Adiantou-se mais um pouco e chamou por Ângela que não respondia.
Percorreu os cômodos, mas não a encontrara.
Talvez tivesse saído... Não costumava sair àquela hora, principalmente às tardes como as daquele dia, Ângela sabia que ele viria vê-la.
Decidiu esperar. Não teria ido longe... Aquela ausência veio mesmo a calhar, ainda estava nervoso.
Sentou-se na ponta do sofá como só o fazem os ansiosos ou apressados.
Olhava as coisas ao redor, pensava...
Onde morariam depois do casamento? Gostava da casa de Ângela, familiarizara-se a ela com o tempo... Mesmo assim, preferia que fosse na sua casa, ele era mais organizado, tinha mais espaço e principalmente, seu imóvel não possuía nenhuma lembrança de velório.
Ângela concordaria. Nova vida, novos ares... Pelo menos para ela.
Passara-se vinte minutos e Jonas já girava menos a caixinha em suas mãos.
Afinal, aonde Ângela haveria de ter ido?
Pousou as alianças sobre o centro da sala. Esticar as pernas enquanto esperava não lhe parecia mal.
Caminhou um pouco... A princípio de forma meio oblíqua. Ocorreu-lhe então, perguntar à vizinha do lado direito, Margô, se sabia da Ângela.
Margô e Ângela eram amigas mesmo antes do reencontro do Jonas com o Jorge e do romance furtivo dele mesmo com a Ângela. Era a única pessoa que soubera dos encontros antes do falecimento de Jorge, reprovara vorazmente, mas com o tempo acostumara-se com a idéia e, por amor a amiga, fizera-se cúmplice e depois, ajudadora dos dois.
Logo estava à porta de Margô batendo freneticamente – a esta altura já estava preocupado com o sumiço de Ângela – depois dos cumprimentos de rotina, Jonas perguntou de pronto sobre sua futura esposa, Margô certamente saberia aonde a outra se meteu.
Deparou-se então com um rosto um tanto sombrio. Margô que era geralmente expressiva e falante, sem dizer palavra, fez apenas um sinal para que Jonas esperasse e voltou-se para o interior da casa como que buscasse algo.
Jonas que não entendera bem o gesto aguardou impaciente o pouco tempo que se passou até que Margô retornasse com algo nas mãos.
Como que refletindo sobre as palavras que falaria, a mulher de olhos castanhos e vivos principiou:
- Eu achava melhor que ela tivesse te contado, a aconselhei, mas você sabe, ela nunca me ouve...Não me ouviu nem quando eu era contra o caso de vocês dois. Agora, está aqui, não queria ser eu a fazer isso, não me tenha por culpada assim como não fui pro falecido – que Deus o tenha – é devoção, devoção de amizade... Acho que você entende.
Não, Jonas não entendia.
Na verdade ele só ouvira a primeira frase “eu achava melhor que ela tivesse te contado” e então não entendera mais nada.
Margô, que percebia a estranheza da situação, depositou o papel dobrado nas mãos de Jonas e pediu pra que ele se sentasse.
Apenas com a testa franzida e a cabeça rodando, Jonas sentou-se e desdobrou rapidamente o papel.
Tratava-se de uma carta, a caligrafia ele bem conhecia, Ângela escrevera de seu próprio punho decerto.
Começou a ler.
O conteúdo era breve, seu impacto imensurável.
Posso resumir ao leitor curioso que Ângela não havia ido ao supermercado. Mas havia ido sim a algum lugar.
A verdade é que a viúva descrevia em poucas linhas o motivo de sua ausência naquela e nas demais tardes: mudara-se para outra cidade.
Não por necessidade ou contenda de qualquer tipo, mas por amor.
Ela amava.
E amava agora o jovem de 18 anos que conhecera alguns meses antes, logo após o falecimento do marido. Como ele era menor de idade, conteram-se a princípio de amar-se abertamente, mas agora, completada a idade em que os pais mais nada podem fazer, decidiram tomar uma posição: ir embora e casar-se, sim... Casamento! Vida nova em outra cidade.
Justificava que Jonas era homem bom e não era mentira que o havia amado. Mas depois de passado o tempo tórrido da paixão proibida, percebera que não era o homem com quem queria estar compromissada para todo o sempre.
Era amante fiel e dedicado, reconhecia os riscos que ele correra e o mal que ela própria estava fazendo ao comunicar-lhe tudo daquela forma. Não havia outro jeito, porém.
Sabia que Jonas não aceitaria estar sendo traído, mas aceitaria menos ainda ter sido abandonado. Pedia perdão e finalizava dizendo que conhecia o caráter excepcional daquele com quem convivera: ele usaria seu bom senso para seguir em frente, seguir a vida... Pois talvez fosse coisa do destino...
Era porque não tinha mesmo que ser... Restaria aceitar.
keu azevedo
Sou egocêntrica e de um humor às vezes ácido, às vezes imbecil. Tenho péssima memória e uma timidez inconveniente. Meio desajeitada, meio lerda, nerd simpatizante. Com uma forte tendência melancólico-saudosista e uma paixão descomedida por Literatura. Gosto de estar certa, gosto de ser mimada e tenho PHD em longas esperas. Cuidado: sou altamente instável, nasci potencialmente predisposta à falhas de execução.
4 de março de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
0 comentários:
Postar um comentário