19 de dezembro de 2008

Um começo

Postado por Keu Azevedo em 19.12.08


Eram classicamente onze horas.
Nina olhava a janela entreaberta com um misto de temor e orgulho ferido.
O que fazer agora?
Suas mãos suadas deslizavam enquanto ela as esfregava, piscava aceleradamente, mas seu coração tinha um compasso estranhamente lento, compasso fúnebre...
Em breve Sinho chegaria, sempre o mesmo Sinho.
Ela estava sozinha em casa, sozinha na rua, talvez sozinha pra sempre.
Mais umas três piscadelas nervosas... Tão diferentes das que costumava esbanjar noutras noites.
O ponteiro dos segundos se remexe com desdém, ri de Nina, de sua cara opaca e seu cabelo tingido.

Onze e cinco.
Nina sente um torcicolo, torcicolo inventado pela massa cefálica angustiada.
O que fazer?
Esse Sinho que não chega... Mas e se chegar? O que fazer?
Nenhuma resposta, apenas uma chave girada com barulho discreto.
Era a Marta, o que se pode convencionalmente chamar de amiga.
Olha Nina com aquele olhar de reprovação, olhar de mãe quando filho quebra o vaso da estante, olhar de torcedor quando o atacante perde aquele gol feito.
- Marta... (começa a moça ao ver a amiga)
- Então você finalmente apareceu.
- Marta...
- Você não me deve explicações Nina (interrompeu a outra)
- Mas eu quero, eu preciso te dizer...
- Não, não precisa. Na verdade você não tem a mínima noção do que realmente precisa agora.
Marta não era do tipo inteligente, mas sabia ser austera quando necessário.
Nina suspira e fecha as pálpebras já cansadas de subir e descer tantas vezes.
A amiga continua:
- O Sinho...
Desta vez é Nina que interrompe, como que arrancada de um devaneio precipita-se até Marta:
- Eu ainda não contei a ele.
- Ele tem que saber, é grave, penso que dessa vez ele não te perdoa.
- Não digo, então.
- Não cometa mais uma burrada, pense no casamento... Você viveria com esse peso?
- Todos os casais tem segredos.
- Mas nem todas as esposas matam.
- Eu não ma...
Não pode completar, alguém batia na porta... Talvez fosse Sinho...
Se ainda fosse possível piorar, Marta perceberia que Nina empalideceu.
- Nina, vou para cozinha, vocês precisam conversar...
- O que eu faço? Interrogou sentindo as garras frias do desespero lhe arranhar as costas.
- Faça agora o mínimo, diante da tolice que você já fez.

Onze e dez.
Mais batidas, mais força, mais som... Agora uma voz que lhe evocava.
- Nina! Nina! Ninaaa!
Era o Sinho, sempre o mesmo Sinho.
Nina agora febril, queria estar em outro lugar, de outro jeito, com outras confissões. Arrastou-se como pode, sua nuca doía e seus dedos estavam dormentes.
Abre a porta.
- Onde você estava? ... Nossa! Levou tanto tempo pra abrir que eu achei que já tinha dormido... Você me ligou tão esquisita, fiquei preocupado.
Discursava Sinho enquanto entrava.
Nina nem tentou esboçar sombra de sorriso. Para ela era frio o ar, fria a hora, frio aquele homem moreno e magro que estava diante dela.
Sinho era mais jovem do que aparentava, o tipo de homem falante e sério, sempre de barba bem feita, sempre disposto a ajudar, sempre bom camarada, sempre o mesmo Sinho.
- O que você tem? Parece que viu assombração... Você some por quase uma semana e volta ainda mais pálida... Não me diga que tá fazendo aqueles regimes malucos de novo...
Sinho quer tocá-la, mas Nina se esquiva. Como cobra na areia quente do deserto, ela desliza tonta, esgueirada.
- Confesso que esperava recepção um pouco melhor.
Resmunga ele enquanto senta, muda então o tom.
- Você não vai me dizer o que tem? Porque sumiu, não telefonou, nem avisou que ia viajar...?
Respira, ajeita-se no sofá e continua:
- Estou tentando ser mais tolerante com você. Sei que precisa de espaço, de seus amigos, suas coisas... Mas não posso fechar os olhos pra tudo que você faz...
Nina que procurava forças para sentar-se também, ergue os olhos como que ordenando-os a esclarecer tudo, a ser língua.
Passa a mão pela testa, sua franja agora está úmida.
Senta-se sem um ruído sequer. Sinho se aproxima.
- Nina, não quero agir como um insensato, mas preciso que me diga a verdade.
Era difícil para ele perguntar.
- Você não... Digo, você não... Você andou fumando?
Estava dito.
Nina que respirava mal, agora hesitava mais ainda... Apenas sacudiu a cabeça negativamente.
- Minha querida!
Dissera Sinho enquanto abraçava a moça.
-Tenho medo de te perder, tenho medo que aquele fantasma volte a nos rondar... Quero você pra mim Nina, por toda a vida, entende? Pelo resto da minha vida, entende?
Nina não exprimia reação alguma, doía-lhe a alma, comprimia-lhe todo aquele afeto.
- Eu te amo... Perdoe-me por duvidar, eu... (não pudera completar, fora traído por sua própria emoção).

Onze e vinte.
Aquilo já era demais.
Nina sentia gosto de fel enquanto cólicas faziam-na robótica. Mas era hora de acabar com tudo. Não suportaria muito mais.
- Sinho...
Começou num balbucio.
O apaixonado então se afastou um pouco, precisava contemplá-la enquanto ela falava.
- Eu...
As palavras eram como facas, navalhas afiadas que rasgavam-na desde as amídalas... Era mais que doloroso falar, era agonizante.
Foi Sinho que encorajou:
- O que são três ou quatro dias diante de uma vida juntos? Olha, o que você fez... Eu posso perd...
- Não... Não! (Grunhiu ela)
- Você não sabe... (Nina tentava, mas os cantos de seus lábios já bebiam lágrimas quentes)
- Então me diga (implorou aflito o rapaz)
- Eu matei ele Sinho... Eu matei... Eu matei e depois o vi...
Eram agora em tom de delírio suas palavras.
- Eu não sentia, mas eu o vi... Matei e matei o nosso sonho também... Eu tive medo, medo, medo... De tantas coisas... Eu não podia te contar, eu...
Soluçava, sua voz esvaia-se e seus lábios tremiam em sincronismo com todo o seu corpo.
O noivo que nada compreendia, na tentativa de acalmá-la a tomou para si...
Nina agora dizia coisas sem sentido. Estava enferma deveras.
Sinho atordoado quis reanimá-la, mas notou quão espesso era o borrão de sangue que envolvia suas coxas...
Sangrava e gemia.

Onze e vinte e cinco.
Um grito de pavor foi ouvido do outro cômodo. Marta em segundos estava ali, Sinho mal conseguia falar...

Onze e trinta e dois.
Era Marta que dirigia.
Quase meia-noite, pista limpa.
Estariam logo no hospital.
Sinho estático com a amada no colo; fora de si; enfurnado num pesadelo, não se movia.

Três e trinta e cinco da madrugada.
O médico aparece.
O que aconteceu? Marta sabia. Sinho temia.
Hemorragia, disse o médico.
Os olhos do noivo só não saltavam mais que seu coração.
Aborto clandestino, um perigo. Prosseguia o profissional.
Quatro meses, ela confessou.

Marta baixou a cabeça.
Sinho contra vontade anuviou o olhar.

Já pode entrar, a moça descansa, finalizou o médico.

Três e quarenta e sete.
Marta pega o casaco e vai em direção ao corredor...
Sinho não se mexe.
- Você não vem? Pergunta.
E pela primeira vez na vida Sinho responde como homem:
- Não.

4 comentários:

Anônimo disse...

Um conto bem escrito. Acho interessante a postura final do Sinho, desenhando na sua resposta que não mais vai vê-la, pois a ele aborto é um crime. Acho que o aborto deveria ser liberado, pois há casos em que é necessário e há casos que a pessoa quer, é escolha dela, ela que o faça e se houver um Deus a olhá-la, o que quer que seja que ela creia, ela conversa com ele sobre a sua escolha e os outros (sociedade) não tem nada a ver, até porque o feto, o bebê não tem nada a ver com a socidade, não tem ligação com ela ainda, logo ele não tem direitos, mas a mulher que o gera tem e ela escolhe o que quer. É bem complicado esse assunto e longo para que delineie a minha opinião aqui. :)

Abraço,

R.Vinicius

Keu Azevedo disse...

Respeito a sua opinião...
Mas eu não gostaria de ser esse feto abortado!
Penso que essa criança que ainda não têm vínculo c/ a sociedade já existe...E se eu tiro a vida dela...Matei!
O direito à vida (ao meu ver é claro) independe da sociedade e de direitos humanos...
Por isso também sou contra a pena de morte (mas isso é outro assunto) o pior assassino pode se regenerar (eu creio assim) e o feto gerado de um estupro por exemplo, pode vir a ser um ganhador do Nobel; ou apenas uma criança comum...
Mas o mais chocante é o seguinte: ainda que a mãe mate o seu filho, há perdão para ela!
Quem disse que a GRAÇA é justa?!
Se fosse eu estaria...Bom, prefiro num comentar! huahuahua
rsrs

À PÉ ATÉ ENCONTRAR disse...

Ei!
Eu tinha comentado aki...O que houve com meu comentário??
Rai aii!

Keu Azevedo disse...

Oxeeee! Fiz nada não Ana!
Vai ver tu num postou, deu algum erro...Seu coment não chegou até o meu conhecimento!

 

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