Texto para ser lido ao som de 'Cupido' da Maria Rita.
Às vezes penso que o amor é um suéter clichê tricotado a quatro mãos. Mas sempre tive problemas com essa coisa de pertencimento, isso de mais alguém em mim, essa afronta gostosa que ofusca o senso do ridículo.
Acontece que não sei sentir arrumadinho e peco em burocratizar quereres. Às vezes me falta gana... E sobra tino. Por isso não tenho pique para mil amores. Entrega de verdade é como vinho.
Triste que a magia das coisas e a fé boba nem sempre crescem junto conosco. São como calças que vão encurtando... Até que a gente se desfaz.
Confesso que andei considerando a apostasia amorosa, mas não é pra mim.
Ainda quero tuas mãos medindo a minha cintura, teu olhar violando o meu decote... E minha língua cobertor pra tua orelha fria.
Ainda quero você debruçando os olhos em mim no equilíbrio perfeito de desejo e doçura, ainda preciso do teu abraço-encontro, doado.
A gente se viu. E em casa, me olhando no espelho, despontou um sorriso bobo. Percebi que era teu... E que já tem demais de você em mim. Porque a gente se desdobra na gente. E paira aquela sensação boa de sentimentos se cumprimentando.
Com a gente é sempre assim: a princípio olhares que se perguntam, em seguida, línguas que se respondem.
O batom que eu ponho é só pra adornar a cesta de beijos que te guardo; pra que logo vivamos todas as boas e gastas metáforas sobre plantar e colher. De tanto te ter, poderia ser guiada pelo som macio da tua respiração no escuro. Sei que sou tua da mesma forma... Assustador, não? Às vezes é medo de amar, às vezes é só retardo sentimental.
E soa tão brega essa coisa de encontro, de amado... É o que dizem, mas sinceramente não me importo. Visto a minha breguice sem pudor. Assim como te quero sem precedentes. Afinal, não são os apaixonados um bando de crianças travessas que querem lançar dardos de felicidade no resto do mundo?
Cansei de afeição sob medida, você precisa saber que venha quando vier, terei o sorriso certo, o abraço ditoso e o beijo intato separados pra ti.
Estive com o coração leve, moço. E não sabia dizer se era leveza de pureza ou vazio. Já pensou se não for a gente que sente demais e sim o mundo que precisa esticar as pernas dormentes pra sentir como nós? Pois.
Romantismo é a parte em carne viva da gente que brota de dentro pra fora. E ainda é a mais bonita. Manter a alma leve desdolorisa a vida. E não é nada senão o amor, capaz de inflá-la.
Já chorei densos rios, mas já sorri sóis e verões inteiros. E agora, quero fazer ambos ao teu lado.
"Eu vi quando você me viu
Seus olhos pousaram nos meus
Num arrepio sutil
Eu vi... pois é, eu reparei
Você me tirou pra dançar
Sem nunca sair do lugar
Sem botar os pés no chão
Sem música pra acompanhar
Seus olhos pousaram nos meus
Num arrepio sutil
Eu vi... pois é, eu reparei
Você me tirou pra dançar
Sem nunca sair do lugar
Sem botar os pés no chão
Sem música pra acompanhar
(...)
Você me tirou todo o ar
Pra que eu pudesse respirar
Eu sei que ninguém percebeu
Foi só você e eu...
Foi só por um segundo
Todo o tempo do mundo
E o mundo todo se perdeu
Ficou só você eu eu"
Pra que eu pudesse respirar
Eu sei que ninguém percebeu
Foi só você e eu...
Foi só por um segundo
Todo o tempo do mundo
E o mundo todo se perdeu
Ficou só você eu eu"
[Cupido - Maria Rita]

3 comentários:
Símiles pelo acaso, meu post de hoje também rumou para as bandas do amor. Contudo, seu texto é mais entrega, mais entalhadura, mais eloquente do que o meu. Melhor que seja assim, pois tenho lido aqui o que às vezes me falta saber dizer. Aprendo, apreendo e me admiro, vezes sem conta.
Beijos, moça escarlate!
Há um tempo, injusto tempo, que não venho aqui correr meus olhos nessas linhas que tua escria compõe como quem tece a vestir o mundo de belezas tantas... Volto e estás maravilhosa e ainda melhor a cantar o amor com maestria... Não chego tão longe, as asas de minha pena não voam tão alto, mas aí paro aqui, contemplo, me encanto e reconheço que é bom que "teças"... Tece e eu me deleito... sempre.
Quanta intimidade com as palavras!
Acho que babei um pouquinho, me desculpe.
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