Cruzou os braços com força sob o peito magro, fez beicinho. Era tão inadmissível aquele atraso! Há quase 30 anos espera o amor bater-lhe à porta.
Cansada, Adriana enjaulou os sentimentos, fez uma laqueadura no coração e retirou-se para o interior. Prometeu-se crer no mantra de sua própria autoria: “O amor é o maior engodador da história.”
Havia acreditado em encontros casuais para amores eternos, agora se maldizia: fora tola.
“Enquanto houver crença em príncipes encantados, haverá tias solteironas” discursava ela entre amigas. Ainda assim, via-se naquela cara brava o quanto a alma lhe ardia.
***
Sérgio não era o que se pode chamar de um homem viril. Era doce e terno como só os homens imbecis podem ser. Mais amado que amante.
Estalou dedos, acariciou a barba, pensou, fez cálculos, anotações... Impossível determinar quando acreditara ter se tornado o homem mais apaixonado do mundo. Foi correspondido. Ela exigia-o inteiro, ele queria-se indivisível. Não tinha como dar certo.
"Crudelíssima, crudelíssima" exclamava. "Crudelíssima, crudelíssima" entoava mentalmente. Assim ele definia a moça que lhe dissera repetidas vezes um ‘eu te amo’ choroso.
***
Eram então dois desacreditados na praça: ela abre a bolsa, vento açoita papel. Ele não se mexe, fatura do cartão cola-lhe na testa. Adriana xinga, Sérgio ri...
Ele estende-lhe o papel, endireita os óculos. Ela tira o cabelo do rosto, ajeita o decote. Os dedos se tocam. Olhares. Mais vento... Ela agradece e num impulso pergunta se pode sentar-se. Ele finalmente solta o ar. Conversam.
Um querendo a sinopse da alma do outro...
Não temos as mesmas paixões, disse ela. Nem as mesmas opiniões, disse ele.
“É o suficiente”, concordaram intimamente. Agora começavam a sentir-se felizes com a incompatibilidade.
Como haveria de ser, a evidente improbabilidade de uma atração fez com que a atração emanasse.
E depois daquela tarde, partiram re-crentes no amor. Amor de arremate: sentimento viscoso e duradouro que deve tudo à travessura do vento.
"...Se tem que durar,
vem renascido o amor
bento de lágrimas.
Um século, três,
bento de lágrimas.
Um século, três,
se as vidas atrás
são parte de nós.
E como será?
O vento vai dizer
lento o que virá,
e se chover demais,
a gente vai saber,
claro de um trovão,
se alguém depois
sorrir em paz."
são parte de nós.
E como será?
O vento vai dizer
lento o que virá,
e se chover demais,
a gente vai saber,
claro de um trovão,
se alguém depois
sorrir em paz."
(Los Hermanos)
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6 comentários:
Não amor perfeito, isto que o torna tão perfeito e com grande possibilidade de evoluir mais...
Fique com Deus, menina Keu Azevedo.
Um abraço.
"Não temos as mesmas paixões, disse ela. Nem as mesmas opiniões, disse ele. 'É o suficiente', concordaram intimamente. Agora começavam a sentir-se felizes com a incompatibilidade. "
Adorei esse trecho. Temos verdadeira mania por querer encontrar alguém perfeito e na verdade esses são os romances com mais chance de dar errardo rsrsrsr
Grande beijo.
Keu, sempre que venho aqui, a minha alma se distrai um pouco.
Às vezes a gente nao entende que [não ter nada em comum], é o que nos faz apaixonar.
A gente "cega" rotulando amores, quando na verdade o amor transcende todos os rótulos. Quando a gente ama, o imperfeito se torna perfeito.
PS: Orkut não é o melhor site para se relacionar com amigos, mas digo que é bom te ter por lá. E obrigada por me lembrar de vir aqui ter ler.
Beijocas carinhosas!
As vezes ser diferente de quem amamos é o que nos torna exatamente iguais.
Adoro te ler companheira de ficar de queixo caído pelo Wagner Moura!!!!!!
Beijos!
Já vim aki sorrateiramente umas três vezes ler este conto.
Volto agora com coragem pra dizer que não há o que se comentar dele.
Amores imperfeitos, são as flores da estação...!
Sem mais.
Abraços querida amiga.
Muito bom o post!!!
Parabens,muito bom!!
Conheça meu espaço...
http://mailsonfurtado.blogspot.com
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