chamava Ju quando brincava, Juliana quando repreendia) cheguei um pouquinho mais tarde, com mais dor, talvez um prelúdio apenas.
É um perigo imenso vidas tão entrelaçadas.
Não é que a gente namorasse desde sempre, a princípio eu gostava apenas como ele me olhava, como falava comigo e o jeito que cuidava tanto de mim... O José estava certo, eu já devia a minha vida a ele.
O meu pai morreu e foi a mãe dele que nos deixou também... O mais estranho é que eles dois estavam juntos e, desde então, os nossos pais que sobraram não se encaravam mais. O fato é que ele me amava, o meu José me amava. Amava com uma devoção infantil, com um calor abrandado pelo cuidado, com o esforço do trabalhador que era naquela feira onde gastava todo o seu dia, vendendo frutas pra ganhar o pão.
A gente sempre passeava depois da feira, mas o José adorava me ver. Gostava de me ver trabalhando, de me ver em casa, de me ver na rua passando pra entregar uma trouxa de roupa, gostava de me ver dormindo... Triste foi o último dia que eu o vi.
Ainda na escola conheci o João. Todo mundo conhecia o João, era o justiceiro do colégio, o mais bonito e mais forte, o que tinha sonhos tão grandes quanto os medos que o tornavam um arruaceiro... O João queria ser como o Pelé, a cor da pele ele tinha, mas quem não tem tanta sorte acaba na construção, o João virou pedreiro e capoeirista: o primeiro pelo destino, o segundo pelo ódio do destino.
Ninguém gostava do João, somente o José.
O grande problema é que o José nem sonho tinha, eu queria ir pra faculdade, ele queria casamento, eu queria fazer dança, ele queria ter sete filhos. Isso não é sonho. Nem imagino com o que ele sonharia se ainda pudesse sonhar hoje... O José só deu asas à mente quando a mente lhe mentia; cigana traiçoeira é a mente: quer lhe relembrar o passado, quer lhe mostrar um futuro, nunca se sabe se é o seu. Eu tinha medo do futuro, medo de perder o José, medo de esfolar a mão esfregando pro resto da vida... Não vou mais.
Eu já andava pensando, e o João até me alertava: dizia que arriscar é bom, me chamou pra capoeira, mas o José não gostaria... O José gostava de parque, de roda gigante, só no final de semana quando aparecia. Eu estava cansada, meu pai morreu e agora era o José que me cercava. Recusei o convite, pro parque também não iria. Estava feito. Gota d’água.
O José não aceitou, queria passeio, queria compromisso, queria continuar sempre me vendo. Eu disse não. Ali foi um adeus.
José agora já não gritava brincalhão pros fregueses na feira, eu andava estudiosa, queria prestar vestibular... O João marrento me ajudava, não era tão mal assim, dizia que se regenerara, e nem brigava mais.
O parque voltou, a minha prova era na segunda-feira, foi o João que sugeriu: “- É pra descontrair, relaxar um pouco...”
Eu disse um sim, ganhei uma rosa, fui tomar sorvete, esquecer o José que eu já não via. Mas o José também precisava espairecer, esquecer a Ju que ele desesperadamente queria.
Não deu outra: Eu queria o sorvete, o João a companhia, mas o José queria mesmo continuar me vendo...
Eu via o parque e a roda gigante, o João uma moça bonita, o José um ex-amigo e duas traições. José via a rosa, criava um mundo, a roda gigante e mais dedução, olhava o sorvete e sentia arrepios.
José ainda me via, mas não era assim que gostava de estar me vendo. (Juliana!) A roda gigante girava e era José que entontecia. A rosa dizia de amor, o parque era cenário macabro, era o destino chamando José, sussurrando histórias, criando confusão.
Reluz uma faca, derrama-se o sorvete (morango é vermelho, o coração é vermelho, o amor de José também era vermelho).
José foi o último que vi, João o segundo a cair e José o terceiro que jazia morto, morto em si, morto sem mim... Morto de pé, com sangue na mão, no parque, naquele domingo.
E na segunda não tem mais feira, nem construção.
Ê José, ê João.
Ps.: Esse conto foi feito a princípio por mera obrigação:
foi uma atividade avaliativa da Disciplina Lingua Portuguesa VI, lá da UEFS.
A profa Norma Soeli exigiu que transformássemos em prosa o enredo da música
(homônima a esse conto) do G. Gil...
Se vc conhece a música, fica mais bacana pra sacar as coisas,
mas se não conhece
(vale à pena pesquisar, é um super clássico do Gil,
e eu nem gosto muito das músicas dele)
tudo bem...
Cada um faria ao seu modo,
desde que com o limite de linhas e mais umas coisas que ela determinou;
eu escolhi que a Juliana narrasse o acontecido... Deu isso aí...
Tirei nota máxima. \o/
5 comentários:
Oi,linda
Nem sei como vim parar qui,mas adorei!
Conheço a música do Gil...parece que participou de um dos Festivais da Canção dos anos 60..
O conto foi muito interessante e retrata mesmo aquele Domingo no Parque.
Bjs
Nossa.
*_____*
Que legal.
E que final hein...
Gostei demais, meus parabéns.
Até mais.
opa, eu sei como vim parar aqui, vi seu comentário no blog do Bruno.
é, vou ficar de fora... mas valeu pela visita...
abraço.
Amiga, já havia lido a sua adaptação e gostei bastante!
Realmente, só faltava postar aki!!
PARABÉENS, sou fã d+, bjãao!
oie gostei do seu conto ate por isso vou dar umas encrementadas nele e passar num papel e entregar pra prof. é claro nao vou copiar o seu mais vou seguir esse mesmo ritmo!!!!!!!!!!! tah otimoo parabens sou d campo mourao- parana
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