Fechou os olhos, arqueou os pulmões, soltou o ar... Nada. 27ª Tentativa. Olhos úmidos... Sentiu-se impotente. Queria imitar o resfolegar impaciente dele. Nunca imaginara que fosse sentir saudade disso, mas sentia.
Sentia todos os poros esfumaçarem angústia. Lamuriava sozinha sob a luz amarelada da sua varanda. Dali a algum tempo, lembraria desse tempo como o pior de sua vida.
Idealizava compressas de amor para sua alma aflita... Nada. A pele queimava de dentro pra fora, sofria de despejo: um coração sem ter pra quem ir.
Tudo havia começado dois anos antes: ela estagiária, ele funcionário do mês.
Sério, profissional, cabelos curtos, unhas bem cuidadas...
Um trabalho juntos, uma jantar juntos, uma noite juntos: ofício, degustação e pele, pura pele. Conectaram-se.
Ela pequenina, olhar estreito, lábios fartos e nudes. Expôs o corpo, disfarçou a aridez de sentimentos em que se encontrava.
Meses de encontros, vinhos e noites suarentas.
Aquela mania dele de ficar rodando o anel do indicador, aquela mania dela de massagear a própria nuca.
Beijavam-se com afinco, sugavam-se, mordiam-se, e eram sempre amontoados de carne procurando paliativos.
Ele e seu queixo imponente, ela e suas pernas lisissímas.
Ela desbocada, ele discreto.
Ambos pisoteando o campo da paixão com botas enferrujadas. Medrosos: preocupados com a saciedade, amantes fugazes.
Escolha de filmes: discurso dela, arrogância dele.
Uma briga, ela sugere o fim. Mais meses.
Cinco da tarde. Ela olhou de lado: a simples presença dele ali, mesmo que mudo, ainda causava uma fricção porosa na alma, enlarguecia-lhe o sorriso. Pediu demissão.
Outra cinco da tarde. Ele falido. Após 13 dias no escuro olhou ao redor: cercado de papéis amassados e manchas de café. Ninguém havia reclamado a sua falta. Pediu pra morrer.
Encontraram-se: Ele falou por 2 horas, humilhado. Ela assumiu o sentimento, constrangida. Eram duas crianças devastadas que só queriam se abraçar e dormir até o dia amanhecer.
"Todos caminhos trilham pra a gente se ver
Todas as trilhas caminham pra gente se achar, viu
Eu ligo no sentido de meia verdade
Metade inteira chora de felicidade
A qualquer distância o outro te alcança
Erudito som de batidão
Dia e noite céu de pé no chão
O detalhe que o coração atenta...
Todas as trilhas caminham pra gente se achar, viu
Eu ligo no sentido de meia verdade
Metade inteira chora de felicidade
A qualquer distância o outro te alcança
Erudito som de batidão
Dia e noite céu de pé no chão
O detalhe que o coração atenta...
(...)
Você passa, eu paro
Você faz, eu falo
Mas a gente no quarto sente o gosto bom que o oposto tem
Não sei, mas sinto, uma força que embala tudo
Falo por ouvir o mundo, tudo diferente de um jeito bate."
Você faz, eu falo
Mas a gente no quarto sente o gosto bom que o oposto tem
Não sei, mas sinto, uma força que embala tudo
Falo por ouvir o mundo, tudo diferente de um jeito bate."
Maria Gadú
6 comentários:
E quanto vezes não damos o braço a torcer e por isto perdemos o que é importante para nós...
Bom final de semana para ti =P
Fique com Deus, menina Keu.
Um abraço.
Que digno!
Todo mundo gosta de uma história de amor. Beijos.
Que texto delicioso e verdadeiro.
Se o amor fosse feito só de troca de pele, ele perderia todo seu sentido.
E tem toda essa excitação que acompanha o amor, coisa rara e linda!
Ah meu, tá virando clichê, mas amo tudo que escreves!
beijo grande!
oi, estou passando para comprimentar-lhe pelo seu texto, ficou muito bom mesmo, e convidar-lhe para passar nomeu espaço http://otaviomsilva.blogspot.com/ , será um prazer ter você por lá. Obrigado pela atenção e parabéns novamente.
Nunca li algo tão "meu" momento....
O amor e seus mistérios...
Texto delicioso Keu!
Bjos
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