Reparou que estava bem arrumado, não era muito alto e usava sapatos recentemente engraxados; reparou que seu cabelo curto era de corte simples e bem feito... Sinal de praticidade. Especulara também a sua idade “por volta dos vinte e cinco” sentenciou. Seus cílios eram grandes, mas a sua aparência era mediana, “jeitosinho” como diria a sua mãe.
O que havia dado nela?! Perguntou o seu bom senso. Primeiro desconcertara-se e abandonara o Pessoa, agora se esquecia do Lessa por um desconhecido que nem a encarava mais?! Aliás, porque será que ele não a encarava mais?! Porque de repente o livro se lhe tornou tão interessante?!
Liana não queria admitir, mas como é comum nas mulheres, estava com seu orgulho ferido. Primeiro ele chega não se sabe de onde e a perturba por inteiro cravando-lhe aqueles olhos escuros, disfarçados por aqueles cílios enormes, e depois de tê-la afrontado tanto, agora se fazia de sonso e inocente, sem sequer erguer o queixo para uma única olhadela!
Era demais!
Se pudesse falar com Ingrid, a amiga concordaria com o desacato.
E mais tempo se passou em que a moça não lia e o jovem que apenas mudava ocasionalmente a posição dos cotovelos, avançava página após página.
Liana não era dada a grandes devaneios, amava as literaturas, mas foi sua objetividade que fez atender ao sonho de sua mãe, que de tanto ver tribunais nas novelas, queria filha advogada. Seu desejo mais secreto (menos para Ingrid) era o de lecionar, ensinar artes em alguma escola... Mas como sempre comentava sua mãe: “professores são verdadeiros loucos, morrem pelo trabalho que mal lhes garante o pão”. Liana queria ser obediente e também precisava de dinheiro. Decidido: seria advogada e quem sabe, uma promotora no futuro.
Mas nesse momento, tudo que lhe ocorria, era entender a mente daquele ser desafiador que lia “A hora da estrela” defronte dela.
Liana não tinha amores. Talvez porque fosse ensimesmada demais, talvez porque tivesse privando-se por medo, ou talvez pelo motivo mais óbvio: não era do tipo que atraía os garotos. Mas naquela manhã, naquela biblioteca, (como ela queria que Ingrid estivesse ali) ela descobrira um alguém.
Um alguém de quem nem sabia o nome, mas sabia que gostava de ler, e de ler Lispector! Alguém que dispora de seu tempo numa biblioteca e que (vale citar) a tinha encarado exaustivamente tempos atrás.
Era a elucubração adolescente, que batia de forma tardia às portas do imaginário daquela jovem.
Liana agora inquieta na sua cadeira: ajeitava os óculos, batia com o lápis na mesa, mexia-se e pensou até em mudar-se para a mesa da frente... Mas certamente descartou tal hipótese, não teria coragem.
Sempre o tempo para nos jogar na cara a concretude de nossos dias: mesmo contra a vontade, ela percebeu que dali a quinze minutos, teria de ir embora, de voltar para casa sozinha, sem saber se veria o moço de olhos penetrantes novamente.
Ps.: Dessa vez o PS é só pra dizer: Caraca! Tem doido pra tudo, num é que leram o texto mesmo?! rsrs Obrigada pelos coments, em breve ponho a parte final.
keu azevedo
Sou egocêntrica e de um humor às vezes ácido, às vezes imbecil. Tenho péssima memória e uma timidez inconveniente. Meio desajeitada, meio lerda, nerd simpatizante. Com uma forte tendência melancólico-saudosista e uma paixão descomedida por Literatura. Gosto de estar certa, gosto de ser mimada e tenho PHD em longas esperas. Cuidado: sou altamente instável, nasci potencialmente predisposta à falhas de execução.
28 de janeiro de 2009
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6 comentários:
E alguém ia ser bobo de não ler?Tá bão demais!!!!
TAmbém tô gostando de ler!
AH!E o que me diz do desfecho do conto lá no blog?
Real?Muito água com açucar?Merecia uma continuação ...tipo season 2 - a missão?
Bjs
AH!Entre a lágrima e a esperança quer dizer (O que eu quis dizer)é que não sei se desato no choro ou me agarro na esperança de não precisar masi chorar...e que tudo vai passar...entendeu gatona????rsrsrsrs
E a mocinha da historinha da loira...é parecida mais pra mais ou mais pra menos com vc?
ops... li mesmo! mas não sou doido. algo parecido pode ser.
deu mole, deveria ter ido e ver no que dava. essa refugada pode ser cara.
vamos ver no que vai dar isso aí!!
abraço.
Loucura seria deixar de ler esse seu conto.Está bem escrito,com uma trama ambientada em um lugar interessante,com personagens de bom gosto intelectual e,pelo jeito,
com afinidades que podem levá-los a
mais do que um simples encontro.
Parabéns por seu talento.
Um abraço.
Nossa...me vi em situações assim tantas vezes...que dá até raiva da total incerteza...
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