Conheceram-se há quase 6 meses atrás. Ele quase 22, ela quase 16.
Ninguém perceberia que havia mais do que uma necessidade abrupta de aprender matemática. Thaís ia para as aulas de reforço duas vezes na semana, e pensava nelas os outros 5 dias que restavam.
Era uma menina madura pra sua idade, mas até os mais maduros estão sujeitos às paixões infantis. O que é o verdadeiro amor senão uma entrega voluntária aos sabores do outro? Quem ama compraz-se em diluir-se para que o outro o experimente, por inteiro.
Marcelo era sem dúvida um bom rapaz. Tinha a voz calma e o sorriso cansado, cabelos escuros e curtos, magro, gentil, quase seguro. Nada demais.
O suficiente para Thaís. Apaixonou-se primeiro pelo jeito que ele segurava o lápis, a forma enroscada como escrevia; apaixonou pelo número 2 e número 5 que só ele sabia fazer daquela forma. É provável que não houvesse igual no mundo.
Apaixonou-se pelo jeito com que ele juntava os farelos de borracha (resultado das correções) apaixonou-se pelo olhar recriminador com que lhe chamava atenção – um jeito tão incomum de torcer a boca, de quase fechar um dos olhos – e pelo suspiro quase profundo que ele dava ao final de cada aula. Apaixonou-se pelo cheiro de madeira e travesseiro de bebê do perfume que ele usava. Apaixonou-se pelas miudezas de Marcelo. O rapaz de dedos longos e óculos dourados.
Marcelo era filho de uma amiga de sua mãe e aceitou essas aulas por quase não saber dizer ‘não’. Não que ensinasse mal, pelo contrário, era um excelente professor, apenas preferia gastar aquelas 2 horas ouvindo Coldplay e tecendo planos.
O que Marcelo via? A princípio nada. Quase apático. Aquela era a menina de que ele mal se lembrava o nome quando não estava na sua presença. Mas um dia, alguma coisa mudou. Não convém explicar como mas ao final da aula Thaís chorou. Sem motivo aparente ela desatou a chorar enquanto fechava o caderno. Estava cansada de escrever quase quatro páginas diárias e só falar dele antes de dormir. Sabia que aquele seria o último encontro, faria no dia seguinte a prova temida, não precisaria mais das aulas.
Soluçava enquanto juntava canetas, fechava zipers, não ousava erguer os olhos, não queria ver o desdém estampado no rosto dele. Não.
Ele não se moveu, quase não poderia notar-se sua presença ali se não pelo barulho fraco da sua respiração... inalterada. Ela tentava ser rápida, juntar suas coisas... Seus dedos não colaboravam, seu corpo inteiro estava dentro de um caldeirão, fervia. Era a ebulição de uma despedida. Quando finalmente terminou de arrumar suas coisas, tentou levantar-se e correr para rua, uma voz a interrompeu.
“- O que aconteceu?” Ele dissera... Ah! Quantas vezes, sozinha em casa havia repassado aquela cena em sua memória... “O que aconteceu?” havia mudado tudo, tudo.
Ela não o fitou de imediato, mas quando o fez, com seus olhos encharcados, viu passar pelo rosto dele uma breve expressão de angústia, que apenas dançou por ali, e se desfez, dando lugar às mesmas sobrancelhas relaxadas de sempre. Ela não respondeu, e uma lágrima vaidosa quis mostrar-se, encheu-se e encaminhou-se lenta pelas maçãs do rosto úmido, parou. Redonda o suficiente para cumprir o seu propósito secreto. Thaís não se lembra como foi, mas num instante menor que o piscar daqueles cílios pesados, Marcelo se inclinou só um pouco e extinguiu aquela lágrima presepeira com o próprio polegar.
- “ o que aconteceu?” repetiu ele, como se tantos números (tantos 2 e 5 lindos) tivessem-lhe sugado o vocabulário.
Ela não respondeu. E como se quase todo o céu coubesse no espaço de um toque, como se o aconchego de quase um mundo inteiro fosse possível, ele a abraçou.
2 comentários:
Ai ai, como você mente, eu nunca sei quando aqui estará atualizado... lalala
De qualquer forma, ótimos post, embora você tenha esquecido de desenvolver a relação filha-padrasto que eu pedi ¬¬
Quando eu for aí e lhe rodar...
beijos. XD
Tens talentos, muchacha. Goste destas narrativas...e o proximo cap.?
Abraço.
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