Ficam com aqueles olhos grandes enumerados, fitando-me... Trazendo aquela opressora noção dos dias transcorrendo... Com seus meses escritos tripudiando do sucedimento do tempo sob mim...
Evocando lembranças que não quero, esfregando datas e datas na minha cara: prazos, aniversários, ausências, ESPERAS...
Calendários são o símbolo mais macabro da minha impotência, do meu não-controle e dessa passagem cruelíssima da vida... Bem embaixo do meu nariz.
Não é apenas medo de envelhecimento, acho envelhecer uma coisa bonita - abstratamente falando – o problema está nas garras do tempo. No registro minucioso de sua passagem. No tic-tac que fica zumbindo nos ouvidos e nas marcas atemporais que o próprio tempo imprime.
[Envelhecer é uma tentativa de regressão: a pele, por exemplo, que foi fisiologicamente forçada a espreguiçar-se e recobrir um corpo cada vez maior, um dia simplesmente atendendo às sugestões maliciosas do tempo, decide que é hora de retroceder... Vai enrugando-se, franzindo-se... Querendo com dobras, reaver o que lhe fora roubado: a pequena maciez da infância, a beleza admirada. Não consegue. Torna-se um manto de flacidez murchosa. Isso não é algo só de pele, porém esse texto não é pra falar de alterações físicas da passagem do tempo, é pra falar da minha revolta com esse caminhar reboante que o tempo tem e com a catalogação angustiante de quem somos e fazemos enquanto o vemos passar].
Por isso odeio calendários. São como uma criança que insiste em cutucar minhas costelas perguntando: “e então, já chegamos? falta muito?” Não estou questionando a utilidade da marcação do tempo, estou dizendo do quão tirânico isso é.
Eu sou infantilmente contra essa contagem do tempo. Que não o impedirá de passar jamais, que tenho que obedecer, que é a sinfonia regedora do universo e tudo (todos) que nele há. Mas sou contra.
Terminantemente contra essa imagem de bloquinhos e numeroszinhos me dizendo quando descansar, comemorar, cumprir, dormir, comer, morrer...
Minha contrariedade importa? Não. Mas a tenho... Aqui... E não deixarei que soma alguma de datas e estações, que alternação nenhuma de horas, comprimam ainda mais, o que restou de arbitrariedade em mim.
'O vento toca o meu rostome lembrando que o tempo vai com elelevando em suas asas os meus dias,desta vida passageira...Minhas certezas, meus conceitos,minhas virtudes, meus defeitos...nada pode detê-lo....O tempo se vaimas algo sempre eu guardarei:O Teu amor, que um dia eu encontrei.'(Oficina G3)

1 comentários:
Amoo essa músicaa!
Amoo pq remete ao passado, passado que aliás me orgulha e que vc faz parte.
Criar expectativas e esperar faz parte da vida, ao longo dos anos, o tempo vai encurtando e nossa personalidade se ajustando.
Depois dos 20, o medo de calendários aumenta, mas eu venci esse medo, não tenho medo do tempo...O vinho a cana ano melhora, qto mais velho fica...Comigo também é assim.
Bjoo amiga.
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