Eu sou aquela pessoa cheia de maus hábitos e manias incuráveis... (Deus sabe até quando!)
Essa pessoa sem penduricalhos, sem extravagância por fora, abarrotada por dentro. Trago na barra da saia pouca malícia, pouca sorte... E os assovios calmos, monotônicos, que destoam dessa ansiedade que me cobre. Como um rio: águas avulsas, sentimentos caudalosos. Às vezes sacio tua sede e te molho mansa; às vezes te afogo em águas turvas, te naufrago em mim.
Quase sempre penso que todo ser humano deveria vir com 'botão de alheiamento' e, com um clique, bloquear tudo para que está pouco se lixando. Eu queria isso, mas não consigo ignorar, não com essa alma em carne viva que eu carrego.
Ainda gosto de gente. Gosto.
Gosto de gente capaz de ficar enternecido pela tristeza alheia, gosto de gente que se deixa impregnar pela ventura do outro e é capaz de, sinceramente, desejar-lhe mais. Gosto de gente que usa sarcasmo como defesa porque sei que, assim como eu, são indefesos. Por isso sinto que preciso ser condensada, ando demasiadamente humana: emoções esparramadas.
Vejo gente querendo sair, querendo fugir, querendo sumir... Quanto arfar de asas presas, quanto farfalhar de penas impacientes...
E sabe porque? Inconsistência. O mal do século é o amor regrado: dieta de entrega, comprometimento racionado.
É fazer um bom uso dessa capacidade humana: amar. Sem, é claro, esquecer os inúmeros vieses do amor.
Amor, amor mesmo, está também no inconveniente que é dito, na merda perdoada, nos defeitos aceitos, na mesmice dos dias, e é claro, na cumplicidade tola. Bobagem querer um coração que ria o tempo todo... Não é sangue que ele tem? Deixe-o sangrar de vez em quando, é hemodiálise na alma.
Temo por mim, tenho um coração de inverno, do tipo que o calor das mãos facilmente derrete. (Manusei-o com cuidado). É um coração de papel, ao menor sinal de lágrimas, desmancha-se.
Do tipo que não te dirá 'eu te amo' facilmente porque é um processo custoso. Mas quando finalmente ouvires, retenha para sempre, será teu bem irrevogável.
Em si tratando de amor sou como um vira-lata: cravo os dentes num osso qualquer. Sentir mesmo que um sentimento de caldo seco, é substância. Eu gosto de sentir, gosto. E isso me mata.
Trocaria articulação e doçura por menos intensidade.
Preocupo-me espinhadorçalmente com o rumo das coisas, da gente, do resto, de toda a gente... Sofro com a insensibilidade do mundo, com a perda sensorial das pessoas, com o desregramento da vida.
E a minha consciência borbulha, meu coração se contrai. Quando sofro é sofrer de inferno, quando sorrio é sorrir de fazer abrir sol no inverno.
Eu sinto muito, denotativamente falando.
- Por que, meu Deus, deste alma demais presse corpo tão pequeno nesse mundo tão grande?
"Nem sempre foi assim, outro mundo é possível.
Pode até ser o fim, mas será que é inevitável?
Não vá dizer que eu estou ficando louco
só porque eu não consigo odiar ninguém.
Do goleiro ao centroavante, do juiz ao presidente
...Eu não consigo odiar ninguém."
(Engenheiros do Hawaii)

7 comentários:
esse texto todo assim, feito de alumbramentos, resume uma frase minha de outro dia: minha alma busca expansão mas, meu corpo é uma kitnet.
Adorei conhecer seu cantinho, especialmente esse último texto, que se torna ainda mais gostoso e ritmado por ser despretencioso.
De vez em quando, escrever é uma forma de conversar com um pedacinho nosso que parece inalcançável.
Beijo!
www.papoderomeuejulieta.blogspot.com
www.relicariovazio.blogspot.com
Interessante te ler assim, mas é melhor viver a vida de forma visceral do que viver de forma apatica...
E te entendo a parte de dificuldade de dizer "te amo", pois não são simples palavras, são uma promessa de algo precioso.
Fique com Deus, menina Keu Azevedo.
Um abraço.
Ai ai, vim ler-te e descubro que me li junto...As suas palavras, sua impressões e sentimentos tão escancarados aí no texto só me mostram minhas ansias e meu eu doendo sempre amor.
Dizer eu te amo...Tão pouca gente se atenta para o q é amar e abre a boca a iludir e a falar do que nunca sentiu...
Vc me leu dmais aí amiga...Lindo texto!
Texto maravilhoso Keu!
Coração de inverno... acho que já tive um coração assim, mas sinceramente já não sei... :(
O mundo anda tão equivocado não é verdade?
Bjos
Só pra dizer que tive por aqui.
Valeu "gordinha".
Fica com Deus.
Bruno.
Querida... sempre procurei alguém pra decifrar a minha alma. Encontrei no teu texto, algo melhor.
Não sabes como me fez um bem.
Beijo!
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