9 de março de 2011

Little Girl

Postado por Keu Azevedo em 9.3.11


Regida por uma certeza embolorada, aninhava-se nas cobertas.
Contorcia-se e lembrava. Por que havia de ter memória? Tinha. Eram sentimentos cristalizados: um desejo salinizado, uma tristeza levemente apimentada por uma consciência não muito limpa.
Pensava na abrangência das coisas: no indo, no vindo, no findo. Esses monólogos mentais de idas, voltas e finais... Entorpeciam.
Caridava-se com pequenos ‘tudo-vai-ficar-bem-amanhã-pode-ser-melhor’ sempre que começava a esmorecer. E embora a vida quase sempre não lhe sorrisse, satisfazia-se com os pequenos risos que dela arrancava à custa de algumas cócegas imbecis.
Havia muito que deixara pessoas amarelecendo no fundo do seu armário, havia muito que encerrara caminhos e diligentemente escorreu - noite após noite - por alguma fresta... E derramada, evaporara-se num dia de sol qualquer.
Tinha aquela pitadinha excêntrica de tédio que deixa pessoas mais saborosas: importantificava genteS, ignorava fatos, pintava mundos preto-e-branco e barganhava consigo mesma os prazos que se impusera.
Esperava ensejos que não vinham enquanto falava da importância de agarrar-se à vida que enuava-se na sua frente.
Não tinha variedade de assuntos, nem de caras. Mas era de uma pungência gostosa às segundas-feiras e de uma sobriedade áspera aos domingos.
Pensava milhares de ‘merda!’ durante o dia que não ousava pronunciar, substituindo sempre por uma cara oca e um repuxar insuportável de lábios.
Calçava os chinelos preguiçosa, deixava o telefone tocar... Tomava um café forte sem ressaca. Enjoava as horas e então passava a brincar com o controle remoto, sentada com os pés em cima do sofá e os joelhos formando um muro frágil escondendo o próprio corpo. Respirava devagar. Pensava em atrasos, em qual lua estava, nos filmes empoeirados da locadora da esquina.
E pensava em amor. E como em se tratando de amor estamos ilhados, esperando sempre que alguém pegue o barco e decida remar até nós.
Fez apostas e planos silenciosos. Quis. Quis com um querer canibalesco perder o juízo, subjugar as impossibilidades que lhe cuspiram, beijar as promessas e aceitá-las de volta, tragar lenta e profundamente uma prece para morar dentro de si, e ali permanecer pra ser ruminada em tempos difíceis.
Sabia que não chegaria a conclusão nenhuma. Decidiu tomar um banho. Logo alguns sais, o cheiro bom e amofinado da cama se misturando à fumaça, a água morna escorrendo verdades abaixo... Soltou os cabelos molhados e saiu.
Estava acontecendo de novo: deixou que o vento menino lhe secasse o cabelo e lhe bulisse o vestido, enquanto pisava nas páginas do seu próprio livro... Escrevendo naquela tarde cinza mais um trecho grifável.


“Far far, there's this little girl
she was praying for something to happen to her
everyday she writes words and more words
just to speak out the thoughts that keep floating inside
and she's strong when the dreams come cos' they
take her, cover her, they are all over
(…)
Far far, there's this little girl
she was praying for something good to happen to her
from time to time there're colors and shapes
dazzeling her eyes, tickeling her hands
they invent her a new world with
oil skies and aquarel rivers…”
-  Yael Naim 


3 comentários:

Anônimo disse...

Digno!
E uma salva de palmas para o título!
Só posso dizer que valeu a pena esperar.


"Everyday she writes words and more words.
Just to speak out the thoughts that keep floating inside"

Inaí de Souza disse...

Incrível como esse seu texto me atingiu: em cheio, vagaroso e intenso.
Reconheci-me nas tuas palavras e, particularmente, adoro quando isso ocorre.
Bjs, flor. E parabéns, você escreve muito bem!

Rodrigo Garcia disse...

Quando recuperar o fôlego eu volto!

 

...Toda Querança... Template by Ipietoon Blogger Template | Gift Idea