19 de agosto de 2010

Planante

Postado por Keu Azevedo em 19.8.10

Tenho vontade de celebrar a loucura das coisas.
Cada dia embeca-se para esfregar a lucidez na minha cara, por isso fico querendo flertar com o incomum.
Invento histórias, crio realidades, me disperso... Talvez porque o escape é mais saboroso, suculento... Alimenta e não sacia, escorre em desejo diluído pelos cantos da boca.
Sou muitas pessoas. Todas criadas nalgum instante de necessidade ou prazer.
Não me confunda nem me limite. Externo apenas o que sobeja. Há ainda um universo borbulhante escondido entre as mechas dos meus cabelos.
Posso ser o atroz que decapita e a língua que entrelaça(-se, -te).
Posso ser a página avelhada que você passa, a silhueta esguia que você sopra da memória...
Posso ser a mão que plaina teu corpo ou o ranço indigesto que não sai da tua boca.
Não (me) acuse. Não se esquive.
Vamos brindar qualquer coisa, dançar uma moda, martelar o mundo!
Carpintemos essa paródia cotidiana com as lixas sentimentais. Pieguemo-nos e esfolemo-nos até altas horas da madrugada; vivamos a inconstância da felicidade trivial.
Comuniquemos melodias, contrariemos a lógica de não contrariar a si mesmo.
O que sustenta as tábuas de uma vida medíocre é a porção de curvas que você não fez, os goles e mais goles de medo que você tomou.
Contorço-me como quem agoniza enquanto expilo cada palavra: filhotes de sangue do reino temperado, localizado precisamente, na intercessão do cérebro e coração.
Em nudez completa apresento vários corpos. Todos meus. Paridos, suados. Imperfeitamente, minha forma de resistência a essa solidez desordenada que nos cerca.

Sou um croqui.
Preto e branco, deitado à tua frente.
Cubra-me com tuas cores,
mas não borre os meus traços.
Tenho um talhe que é só meu.

4 comentários:

Daniel Savio disse...

Penso que cada uma terá a sua própria resposta perante a estar frente a frente o enigma que chamamos ser humano (então não adianta muito pre julgar)...

Fique com Deus, menina Keu Azevedo.
Um abraço.

À PÉ ATÉ ENCONTRAR disse...

Meu Deuuuuuuuuuuus!
Filha, sua escrita está paradoxalmente divinal e me toca deveras, porque quando falas da complexidade do ser humano e das suas várias vestes e máscaras para cada situação, na intenção de uma vida amena, eu me vejo aí, tantas vezes olhando para o teto, pensando em tudo isso que vc escreveu, inclusive ao te ler, me peguei lendo em voz alta, coisa que não faço, como que ensaiando para uma peça teatral.
Cada dia que passa estou mais íntima da Keu que escreve versos assim...
Beijos.

Pimentah disse...

VC ME LEMBRA ROLAND BARTHES, SABER E SABOR.
ADMIRO DEMAIS.

Shi disse...

Intensidade é o teu nome?

Dá pra ficar perdendo um tempão, lendo e relendo esse texto... sem cansar.

Beijocas

O twitter não faz mais parte da minha vida, mas, te leio sempre, querida!

Shi (MeiasVerdades)

 

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