O que fazer? Liana cogitava coisinhas infantis.
Entristecia-se antecipadamente e já lamentava: como tudo em sua vida opaca, aquele rapaz seria somente um pingo de tinta que rebelde desprendeu-se da pena, mas morreu em cima de alguma palavra, num lugar que não lhe pertencia, e sendo maldito por estar ali.
Como de costume, estava conformando sua mente e aquietando seu coração menino, (ela sempre se conformava).
“As chances de que ele nunca mais voltasse àquela biblioteca eram imensas!” bradava a lógica.
Liana fechava o livro de que nem tomara nota e preparava-se para sair, quando o céu se abriu sobre a sua cabeça: Com o barulho da cadeira enquanto ela se levantava, o moço (moço da Liana) erguera o rosto e lhe olhara novamente. Mais baratinada do que nunca, e como não soubesse o que fazer, Liana fez a única coisa que lhe atenuava a expressão sorumbática: sorriu. Sorriu um sorriso tão sincero e desconcertado, que o outro tranqüilo e resoluto, lhe sorriu abertamente de volta.
O tempo parara e os livros que a circundavam ficaram todos em branco... Havia apenas uma luz: a luz daquele sorriso largo e sem som. Liana estava apaixonada.
Tinha medo de fazer mais algum movimento e cair da cama (era sonho, deveria ser) e aquele jovem inominado, era o seu par, como o das comédias românticas que tanto assistia...
Pôs o Lessa no lugar, agora era ela que vivia um conto.
É certo que o veria amanhã e depois, e depois...
Ele lhe sorrira! Sinal de que também entendia de tudo isso.
Passou devagar ao lado dele e pelo canto dos olhos pode perceber que ele ainda mantinha na face os fios daquele sorriso de instantes atrás; mas ela não esboçou mais nada, não queria estragar tudo, amanhã o veria, sim, o veria decerto.
Pegou suas coisas e saiu sem olhar para trás.
A jovem reclusa e demasiadamente aplicada havia dado lugar a uma moça qualquer, que sonhava ser bonita, ser livre, ser amada... Amada sim, porque não?
Agora Liana caminhava como que nas pontas dos pés. Assim que Ingrid soubesse... Não acreditaria, nem ela mesma acreditava...
Foi uma buzinada forte e prolongada que a despertou, e numa fração de segundos, Liana que atravessava a rua embebida por amor, estava estendida no chão, com sangue que lhe desenhava algo abstrato no peito e lhe respingava no rosto.
Não discernia tanto barulho, uns gritavam, gente corria, carros freavam e ela não sentia muito mais... Alguém havia se aproximado, e o cheiro de sangue a deixava ainda mais tonta...
Não podia enxergar direito (perdera seus óculos), mas reconhecera um traço, um traçozinho só...
Eram os mesmos cílios grandes e aqueles olhos... Agora trêmulos, diferentes de outrora. O dono pedia-lhe calma e que respirasse, mas ela não podia fazer muito...
Queria apenas saber uma coisa... A jovem tentava esboçar uma pergunta, mas algo enchia-lhe a boca e escorria quente por todo o seu corpo...
Vamos lá Liana, incentivava-lhe Ingrid, e pela amiga que ela via animada, esforçou-se uma última vez:
- Qual o seu nome?
Perguntou entrecortadamente.
- Qual o seu nome? Repetiu rouca, começava a sentir dor.
- Fernando. Respondeu o moço de olhos fitos nela.
- Como o Fernando Pessoa... Comentou e tossiu, a dor aumentava.
- Fique calma, respire.
Dizia o rapaz e Liana quase não o ouvia.
Repetia para si: Fernando, Fernando, Fernando...
Ainda naquele asfalto gasto, na frente da biblioteca, Liana se foi.
Ela não irá mais ler todas as manhãs, nunca saberá muitas coisas sobre Fernando, sua mãe também não terá uma filha advogada. Mas naquele dia, por algumas horas, Liana experimentou o que é amar.
Ps.: Povo: Olha só, esse conto tem traços bem auto-biográficos, mas não é tudo. Quem me conhece, percebeu fácil...
Quem já leu "A hora da Estrela" entendeu a minha inspiração...Se é que posso chamar assim. O fato é que sou meio Shakespereana...Tenho uma queda por mortes no final.
keu azevedo
Sou egocêntrica e de um humor às vezes ácido, às vezes imbecil. Tenho péssima memória e uma timidez inconveniente. Meio desajeitada, meio lerda, nerd simpatizante. Com uma forte tendência melancólico-saudosista e uma paixão descomedida por Literatura. Gosto de estar certa, gosto de ser mimada e tenho PHD em longas esperas. Cuidado: sou altamente instável, nasci potencialmente predisposta à falhas de execução.
30 de janeiro de 2009
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7 comentários:
Quer me matar do coração guria????
Mais eu gostei.Mesmo odiando quando alguém morre o melhor são esses....tipo "um amor para recordar"!!!Ai que cruel!!!!he he he...quando ao poema!!!Pode ficar sim!!!Entrego ele pra vc fazer o que quiser!!!Bjs!Te cuida gatona!!!
Ahh...que sacanagem isso!!
Eu odeio finais "certinhos", mas tinha que ser tão malvada??
Amei!!!!
^^
Obrigada, suas palavras foram muito sábias!
e quanto a toda momento para as coisas debaixo do sol..nunca eu compararia a Palavra de Deus com Paulo Coelho!Não há o que comparar!
Obrigada mesmo e fique tranquila, já fui atrás de cursinho hoje...mas me conta qual foi o curso que vc fez?
beijos
nossa. valeu a pena hein. só não serviria para ir para televisão. hehehehe. morte no final não funciona. mas eu gostei. adoro mortes no final!!
abraço.
Bom, mesmo longe ainda passei por aqui..naum podia deixar de acompanhar a saga de liana neh...
ahuha
Td bem q te considero uma serial killer....mas temos que conviver com as diferenças neh..hauha
abraçoz
Respondendo pra Nathi: Tô terminando o sexto período no curso de Letras Vernáculas... Se Deus quiser, já já me formo! hehehehe
Adorei todas as palavras que li.
Voltarei mais vezes.
Abraço!
...e até mais.
=D
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