...Toda Querança...

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domingo, 9 de outubro de 2011

Até a sua volta

Texto para ser lido ao som de "Stolen Moments" com Alicia Keys.

Eu não culpo ninguém além da culpa sacana que me toma por cada vez que não me permiti ser tua.
Se tem uma lição que nunca aprendi é 'vale mais um passarinho na mão que dois voando'. Geralmente esmago o que tenho na mão, ignoro o que voa mais perto e fico esperando o que já está voando pra longe.
Sou correta demais, por isso é tão difícil achar a resposta.
Sinto sua falta agora. Talvez seja a noite começando ou o sábado. Eu poderia culpar qualquer coisa, a sua falta ainda estaria aqui. E você não.
Sinto falta de você me olhando enviesado enquanto eu fingia estar concentrada em qualquer outra coisa... Sinto falta de você me dizendo meio enfezado que eu não entendo de futebol sempre que eu conseguia te vencer nas discussões sobre o assunto; sinto falta de te beijar o rosto inteiro mas não a boca, só pra ouvir os teus protestos... E então te deixar me beijar devagar, vencedor. Sinto falta da gente tentando cantar aquela música famosa e rindo alto do insucesso... Não tinjo lembranças, elas serão da cor que os momentos o foram. Não remendo momentos passados, eles terão o formato irregular que os fizeram dignos de lembrança, mas acontece que o desejo é a interseção entre o Real e o Improvável. E o desejo é tudo que tenho aqui.
Às vezes a gente tem medo de se doar pelo risco eminente de ser jogado fora. O tempo perdido não será tempo perdido se você aprender com ele a não desperdiçá-lo mais. Então, onde é que a gente penhora todos os beijos de adeus por beijos de chegada?
Das coisas boas da vida: gente que te fala com o coração e diz pro teu se sentir em casa. Você fez isso e hoje eu te reconheço em mim. Olho-me e identifico pedaços teus, cheiros teus, palavras tuas... E rio um pouco do teu sorriso, - que em mim é estranhamente triste - achando toda essa bobagem amor-frankenstein a coisa mais fantástica do mundo.
Presença que vicia, ausência que angustia.
Assim como todos os produtos, sentimentos mal resolvidos deveriam ter prazo de validade. Você exigiu que eu não fosse. Respondi que iria assim mesmo. Agora que não fui, cadê você pra me sorrir vitorioso?
Não tenho muita coisa a perder, mas de todas, de todas elas... Perder a esperança me aterroriza. Perdi papéis, pessoas, lugares, afetos, certezas... Mas não foi o tempo que as tirou de mim. O tempo só toma de nós as coisas que deixamos frouxas.  (Ele me tomou você? Pergunto-me.) A verdade às vezes é como uma moça feia com um coração puro: pode não encher os olhos, mas é a companhia certa e mais digna que se pode ter.
Nunca tive problemas com minha pequenez. Via nela até certo charme... Até o dia em que amei coisas que não podia alcançar.
Não sei disfarçar desconforto, não sei camuflar desagrado. Não sei forjar amor. Sou irritantemente desteatralizada com sentimentos. Cadê teu casaco desproporcionalmente perfeito em mim? Cadê tua mão afastando o cabelo do meu pescoço e tua voz calma preparando o terreno pros teus beijos? (embora me esforce, não consigo lembrar o que me dizias... a proximidade da tua boca com meu ouvido, a lembrança do teu hálito aquecendo minha nuca... O que são mesmo palavras?)
 Sempre gostei do teu sorriso. A verdade é que ainda gosto. Só não acho que tua boca fica assim tão perfeita longe da minha.
Não se trata de desilusão. É de um coração com cãibra que estou falando.
Em sendo nativos ou estudiosos, a vida é um idioma no qual nunca conseguiremos a devida fluência. Não me mande flores. (não as mande mais!) Traz-me tu ou deixe-as a outras. Mais importante que as flores são o teu olhar a entregar-mas.
Acho duma imperdoável audácia essas flores sorrindo em cores anunciando a primavera que você não passará ao meu lado. Toda lembrança reduzida aos desenhos feitos distraidamente na borda das páginas... Eu te contaria que voltei a escrever, exatamente como você queria. Eu te contaria se você me ligasse pra falar horas e horas como antes, eu te contaria se você tivesse coragem de me olhar e não preferisse mandar e-mails cordiais.
Ontem foi sexta-feira, minha folga como sempre, lembra? Mas você não apareceu pra me obrigar a sair da cama e ficar linda pra almoçar contigo. E depois, abraçados, eu te perguntaria mil vezes se você tem mesmo que voltar ao trabalho... E você precisaria correr um pouco, pisando no acelerador com um sorriso idiota de canto, ao lembrar que o motivo do teu atraso eram os meus beijos que ainda fervilhavam na tua orelha e meu gosto que ainda seria sentido quando você umedecesse os lábios.
Em dias opacos como hoje, bastaria teu abraço sincero pra me fazer reconsiderar todas as cores. Ou o teu carinho fora de hora e a gente naturalmente quietos depois de ter estado ofegantes há alguns instantes atrás.
 Não sejamos fantasiosos: pessoas inteiras não existem. Inteireza requer uma obra acabada. Troco essa semana inteira pelas tuas mãos na minha cintura e essa primavera inteira pelo teu beijo de boa noite.
Acho que vou dormir mais cedo, tenho feito muito isso. E vou me assustar várias vezes à noite, coração desperto em expectativa confundindo qualquer som na rua com o das tuas chaves abrindo a porta... Mas onde você estiver agora, esquece que te mandei ir e volta.

3 comentários:

Nanda disse...

Eu chorei... meu DEUS Como eu chorei. Vc sempre tem a capacidade de me ser linda nos seus textos, eu me vi radiografada, eu trocaria tanta coisa por um só momento, tanta...

Amo você e essa sua mania de ser perfeita!

Fabrício Franco disse...

Fico extremamente contente em saber que seu desejo blogcida foi devidamente defenestrado. É bom reler suas palavras em novos textos, ainda que permaneça aquela leve sensação de ser um filme seriado, ou uma 'obra de autor', com os mesmos temas sendo revistos em diferentes ângulos. Nada disso faz o que se lê ou vê pior, ao contrário, dá nova e maior dimensão ao todo, explica-se melhor o que talvez ainda reste inexplicado (ou que nunca se explicará, mas nem por isso deixamos de tentá-lo). Gosto de vir aqui e descobrir textos novos. Sempre.

Beijos!

Biah disse...

"Em dias opacos como hoje, bastaria teu abraço sincero pra me fazer reconsiderar todas as cores."

Lindo! Amei o texto. Até lembrei-me do que já disse Martha Medeiros: "Esses homens... Como ficam importantes depois que somem"

Abraços.