Estou escrevendo como quem sangra. Vermelho.
Palavras jorram através da caneta e tingem languidamente esse papel comum.
Tão comum...
Do meu bolso.
Papel que é receptáculo de meus pensamentos e meus olhos.
Mas meus pensamentos são borrões escuros, escrever é dispô-los. Cada um enxerga a figura que quer.
Borro papel numa sala clara, e movimentada sem luxo.
Um homem come, uma senhora me olha e crianças mal-educadas sambam pra lá e pra cá.
A TV mostra gente bonita e eu não olho pra TV. (As pessoas tão bonitas ficam cinzas. Não gosto de cinza assim como não gosto de chuchu).
Olho pro papel que morava no meu bolso, agora borrado com minha caligrafia de professora. Nem boa nem ruim, de professora.
Ao fundo tilintar de pratos e copos, cadeiras arrastadas sem pudor e uma música brego-regional. Não gosto também.
Música e gente parada é uma combinação chata. Música e gente conversando em salas com homem comendo e senhora encarando, também é chato.
No início a música me irritava. Agora como sempre, adaptei-me. Convivo com ela, com a música. Eu sempre convivo com as coisas.
E agora até convivo com pessoas e crianças numa sala.
Seria hora do jantar. Não vou jantar. Estou nessa sala de luzes amareladas sujando um papel.
Hoje eu vi o pôr-do-sol (antes dessa sala). Inacreditável é saber que ainda existem coisas lá fora. Essa sala cor de gema é esperta, engana a gente.
Era tudo laranja no pôr-do-sol. Tudo laranja-tecido lá fora.
Engraçado como o laranja antes e depois dessa sala é diferente.
Era uma despedida grandona do Sol. Mas essa sala é pequena. E ninguém vai embora.
A sala é de um amarelo que nem pisca.
O homem não está mais comendo... Mas tem uma cara tarada de quem está louco para lamber os dedos.
A senhora não está mais interessada em mim. Ela pinta o cabelo. Bom, não é por isso que ela não está mais interessada em mim. Ela está narrando alguma coisa que nem me interessa. Narra sem tirar os olhos da TV.
Eu nem vou retribuir o antigo olhar dela. Não assinei promissória de olhar pra quem me olha, só se for de desvio, por acaso.
Querendo que eu olhe, eu não olho. Principalmente em salas com luzes que amarelam até o meu ex-papel guardado.
Querendo que eu olhe, eu não olho. Principalmente em salas com luzes que amarelam até o meu ex-papel guardado.
Ela não narra pra mim. Estou cansada de crônicas e de salas tendenciosamente feitas para o doutor visão amarela.
Estou engabelando o tempo melando papel.
As crianças não calam a boca. E correm. Não gosto mais de crianças. Essas da sala amarela principalmente. Não gosto de crianças que falam e que correm.
Acho que não gosto de crianças quando amarelas assim. Deve ser a luz da sala.
Eu gostaria de um jantar. Mas não gostaria de comer nessa sala de TV, senhora, homem e crianças.
Deve ser por causa do tilintar que não se permite interromper... Ao fundo.
Ou porque, mesmo desvirtuando o papel, eu saiba da hora. Das horas. E de que essa seria a do jantar.
Tenho caneta e também o Vento aqui. (vento todo saliente pro meu papel borrado e ex-dobrado que se abrigava no meu bolso).
O Vento parece macio na sala. O vento não amarela por causa dela.
Ninguém liga pro vento, e é vento de verdade, da rua.
Vento que também deve ter visto o pôr-do-sol de hoje. Antes de vir pra essa sala.
Eu vim parar numa sala de parede branca chapiscada. E tão amarela...
Com crianças e adultos que nem se importam com o vento. Só se importam com a TV. Nem devem enxergar amarelo (a menos que eu mostrasse os borrões que estou fazendo no papel).
Até o homem comilão e frustrado lambedor de dedos parece se importar com a senhora narradora.
(devo estar como que amarelo-enciumada das relações nessa sala)
E o Vento desprezado, coitado.
Deve ter sido ele que amarelou a sala. Amarelou de vingança.
Será que o papel marcado pelas dobraduras, que tirei do meu bolso e borrei todinho com a caneta, ficará raivoso e amarelado depois de borrado por completo?
Não sei.
Mas ele acabou agora. Minha caneta está fazendo cócegas na sua bordinha sem linhas.
E agora?
Será que se eu falar mais que as crianças, e pedir pra senhora que me olhava, ela começa a narrar tudo de novo?

5 comentários:
Oi. Quanto tempo. Como você está?
Abraço.
:O LIndo
De todos os seus textos foi o que mais me tocou, as metáforas de cores. me pegou. XD
bjs.
Lindo texto... mesmo vc naum gostando de crianças que gritam e que correm rsrsrs.
Muitoo massa!
Minha literatona tah cada vez melhor.!
E esse uso de metáforas aí, cobra qt pra ensinar?
Vc vale ouro Keeu!
bjoos.
Keu, tudo bem? Faz tanto tempo que não consigo falar contigo e com a Ana. Aconteceram tantas coisas. Espero que possamos nos falar; diga a Ana que eu mandei um abraço e um oi (que não esqueci dela e que espero falar com ela tbm).
Abraço.
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