31 de agosto de 2008

A menina de pés descalços

Postado por Keu Azevedo em 31.8.08

Confesso que o amanhecer da Bahia é o que mais me agrada. A oportunidade de contemplar uma manhã incógnita de céu cor-de-rosa entre os prédios e ladeiras que são mais parte do meu corpo que do cosmos.
No entanto, o que mais me fascina mesmo é a menina de pés descalços. Não sei seu nome, e de que me importa? Ela é a menina doce, pérola escusa que vejo flutuar pelas ladeiras todos os dias, enquanto apodreço na minha janela recuada.
Sempre no mesmo horário e sempre com um semblante diferente... Seu andar vadio e olhar assustado faz-me imaginar aonde vai essa menina de pés descalços... Vejo aqueles pés perfeitamente calejados, os seus dedos curtos e suas mãos vazias, sempre vazias... E apaixono-me.
Sendo eu um homem amargo e ela a criança desesperada de quem não quero cuidar. E por mais que eu divague a esmo, esqueço-me de tudo quando ela passeia comungando com o chão pobre e dando-me a chance de viver. Que caminhar sutil. Os cabelos da menina de pés descalços tem o encanto macabro da medusa, vivos, bailam com o vento e zombam da minha má sorte.
Eu esperava ansiosamente aquele momento de vislumbre e prazer doentio, onde a menina que eu enxergava de longe se transformaria na mulher amante e terrível, que dilaceraria minha alma e me faria menos infeliz. Mas houve um dia em que ela não passou. Não desfilou naquela ladeira somente para que eu a observasse. Não apareceu àquele dia o tom azulado para minha vida cinza. Então, um temor imensurável passou de mim para o meu espaço: Perderia eu a menina de pés descalços?
Culpa da minha natureza vil, pois eu já deveria saber que quando ousa-se tocar no objeto de um sonho, comete-se o pecado de arrancar a destreza da não-realidade e por isso, ele sempre, sempre desaparece.



Fiz esse texto pra uma avaliação da disciplina Teoria da Literatura III com o professor Aleilton Fonseca... Acho q ele gostou, escreveu uns elogios simples e me deu a nota máxima [sic], foi do ano de 2007 e o tema era livre desde que baseado na viagem que fizemos a SSA, minha idéia surgiu ao ver uma colega de turma subindo a ladeira descalça, bem na minha frente... (o salto a incomodava demais naquele fim de tarde hehehe). Não é uma obra prima, e nem o poderia mesmo ser, reconheço que hoje mudaria algumas coisas, mas está aí sem alterações...

2 comentários:

À PÉ ATÉ ENCONTRAR disse...

"Culpa da minha natureza vil, pois eu já deveria saber que quando ousa-se tocar no objeto de um sonho, comete-se o pecado de arrancar a destreza da não-realidade e por isso, ele sempre, sempre desaparece."
Amiga, só posso te definir com uma palavra bem simples:Poeta...
Pois é isso q és!
Bjos e produza muiito!

Unknown disse...

Gostei muito do texto. Rico, simples, poético. Muito bom!

 

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